Nesta semana, o Mineirão reservou imagens inesquecíveis para os amantes do futebol. Arquibancadas lotadas, bandeiras agitadas e ecoando pelo estádio o grito que torcedores tiveram de represar durante a fase mais crítica da pandemia de COVID-19. Uma verdadeira catarse. Mas, camuflado por tantas cenas de felicidade e êxtase, um lado sombrio do futebol, que insiste em frequentar os campos e roubar a alegria de quem está ali para se integrar a toda essa comunhão. É o assédio sexual sofrido por torcedoras que querem fazer do futebol um cenário também delas – o que é um direito, em uma sociedade democrática.
Desde que os números da pandemia começaram a regredir e o número de torcedores no estádio passou a aumentar, surgiram relatos de assédio em jogos do Atlético. Decerto os há também em outras partidas, mas os casos registrados, inclusive em Boletim de Ocorrência, em partidas envolvendo o Galo chamam a atenção.
A boa fase do time, a empolgação pela campanha e o contentamento de poder acompanhar a tudo isso in loco, que deveriam contribuir para uma atmosfera positiva no Mineirão, deram lugar a traumas.
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A história completa está na matéria escrita pelo repórter Thiago Madureira, do Superesportes.
Débora não foi a primeira. E é triste afirmar: não será a última. Neste mesmo mês de novembro, outra torcedora – Karinne Marques Guimarães, de 21 – já havia denunciado violência semelhante, na partida do alvinegro contra o Grêmio.
O ato foi testemunhado por outras pessoas. De novo, o relato de descaso das autoridades.
Os dois agressores ainda não pagaram pelos crimes.
Atlético e Minas Arena dizem estar apurando os fatos. A Polícia Civil instaurou procedimento. As três instituições têm a obrigação, cível e moral, de ir até o fim nesses casos e em outros que aparecerem. É preciso identificar esses homens e punir.
Também urge uma campanha forte de educação (coisa que essas pessoas, adultas, já deveriam ter) e esclarecimento de que esse tipo de ato tem consequência. Ou, pelo menos, precisa ter.
A inércia dos principais agentes do futebol os torna cúmplices de cada caso de assédio nos estádios. Estimula comentários como os dezenas que podem ser lidos nas redes sociais questionando as torcedoras, tirando a legitimidade da denúncia delas e até duvidando dos relatos.
Um camarada teve a audácia de escrever que esse tipo de coisa tinha a ver com a "emoção do jogo" e deveria ser "levado na esportiva". E se fosse com ele? Será que ele iria levar na esportiva se alguém (homem ou mulher) o assediasse? Será que ele iria encarar com tanta naturalidade?
É imperativo que esse assunto chegue de forma maciça aos torcedores. Que a mulher que está no estádio não seja encarada como um objeto. Que ela tenha o direito, de qualquer pessoa, de torcer pelo time que ama. De transitar pelas dependências e fora do estádio.
O presidente do Atlético, Sérgio Coelho, precisa comprar essa briga. Afinal, a nação atleticana é feita por milhares de mulheres. Nasceu, inclusive, com a ajuda de uma – está lá, no filme Lutar, Lutar, Lutar. Ao longo dos anos, sempre teve o apoio feminino, mesmo quando a presença da mulher em estádio era recriminada pelos machistas.
Ainda hoje, eles estão por aí. Chamando de "militância" o clamor pelo simples direito de torcer. De ir ao estádio e voltar para casa apenas com as lembranças do jogo.
Por isso, torcedor, não se esqueça. A mulher que estiver ali no estádio, não está lá para você. Nem por você. Ela está lá como você. E, muitas vezes, apesar de você.