Jornal Estado de Minas

LUTO

O dia em que meu psicanalista morreu


O dia que meu analista morreu foi o pior dia de todos. 

Eu tinha 21 anos quando minha melhor amiga da faculdade morreu. Era 19 de fevereiro. Eu tinha 36 anos quando meu analista morreu, no último sábado. Era dia 19 de fevereiro.  

O pior dia de todos

O roteirista da minha vida tem ironia e senso de humor de sobra. Algum dia eu gostaria de ser exaltada, só que este ano o verão acabou cedo demais (de novo). 





No dia que meu psicanalista morreu, eu também morri. 

(a partir de agora essa coluna pode se alternar entre primeira e terceira pessoa, me perdoem, mas é parte do luto e da forma que escolhi para narrar isso, a mais psicanalítica possível: livre associação). 

Celso, ou Celsoooo (como eu escrevia, dando o exato tom do meu caos e intensidade por mensagem) era dessas pessoas gostosas, que a gente quer estar perto e que todo final de encontro a gente saía com a sensação de que tinha sido uma delícia ter partilhado algo com ele. O tipo de gente com brilho - e ele me ensinou que essa era a melhor definição de fálico na psicanálise - que te toca e você também se sente assim. 

Contrariando tudo que nos ensinam sobre psicanálise e o envolvimento entre paciente e analista, encontramos juntos, nesses dois anos e um pouco mais, um jeito único e o melhor equilíbrio entre o divã e as cervejas que tomamos. Entre a análise e os memes que trocamos. Entre as fofocas políticas, as aulas, entrevistas e os sonhos da vida, os oníricos. 





Os subversivos sempre foram os meus preferidos e foi uma honra imensa subverter com o Celso esse “mandamento” de não estreitar os laços. Que bom! 

Um texto para você 

“Um dia eu faço um texto pra você”, eu disse ao final de uma sessão, cerca de um mês atrás, depois de enviar, no meio da semana,  o emocionante texto da Giovana Madalosso sobre como ela sublimou um fim de análise e a morte da analista transformando-a num manequim de loja arrastado pela protagonista de seu primeiro romance numa cena incrível. 

Entre a análise e os memes que trocamos. Entre as fofocas políticas, as aulas, entrevistas e os sonhos da vida, os oníricos. (foto: Paulo Tothy)


Não resisti e, num gesto de gratidão - que ele gostava de chamar de fofura diante da minha postura marrenta e belicosa - o presenteei com exemplares dos livros dela, realizando o sonho que ele tinha de ser blogueiro de literatura, com seus recebidos. Não deu tempo de ler. 

Mas, ainda assim, Celso sempre lia o que eu mandava, o que eu escrevia, o que eu postava. Adorava o “me leia que eu gosto”. E eu me sentia lida. Você dizia que meu texto era visceral. 

Generosamente - uma das suas características mais marcantes - Celso me disse que eu estava mais do que pronta para escrever um texto da mesma qualidade. Recuei e disse que seguia encolhida, atrás da porta, com medo das relações abusivas.  Prometi o texto para o final da análise. A alta.





Esse dia chegou. Esse aqui é o texto. Muito antes do que eu gostaria, confesso. Não sei se estou à altura, mas escrever é muito “meu estilo”, como diria Celso, que adorava me fazer adorar esse significante. Tomo emprestadas muitas frases lindas da Jéssica Oliveira no texto de despedida do Ecio Salles, partida precoce, igualmente dolorosa, em 2019. 

Celso me fazia adorar muita coisa. Daquelas pessoas que conseguem equilibrar educação, gentileza, humor, inteligência e ironia, sendo pura inspiração e fazia eu me sentir assim, inspiradora, apenas por dividir algumas horas semanais no consultório. 

Apaixonada por tudo que me toca e atravessa, não precisei de muito para sair por aí pregando a palavra de Lacan, feito uma vendedora de Hinodè, do tipo que marca café da tarde e jantar apenas para apresentar os próprios produtos. Eu tava sempre pronta para perguntar se “você teria um minutinho para ouvir a palavra que consta aqui no seminário 7”? 

Sonhávamos com divãs públicos espalhados pela cidade, em lugares estratégicos, acreditando, assim, que virar voto no período eleitoral seria mais fácil. Ouvir as pessoas seria sempre o melhor caminho. 





Celso foi um sonhador. Ousou sonhar com um mundo melhor e se desdobrou para construí-lo. 

Tenho, na minha gaveta, outro texto pronto. Nele, conto a história da criação do primeiro Ambulatório de atendimento e cuidados para a população trans. 

Celso foi minha primeira grande referência na luta pelos direitos da população LGBTQIA+ sendo um homem branco, hétero, cisnormativo. 

Questionado sobre isso, sempre respondia: é empatia. 
 
Mas eu só entendi o que ele queria quando amparei a Bruna, mulher trans, que chorava ao lado do caixão no velório dele. Garrafa de vodca numa mão, agradecia o Celso por ele ter “peitado” uma juíza e lutado para que ela conseguisse a mudança de nome e gênero nos documentos. 





“Você sabe a importância dele para quem é trans?”, me perguntou, tentando se equilibrar, enquanto me confessava ter diabetes e precisar de apoio para cruzar o mar de gente na sala - fugindo de possíveis olhares e pegar um copo d’água.

Caminhamos de mãos dadas até o bebedouro e, neste momento, entendi como é, pro grupo de pessoas trans da cidade, ter o Celso. Ele tinha coragem, como me confortou o nosso ex-prefeito Eloísio, ao chegar no velório. Celso caminhou de mãos dadas, enfrentando os olhares de toda cidade, com as travestis, as pessoas trans, os ciganos, as pessoas em situação de rua, as pessoas racializadas, as pessoas gordas.

Celso era morada de empatia e fazia a gente se sentir assim também. Tornava o mundo menos cruel e mais esperançoso de ser habitado. Celso não tinha medo de ser vulnerável. E escolhia suas lutas pelas dissidências. 

Luta esta que, uma semana antes, Celso me convidou a pensar e a encabeçar junto. Estávamos no O GRUPO para sequenciar o trabalho do ambulatório. Agora, se chama O GRUPO CELSO PATELLI. E eu choro cada vez que chega uma mensagem e o nome brilha na minha tela bloqueada. 





O ambulatório é a grande realização de Celso. Sonhado por muito tempo, levou mais algum até ser inaugurado e ele brincava, dizendo que se identificava demais com o público. “Me sinto uma travesti. Todo mundo me deseja, mas ninguém me assume”, dizia. E estava radiante com os atendimentos, a demanda que chegava, o lugar que ele sempre havia sonhado. Acolhimento seria uma excelente palavra pra isso. 

Celso era alguém que nunca dizia não. No início da pandemia, se propôs a dizer sim para tudo, como forma de ajudar, o que o fez terminar numa live com confeiteiras que não sabiam se adiavam a Páscoa, doando dinheiro pro meu financiamento coletivo - quando todos trabalhos sumiram, naqueles primeiros dias e, com oração, álcool gel, janelas abertas, a poltrona no meio da sala e "O Capital", abrindo o consultório às sextas-feiras à tarde só  para me atender. 

Aquelas tardes me salvaram de tantas formas que talvez eu não saiba ainda como dizer. Mas foi ali que fui para o divã e permaneci, que confessei meus medos, que me abri para falar de sexualidade, que discutimos corpos dissidentes, que recebi e ofereci muita dica de leitura, que falei de sadomasoquismo, relacionamento abusivo, escrita, desejo e construímos o jeito mais gostoso de trabalhar: usando o chiste. 





Falei dos meus principais medos: anões, lagartixas e estátuas. Este último, muito presente em sonhos que você me guiava, pela mão, a atravessá-las. Assim como a menina do corredor, a loira do banheiro e o recado da Maria Gadú. Na nossa primeira entrevista, te disse do meu pânico de lagartixa e você me confortou: “Enfrentou o patriarcado e vai ter medo de uma lagartixa?! Mas relaxa, a psicanálise é feita de pequenos detalhes, como as lagartixas”. 

No fim do ano, contei que matei, com minha mãe, uma lagartixa que estava em cima da minha cama. Naquela noite, sonhei com os versos do Don L em “Pânico de Nada”. Celso encerrou me fazendo rir dessa frase, destoando das vezes que eu mesma encerrei a sessão e saí porta afora, bem loka, exagerada, deixando-o preocupado e voltando na semana seguinte, cheia de novidades, afinal, “a mulher quando ela quer dar, Celso, não tem o que segura”. 

Nestes encontros, marquei o Celso na dedicatória da Camila Ferrazzano postada pela Tati Bernardi: “ao meu analista, que apesar de mim, não me comeu”. Ele me devolveu dizendo que “nem todo analista poderia receber aquela dedicatória” e emendou com uma piada sobre as toalhas do Carlos Cosac, bordadas com o nome do analista. Eu prometi um edredom bordado com o nome dele. 





O humor e a ironia eram a principal marca da nossa comunicação, juntos com o raciocínio rápido e a sedutora disputa entre quem conseguia responder com a melhor piada ou meme. 

“Já é difícil fazer análise, então não precisa doer”, Celso me disse, certa vez, ao debochar do método analítico que tem por hábito chutar divãs e cometer outras violências com os pacientes. 

Foram naquelas tardes também que entendemos os abusos que eu havia sofrido a partir da minha produção onírica e, jovem mística que tento fugir de ser, produzimos muito a partir desse lugar, que inicialmente causava no Celso um desconforto imenso e depois virou um tipo de chave nossa para acessar os mais diferentes recalques. 

Chave, aliás, que Celso nunca arrumou a porta do consultório e que era uma questão - de piada, claro. Eu dizia que quando eu conseguisse abri-la sem estragar e ficar com o trinco , atravessaria o fantasma e teria alta. Na sexta-feira eu consegui e saí. 





Recalque é o nome para a iguana imaginária que ele me pediu para trazer do Rio Grande do Norte da minha viagem mais recente, para que criássemos juntos no jardim do Nepe. “Jéssica, já alimentou o recalque hoje?”, fez a imperdível piada. 

A jovem mística que vive em mim teima em dizer que acasos não existem. Fui a última paciente a ser atendida por ele ali naquela sala (que eu adorava dizer que dava pra morar, porque tinha divã, livros, frigobar e, mais recentemente, ar condicionado. Só não tinha como trancar direito a porta). Ele saiu junto comigo, na hora do almoço. Os dois, como sempre, com pressa. Atrasados. 

Mas, nesse dia, paramos na porta do Nepe e eu me despedi, indo na direção do carro e parando antes de alcançar para ouvir Celso me dizer que eu era portadora de boas notícias. Que além de ter impulsionado, com a matéria jornalística, a inauguração do ambulatório trans, no dia que fui fazer a entrevista, ele soube que havia passado num concurso para professor. Meses antes, no dia que me deu uma entrevista (junto com o Sá Gabriel) sobre corpos dissidentes, soube que seria pai. 





“O que você vai fazer hoje a tarde?”, me perguntou sendo espirituoso, como sempre e encerrou me dando uma ideia para ganhar dinheiro com esse suposto “dom”. 

Essa “start-up” foi parar na lista de mais uma das que inventamos durante nossos encontros e que seríamos milionários, caso não fosse nosso superego e a falta da carteirinha de filiação ao PSDB, garantindo assim imunidade parlamentar, jurídica e social. 

Fiquei feliz por ser lida como alguém que porta boas notícias. Foi nossa última conversa presencialmente. À tarde, trocamos um meme pelo WhatsApp e, de todas as dores que tenho agora, a de receber memes e não poder fazer a “curadoria” de quais eu ia mandar me deixa destruída. No looping do luto, que é estar 10 minutos bem e 10 horas chorando, me dilacera não poder encaminhar memes.

No velório, dei print numa homenagem que um amigo nosso em comum fez. A gente sempre tinha uma piada sobre ele. Salvei pra mandar e quando me peguei nesse ato falho de dar dor de estômago até no Freud. Realizar a impossibilidade de interação me esmigalha o peito. 





O que fazer com as piadas guardadas, com o desejo da partilha, com a ânsia pela interação, com a devolutiva da escuta, com a minha parte que ficou ali, suspensa no tempo, pra sempre?

Me senti exatamente assim quando minha melhor amiga da faculdade morreu. Fiquei muito tempo em luto, me sentindo muito desamparada e interrompida. Me sinto da mesma maneira. Todas as lembranças eram só nossas e não tenho com quem partilhar. Entre o sábado e hoje, fundei o grupo das ‘viúvas do divã’ com as analisantes que eu já conhecia e outras que me encontraram nas redes sociais.

Imagino a gargalhada deliciosa que Celso daria se pudesse ouvir o nome do encontro. E diria que é uma solução bem no meu estilo. 

E assim, acumulo junto com as questões não ditas, as perguntas não feitas e os desejos não inscritos a mais profunda admiração. 

Mas a dor segue. 

Em qual divã a gente se deita pra chorar quando o analista morre? 

De Freud a Lacan, nenhum percurso ensina o que fazer diante do corte abrupto - que adorávamos chamar de chute no divã - que é essa morte. 





No seu celular ainda consta a mensagem que te enviei assim que o rumor da sua (im) possível morte chegou. A sua resposta nunca vai chegar, o que não me impedirá de seguir mandando e te escrevendo. 

Com o analista se vai uma parte irrecuperável da nossa história pessoal - e eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Tudo que dividimos ali e construímos, a partir da palavra, some. Temo que pra sempre. 

Quando eu cheguei pra primeira consulta, desesperada por acolhimento após romper com a minha antiga analista - de quem, só me toquei agora, eu nunca te disse o nome - após um episódio de gordofobia e ausência de escuta e trouxe comigo todas as minhas questões e aquela dose cavalar de militância mal temperada que me fazia intolerante à figura heteronormativa e branca na minha frente. Ganhou alguns pontos por ser gordo e assumidamente de esquerda. Talvez eu te desse uma chance, pensei do alto da minha arrogância de quem supõe entrevistar os candidatos a analistas e não o contrário. 

Portando o significante de “exagero”, terminei a primeira entrevista exausta - e, claro, apaixonada. Depois de três horas frente a frente - saudade do mundo antes da pandemia - e uma garrafa inteira de água, consegui resumir minhas angústias de uma vida, saber que você era ouvinte do podcast #Rabiscos que eu fazia com o Tadeu e que “me conhecia”. Esmiuçamos lembranças e entendemos que você era meu stalker há muito tempo e que me perseguia desde os tempos em que eu era livreira na Alfarrábios, numa outra vida. 





Antes, tinha ido ver uma outra analista. Quando cheguei no seu consultório, que funciona no Nepe, onde eu começaria a estudar psicanálise na próxima semana - aquele passo narcísico do analisando que se acha tanto que “precisa” aprender a teoria do que vivência na prática - essa mesma psicóloga estava lá e me recebeu. O plot estava dado. 

A “dúvida” que tive entre um e outro foi só para justificar o que eu considerava uma “traição” ao meu feminismo - só me tratar com mulheres. Mas era uma aceitação ao meu corpo, à escuta atenta. Uma chance para a ambivalência, pelamordedeus. 

Me decidi por você e, na semana seguinte, para alimentar os mais ávidos pelas cenas de comédia de situação que protagonizo na minha vida cotidiana, dei de cara com minha antiga analista na sala de espera - esse lugar que eu sempre achei que me apaixonaria por alguém ouvindo Cazuza no rádio, mas foi o puro suco do desconforto. Nunca mais nos cruzamos, exceto em sonhos e, no seu divã, tratei o sentimento que havia ficado. Hoje, penso que talvez eu precise me humilhar e gritar na porta do prédio onde ela atende pra que me deixe voltar, mas quero me convencer de que, assim como nós encontramos na “hora certa”, alguém pode surgir. 





Preciso acreditar nisso, porque você surgiu, Celso. E escolho contar sobre nossa relação na livre associação - salve, Lacan, vem cá - porque fui salva por ela. 

Eu queria ser a Carrie, do Sex and The City, com minha coluna aqui. Celso me chamava de Tati Bernardi de Poços. Um pouco pra me irritar por causa da indisfarçável neurose e um pouco como forma de me elogiar. Eu, como boa autoficcionista - e histérica - , seguia tentando seduzí-lo. 

Celso era divertido e se deixava seduzir, me seduzindo também.  Arriscava nossa transferência, quando me contava, por exemplo, que tinha dançado rockabilly com a Sara Winter. O que fez eu me escangalhar de rir também. E foi nessa “sedução” que partilhamos semanalmente nosso ódio pela política atual, nosso tesão pelo Mano Brown, pela Alessandra Negrini, nosso Édipo no Paulo Tadeu (socorro!), nossa surpresa no Vinny “mexe o divã e bota na beira da sala” ser psicanalista (é, informação estranha, eu sei), nosso ranço pela selvageria da clínica do real e aquelas coisas todas que amigos dividem, quando se encontram. 

E nos encontramos muito. Celso era dessas pessoas dedicadas, que sem esforço e de forma natural, quer que você se sinta bem. Fazia chá de gengibre ou frutas (meu preferido) depois que eu fiquei sem conseguir tomar café por causa da Covid-19. Celso tinha aquele tipo de cuidadinho com os detalhes que fazem você se sentir especial. E a gente acredita que é. 





Celso, você precisou faltar pra eu conseguir me vulnerabilizar e pedir acolhimento. Parte do meu sintoma, de rainha da culpa e rejeição, finalmente, se vai com o “fim” da nossa análise.  Você precisou morrer pra que eu pudesse, enfim, me sentir amada (obrigada amigues que estiveram comigo, especialmente Julio, Thiago e Rafa, a eterna célula de lacranálise da hysteria, o real cartel que temos. Paulinho, obrigada!). Estou devastada, mas não estou sozinha. Nem rejeitada. Esse último ato, levado ao extremo, encerra, enfim, nosso tempo juntos em análise e dá início a um novo, de luto e memória.

Ficam comigo o livro do Dunker que acabou de chegar e eu queria muito ler rápido e te dar. O livro do Juliano Peçanha, sobre o não-lugar, que queria te mostrar e te dizer que finalmente entendi que não vou me esforçar pra caber. Em nada, ninguém, a porra de lugar nenhum. Eu vou me espalhar. O excesso e intensidade que você tanto gostava de marcar. Fica comigo a nossa ideia de orgia no IMS para celebrar o fim da pandemia (com a presença do Haroldo, por favor!), o nosso desejo de eleições sem golpe, de um país livre de negacionistas, sádicos e genocidas. Fica comigo a saudade de ter com quem partilhar as notícias de política e o desejo da democracia. 

Saí, na sexta-feira, pela última vez do consultório. Uma pessoa muito melhor, mais completa e maior por ter te conhecido, Celso. Que privilégio gigante que foi ser sua paciente - e amiga. Hoje ainda não consigo acreditar muito no futuro, mas, se ele existir, espero que seja generoso com seu filho como você foi com o mundo. 





Celso, você me ensinou que a grandiosidade vem de dentro e que estar em punga pelo que acreditamos é o único caminho possível. “Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar”. E a verdade, Celso é que você era imenso. E não sou eu que estou dizendo. Nem os meus 20 mil seguidores. E toda uma cidade parou para chorar sua partida. É o mix de tribos que passou pelo seu velório: travestis, trans, ciganos, pessoas em situação de rua, psicanalistas, estudantes de psicanálise, pacientes, artistas, estudantes de direito, pessoal do presídio, dos bares, jornalistas, políticos. Símbolo do que você foi. Da frase do Espinosa no seu status do WhatsApp: "Procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as ações humanas, mas entendê-las”. 

Celso me ensinou a ouvir com o coração e a olhar o sagrado que existe no outro. A ter fé nas pessoas. Queria eu ter mais dias perto de você, neste plano. Te contar da Anita - que morreu no mesmo dia que você - e da nossa história.

Pouco antes do meu mundo ruir e eu receber a pior notícia de todos os tempos - que você tinha partido - eu fiz um texto pra ela, no Instagram. De algum jeito, ele tem a melancolia precisa da sua ausência também.



“Era tão simples cavar um momento como esse da foto: bastava a gente. E era tão intenso como a gente se bastava.Sinto falta das perguntas que não te fiz. Das lembranças que ficaram tão solitárias, como eu, depois que você se foi. (...) pessoas como você fazem uma falta absurda. Gente que perguntava pra ouvir a resposta, sabe?! Mas de alguma forma inexplicável eu sigo. E é bom saber que numa outra vida você existiu. Muito da gente é feito de relações e foi uma delícia ter tido você comigo, ainda que por muito menos tempo do que sua ausência, que é pra sempre. Daqui, sigo ouvindo histórias e escrevendo. Mais real e intensa do que nunca. Você teria orgulho, ó! E espero que um dia, ao virar uma esquina qualquer, aquela mesma luz que invadia tudo quando a gente se conheceu me invada de novo e eu possa sentar numa calçada qualquer, com um litrão na mão, e contar como os nossos dias foram importantes. Obrigada por ser uma das minhas partes mais bonitas! Um coração e uma vida inteira de saudade”

E apesar disso, ainda queria te contar lembranças que surgiram e não deu tempo de analisar. Tomar aquela Heineken que você mantinha no frigobar, sempre me ofereceu e eu nunca peguei. Traficar mais cursos do Preciado e Fanon, entre nós, os Robin Woods da psicanálise na pandemia - e que privilégio foi misturar jornalismo, literatura e psicanálise contigo. Queria poder te abraçar como antes da pandemia - sem medo.

Queria te dar, finalmente, um exemplar do meu livro e fazer algum trocadilho ácido sobre meu corpo em chamas dentro do consultório. Queria ter um tição e atear fogo no inferno. Queria explodir o genocida que se pretende presidente. Queria te perguntar tanta coisa. Anotar tanta referência. Fica comigo a foto do meu pai, com a nossa idade, que eu queria ter te mostrado e dito como vocês eram parecidos de algum jeito, mas guardei pra um momento em que eu poderia segurar esse édipo, essa transferência e essa projeção de alguma forma menos dolorosa. 

Queria te apresentar rappers novos. Te dar livros de literatura marginal, horror e distopia. Tomar mais chá. Acabar com seu álcool gel. Sair no meio da sessão pra fazer xixi. Te mandar meus textos loucos, escritos depois das sessões, sobre como eu paria deuses. Bonnie e Clyde. Queria falar mais sobre o infamiliar. Meu fantasma de estimação no final do corredor de hotel.



Queria te contar como eu vou ser, quando voltar a viver - e terminar, enfim, essa angústia. Acompanhar a apuração da eleição com você do outro lado, compartilhando a mesma angústia. Queria rir de quando eu chegava e você dizia: “e aí, como tá na parte 2 do disco ‘Sobrevivendo ao inferno’, já obsoleto hoje?’ - E que inferno sobreviver à sua perda, Celso. Que inferno. 

Queria eu ter mais um dia contigo, pra te agradecer por tanto. Por ter me mostrado que eu posso ser vulnerável. E amada. Queria não ter reclamado de ser “uma mulher interessante”, mas ter celebrado mais.

Queria ter te entrevistado de novo e, quem sabe assim, ter sido portadora de notícias melhores que o seu fim por aqui. Queria só seguir levando minhas histórias de meio intelectual, meio quenga, pro divã. Queria voltar pros dias que você dizia que ia trocar de cueca pra não fazer feio na revista íntima da prisão pra me visitar e levar o derby (impulsiva, briguenta, exagerada).



Queria poder te dizer do meu egoísmo diante do luto. Queria que fosse um texto só sobre você, mas, claramente é sobre quem eu fui, também, com você. Queria que sua família não tivesse que atravessar esse luto. Queria seguir, contigo, na busca de dias mais humanos para nossos corpos dissidentes.

Queria te pedir, de novo, para tirar a máscara, imaginar que eu estava sentada na sua frente te fazendo perguntas e interagir com a minha versão na sua cabeça enquanto o Paulo Tothy clicava. Queria ter tirado mais fotos nossas. 

Daqui, “não vejo a hora de te encontrar e continuar aquela conversa que não terminamos ontem, ficou pra quando?”. Você nos ensinou que a vida é urgente. E deu ainda mais sentido à minha frase preferida do novo disco do Don L “tem que foder valendo a vida, tem que fazer valer o risco”. 

Celso me ensinou que tudo bem gostarmos de clichês - e abusávamos, indo de BBB (e agora, pode deixar, vou viver a minha carreira BEM BONITA LÁ FORA), a Paulo Coelho (finalmente, entendo sobre o tesouro estar onde está o coração) sem qualquer pudor, tenho que confessar - e, por isso, encerro com Lacan: “Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. 

Vou ter saudade de você e de quem eu era, com você. 

Obrigada por esse amor que partilhamos. Consegui, finalmente, entender Lacan (calma, tô falando dessa frase). Obrigada por sua existência incrível, Celso Patelli. Seu brilho extraordinário me alcançou e fez eu me sentir extraordinária também. 

Com minha melhor raiva, todo meu amor - e exagero

jb