Jornal Estado de Minas

DIVERSIDADE

Eu sou bonita, mas eu sou gorda; existir me deixa exausta


Eu sou bonita, mas estou fora do padrão. E isso me faz estar exausta. Sim. Eu comecei a coluna fazendo uma alusão ao texto Eu sou bonita, mas estou cansada,  da Tati Bernardi, hit absoluto da escritora publicado há quase um ano. À época, ensaiei uma resposta no melhor estilo ‘diss’ para ela, que é uma profissional que eu sigo o trabalho nas mais diferentes plataformas e adoro, mas que, com esse texto, só evidenciou a minha exaustão.





Talvez eu tenha demorado tanto a responder, inclusive, porque estou exausta. Eu sou bonita, mas sou gorda. E isso me deixa cansada. Não só dos meus vários trabalhos e da remuneração que nunca é suficiente; da pandemia; do governo genocida que temos. Disso, estamos todos saturados.

Quero aqui, trocar uma ideia sobre esse cansaço. E veja bem, eu não estou falando sobre as pessoas que convivem com você: eu estou falando com você.

Eu tô cansada de ver, na minha timeline, você batendo palma pra blogueira gordofóbica, pra chef de cozinha que é de esquerda, mas é gordofóbica, pra Youtuber, que é magra, mas finge que é gorda para abocanhar as fatias - gordas - do mercado publicitário, invisibilizando os reais corpos gordos, eu tô exausta de você, lambendo os textos da Tati Bernardi e fingindo não ver a gordofobia dela na coluna no jornal, das falas no podcast, entrevistas e em qualquer lugar que ela apareça celebrando a ausência de barriga ou se lamentando pelos 2kg ganhos sei lá quando, sei lá onde, usando de um sarcasmo classe média para justificar isso.

Eu tô exausta de ver, num país onde 84,9 milhões de pessoas - segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) divulgada em agosto deste ano pelo IBGE - convivem com fome ou algum grau de insegurança alimentar e fazem fila para se digladiarem por comida em torno de caminhões de coleta de lixo, as pessoas magras chamando comidas com caloria de lixo e debochando de quem come doces ou carboidratos, chamando de ‘gordice’. Eu tô exausta da desigualdade que você celebra diariamente ao relativizar que as pessoas não têm o que comer.





Mas, voltando ao texto do cansaço da Tati, ela afirma: “Não me sobra tempo ou saco pra fazer exercício. E eu respeito se você acha que um corpo pode ser bonito com qualquer forma. E eu admiro se você milita a favor desse corpo que não queima calorias. Mas eu estou com medo de a camada de adiposidade do meu abdômen me causar problemas no coração. Porque não se cuidar é um veneno, e eu bebo dele todos os dias da minha vida sobrecarregada”.


Ora, sabe o que me cansa, Tati? Posturas como a sua. Fazer exercício não é atividade inerente apenas às pessoas magras. E não, Tati, você não respeita quem acha que um corpo pode ser bonito com qualquer forma. Respeitasse, não teria destacado um parágrafo inteiro para falar disso. Você não admira quem é a favor desse corpo gordo que sim, queima calorias. Você não só não admira, como queima não só as calorias, mas o corpo inteiro na sua fogueira de meias verdades e achismos.

Sabe, Tati, eu acredito que você deva estar cansada. E estar cansada te transformou num ser humano péssimo ao escrever o texto. Tão horrível a ponto de relacionar gordura no abdômen com luta antigordofobia promovida pelas pessoas como eu, que só querem existir. Entendo que foi seu jeito único, sofisticado e inteligível de dizer que pessoas gordas que se amam ‘romantizam a gordura corporal’.





Você está cansada, Tati. Eu reconheço. E, estando cansada, você encontrou um jeito para externar sua gordofobia, oprimir outras mulheres e chamar isso de sororidade, de identificação, de sobrecarga. E todas minhas amigas, que comentam ‘maravilhosa’ nas minhas fotos, concordaram com você, Tati.

Não satisfeita, Tati, você disse que a gordura pode causar problemas no coração e que não se cuidar é um veneno. Sabe o que mais envenena, Tati? A gordofobia. A limitação da minha existência e de corpos como o meu, que você aponta como desleixo no seu texto. Sabe o que mata? Essas posturas, que parecem sutis, vem ali, no meio da fala, do texto, do cotidiano, mas dilaceram, porque reafirmam, num luminoso que paira sobre a cabeça das pessoas padrão que oprimem que está fora da norma: VOCÊ NÃO MERECE EXISTIR!


Eu não tô cansada, Tati. Eu tô exausta. Eu já falei, nesse texto, que estou absolutamente exaurida? E eu não quero um tempo pra mim, sabe? Eu só quero existir sem o fogo amigo que vocês - mulheres magras - ateiam sobre o meu corpo gordo diariamente.

Sabe o que me cansa, Tati. É que seu texto alimenta narrativas como a da minha amiga de faculdade, que, ao ver uma foto tirada em 2006 numa viagem de formatura para Porto Seguro, comenta: “Tirando o corpinho que tava zerada a barriga, não aproveita nada. se bem que depois que fiquei doente tô com o mesmo peso”.





Seria só uma fala boba se esta amiga não estivesse se recuperando de um câncer e de muitas sessões de quimioterapia e radioterapia. E sim, ela celebrou o fato de em 2021, depois do câncer, estar com a barriga zerada como na foto feita há quase 15 anos.

Seria impensável, se eu não tivesse feito uma cena e abandonado o grupo, em que eu sei que as pessoas, inclusive esta amiga, me amam, mas não me respeitam. E, como existir num mundo onde sua existência é colocada à prova a todo instante. Onde a única possibilidade de existência é com a barriga zerada, mesmo depois de um câncer?

"Meu cotidiano está dividido entre existir e lutar contra a raiva que me pede para pôr fogo em tudo" (foto: João Paulo Ferreira /Divulgação)


E não aguento mais precisar apagar incêndios enquanto nossos corpos seguem sendo queimados por nossas ‘pares’. E não, eu não quero conversar sobre isso. Eu quero que você leia o que escrevo, que ouça o que eu digo e que se pergunte, antes de se defender: será que estou sendo gordofóbica?

E a resposta, invariavelmente, será sim. Está. Está sim.

Dizer: não foi por mal ou não tive a intenção, não atenua, em nada, o sentimento de inadequação  que se abate sobre as pessoas gordas. E é esse sentimento, que escancara a forma como as opressões cansam, que torna tudo tão insuportável.





Hoje chorei no trânsito, enquanto ia para o podólogo. Dia desses, tive uma crise de choro no banho. E, há menos de uma semana, chorei depois de uma entrevista. Me sinto vulneravelmente exausta. E, apesar de bonita, tenho medo dessa exaustão.

E a exaustão da mulher gorda não é sobre trabalhar, ser mãe, dormir sem tomar banho, correr para ir ao supermercado, pagar conta, esquecer de fazer depilação, limpeza de pele, etc. É para existir.


Meu cotidiano está dividido entre existir e lutar contra a raiva que me pede para pôr fogo em tudo - coisas, pessoas, estabelecimentos, leis, políticos, mundo - que dizem que eu não posso existir como sou.





Eu sou linda, mas existir não é pra mim. E nem pro meu corpo. Pessoas gordas, bonitas e exaustas não são pessoas. São camadas de adiposidade abdominal que você, Tati, quer se livrar.

Meus amigos dizem ter saudade de quando eu era mais ‘leve’, brincalhona e divertida. Mas o problema é que eu estou exausta. Exausta deles concordando com o parágrafo merda do texto merda que Tati escreveu - eu canalizei toda minha raiva pra ele, porque, confesso, esperava mais empatia de alguém tão interessante. Exausta deles segurando as barrigas imaginárias e dizendo que vão queimar bacon na academia. E eu não consigo mais rir junto. As piadas dos meus amigos ameaçam a minha existência.

É a dor da impossibilidade de existência que me deixa exausta.

Exausto, inclusive, deve estar o meu analista que houve, semanalmente, por horas, dizer que estou cansada. Que não aguento mais não aguentar mais. E é verdade. Existir num mundo que me diz, o tempo todo, de todas as formas possíveis, que eu não mereço estar aqui, sendo quem eu sou, é não só cansativo, como desesperador em boa parte do tempo.

O que fazer num tempo-espaço-imaginário em que não caibo e não sou bem vista/vinda?

Embora este pareça um texto bastante pessoal - e é - é também de uma dor coletiva. Como não estar exausta quando o áudio veiculado em todo país na terça-feira (19) mostra uma suposta  recrutadora de RH de uma rede de farmácias  dizendo para que , na hora da contratação de novos colaboradores, “cuidem das aparências, feio e bonito é o mesmo preço, então vamos contratar pessoas bonitas”, após elencar que não se deve empregar pessoas gordas, tatuadas e LGBTQIA%2b.





“Pessoas muito tatuadas a empresa não gosta, piercing na língua, no nariz, na testa, enfim. Não pode, a gente lida com saúde”, diz a recrutadora. Ela ainda pede cuidado com pessoas “muito gordas”.


O discurso homofóbico também está presente no áudio: “Se pegar alguém, com todo respeito, 'viado', tem que ser uma pessoa alinhada, que não ‘desmunheque’”. Ela conclui a mensagem reforçando para que “cuidem as aparências” na hora das contratações.

Conforme o advogado Tadeu Rodrigues, exigências ligadas a aparência como as feitas pela recrutadora que dizem respeito a orientação sexual, identidade, corpo, etc, podem ser criminilizadas por discriminação, sobretudo pela manifestação LGBIQIA fóbica.





“A manifestação contra pessoas pertencentes à sigla LGBTQIA e a isso pode vir, no futuro, se estender a todos preconceitos”, explicou.

A rede de farmácias alega que o áudio é falso e que vai investigar.

Como eu já disse nesta coluna, a aplicabilidade de leis que nos protejam da gordofobia é algo positivo, mas respeito pela nossa existência, seria melhor, já que, falso ou não o áudio, a não contratação de pessoas gordas é uma realidade. Também hoje, depois de chorar no trânsito e antes de ouvir esse áudio, recebi uma mensagem de uma seguidora me pedindo para falar sobre a falta de mercado de trabalho para pessoas gordas, que não são contratadas por causa da aparência.

Como existir sem a dignidade do direito ao trabalho?

E aí, eu digo: como é insano ser bonita, trabalhar 12h por dia, escrever colunas, dar aulas, estudar psicanálise, ter amigues, tentar ter algum relacionamento afetivo, produzir conteúdo, ser podcaster,  mas estar exausta e não é de nada disso, mas é da batalha por nada disso - ahá, temos uma contradição aqui - ser suficiente. Eu tô exausta de ser bonita, mas ter que brigar pra existir sendo, também, gorda.

audima