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Estado de Minas TIRO LIVRE

Sobre escolhas erradas

A grande questão não é tão somente o fato de não ter mulher na linha de frente da Seleção Brasileira feminina. É quem são os homens que estão lá


postado em 28/06/2019 04:00


Desde a eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da França, no sábado, veio à tona uma série de questões muito pertinentes para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil. Em meio a análises táticas, técnicas e físicas das jogadoras, chamou a atenção o fato de a comissão técnica e os cargos diretivos na Seleção serem ocupados, majoritariamente, por homens. Realmente, é de se discutir essa falta de representatividade feminina. Direta e indiretamente, ajuda a mostrar quão machista o esporte ainda é em nosso país. Mas o debate não se encerra aqui. Pelo contrário: esse é apenas o ponto de partida.

Em primeiro lugar, é necessário muita racionalidade nos argumentos para que a gente não jogue tudo numa vala sexista. A grande questão não é tão somente o fato de não haver mulher na linha de frente. A discussão principal é outra: quem são os homens escolhidos para estar lá. Ainda: por que eles estão lá?. E vou além: não haveria mulheres qualificadas?. Ou até mesmo homens, mas com maior identificação e folha de bons serviços prestados especificamente ao futebol feminino – e, por consequência, mais bem preparados para a função?

Pois nos últimos dias eu me debrucei nessas interrogações, buscando respostas com pessoas que estão dentro do futebol feminino, inclusive na Seleção Brasileira. E a resposta é: sim, há nomes mais apropriados no mercado. Incluindo de mulheres, ressalte-se. O que falta é vontade política (ou coragem política) para mudar.

Pra começo de conversa, é sabido que Marco Aurélio Cunha, médico e ex-dirigente do São Paulo, não se tornou coordenador de seleções femininas na CBF por sua identidade com o futebol feminino. Longe disso. A vida esportiva dele foi toda construída no masculino, o que prova que até na entidade falta reconhecimento ao trabalho de quem vive de fato o futebol feminino. Ele está lá desde 2015. O ápice das críticas veio agora, mas já há algum tempo Cunha divide opiniões, na CBF e no meio de atletas, ex-atletas, treinadores, etc...

Vadão é outro caso difícil de explicar. Não por ser homem. É pela falta de currículo e resultados para justificar sua presença como técnico da Seleção mesmo. Já são quatro anos, divididos em duas passagens, sem resultados relevantes apesar de contar com uma geração que tem jogadoras do quilate de Marta, Formiga e Cristiane. Há de se destacar que algumas atletas do Brasil gostam dele, pelo estilo “boleirão”. E talvez até por isso não tenham partido do grupo críticas abertas ao trabalho do treinador, sobretudo das mais experientes.

Mas o grande senão aqui é a competência. Veja a Seleção Inglesa, que ontem cravou sua vaga nas semifinais da Copa do Mundo ao golear a Noruega por 3 a 0: no comando está Phil Neville, ex-jogador do Manchester United e da Seleção Inglesa masculina. Merece uma coluna à parte a trajetória dele no English Team, que começou um pouco conturbada (pela fama de misógino por causa de alguns posts machistas no Twitter) e hoje é de fazer inveja à pátria de chuteiras.

Um pulinho no vôlei e vemos que a fase mais vitoriosa da Seleção Brasileira feminina é com José Roberto Guimarães. Assim, não tem contestação. Não há motivo para ter. O questionamento, no futebol, é ser Vadão quando há outros mais indicados, se a CBF fizer tanta questão de colocar um homem no cargo. Um deles é Arthur Elias, do Corinthians, eleito o melhor técnico do último Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Para quem defende um estrangeiro, boa escolha seria o ex-jogador francês Reynald Pedros, bicampeão europeu com o Lyon e que deixou o clube há 15 dias. Em dezembro, ele foi escolhido o melhor treinador de futebol feminino do mundo, na votação da Fifa.

Daí você pergunta se há mulher pronta para tais funções. Minhas fontes apontam Beatriz Vaz, auxiliar técnica de Vadão durante a Copa do Mundo, como potencial candidata. Ex-jogadora da Seleção, ela fez curso de gestão, tem a Licença B de treinadores, do curso promovido pela CBF e jogo de cintura para circular no machista meio do futebol. Há quem diga que isso faltou a Emily Lima, primeira (e única) mulher a treinar a Seleção e que ficou apenas 10 meses no posto. A também ex-jogadora Aline Pellegrino, que coordena o futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, é outro nome forte, com liderança e vivência dentro e fora das quatro linhas. Cristiane Gambaré, diretora de futebol feminino do Corinthians, é mais um exemplo.

As peças estão no tabuleiro. Basta a CBF querer dar o xeque-mate. Afinal, os Jogos Olímpicos de Tóquio’2020 estão logo ali e podem ser a derradeira oportunidade de Marta e Cristiane buscarem o sonhado ouro olímpico para o Brasil. Se nada mudar, será o prenúncio de mais um fracasso. E a culpa tem endereço certo.


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