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Estado de Minas TIRO LIVRE

Pedro Rocha, o dono do clássico

O atacante esteve no lugar e na hora certos para se aproveitar de erros fatais da defesa atleticana no jogo pela Copa do Brasil


postado em 12/07/2019 04:00

(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

Trinta e três minutos do segundo tempo de uma noite fria no Mineirão. O placar apontava goleada do Cruzeiro por 3 a 0 sobre o Atlético, na abertura do confronto pelas quartas de final da Copa do Brasil. Pelo Gigante da Pampulha, ecoava o grito de “Olé, olé, olé, olé” diante da troca de passes do time celeste. Os mais de 40 mil cruzeirenses presentes, que vinham de vários dias de agonia, vendo o clube ganhar as manchetes por episódios policiais e não esportivos, lavavam a alma. Mas todo esse clima só foi possível graças a um jogador que esteve especialmente iluminado ontem: o atacante Pedro Rocha.

Dois minutos antes do “olé”, Pedro Rocha deixava o campo aplaudido. Do banco, o olhar do técnico Mano Menezes tentava disfarçar, em vão, uma dose de orgulho pessoal. O verdadeiro motivo que levou o treinador, horas antes, a optar por deixar o atacante Fred no banco e colocar Pedro Rocha de titular, num clássico permeado por tamanha tensão, pouquíssimas pessoas sabem.

Tecnicamente, era fácil explicar. Apesar de mais experiente e com reconhecido faro de artilheiro, Fred amarga longo jejum de gols, e Pedro Rocha poderia ser o fato novo que a Raposa precisava para surpreender o Galo. Mas aí calhou de o dia da partida amanhecer com a informação de que o clube celeste deve alguns milhões de reais a Fred e ao empresário dele, Francis Melo. Se o débito na conta tem a ver com a reserva, mais uma vez, pouquíssimas pessoas sabem – e menos ainda seriam aquelas a admitir a correlação entre os fatos.

De concreto é que a cartada de Mano (da diretoria, de alguma entidade divina, sabe-se lá...) foi a mais certeira do clássico. A mais decisiva. A chamada tacada de mestre. Pedro Rocha esteve no lugar e na hora certos para se aproveitar de erros fatais da defesa atleticana. O primeiro chute a gol do Cruzeiro no jogo foi dele, e foi parar no fundo das redes de Victor, que estava adiantado e não alcançou o torpedo lançado por Pedro Rocha, depois de belo drible em Elias.

Quatorze minutos mais tarde, após um presente de Réver, que errou passe com praticamente todo o time atleticano no ataque, Pedro Rocha saiu em disparada, passou por Victor e entregou a bola açucarada para Thiago Neves só empurrar para o gol. Àquela altura, os times e as torcidas ainda não sabiam, mas a partida estava decidida. Nessa jogada, o Cruzeiro sepultou qualquer chance de reação do Atlético. Até sofrer o primeiro gol, o Galo estava sólido em campo. Depois das duas bordoadas, sentiu nitidamente o golpe.

O mais impressionante é que o time celeste definiu o clássico em lances pontuais. Foi mortal. Praticamente nas únicas vezes em que mandou a bola ao gol, ela entrou – para fazer justiça às estatísticas, houve a cobrança de falta rasteira de Thiago Neves que o goleiro alvinegro defendeu. Na prática, a Raposa não teve volume de jogo nem posse de bola que significasse um massacre sobre o adversário. Contou, no entanto, com domínio emocional que lhe garantiu uma supremacia territorial determinante. Já o Galo se tornou presa fácil. Tropeçou nas próprias pernas. Foi uma equipe amarrada, sem encontrar saída. E o mentor intelectual dessa superioridade celeste foi Pedro Rocha. Robinho até faria o terceiro gol no segundo tempo, porém, todo o roteiro do clássico foi desenhado na primeira metade da partida.

Em novembro de 2018, Pedro Rocha ganhou uma estátua em Porto Alegre. Com 1,80m e 150kg, a escultura de bronze representa o herói do penta gremista na Copa do Brasil, conquistado em 2016, justamente em final contra o Atlético. O atacante fez dois gols contra o alvinegro na partida de ida da decisão, que terminou 3 a 1, no Mineirão. Não foi o clube gaúcho quem encomendou a homenagem – a peça, confeccionada pelos artistas Vinícius Vieira e Mario Caldeira, foi feita a pedido dos pais do jogador.

Pois talvez, agora, Pedro Rocha se candidate a uma estátua em Belo Horizonte. Pela atuação decisiva de ontem, por tudo o que ele proporcionou ao time, que precisava da vitória para sua afirmação, pelo alívio (ainda que temporário) que garante à diretoria do Cruzeiro num momento tão turbulento, não seria exagero o atacante ter sua figura eternizada também em alguma rua da capital mineira.



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