Jornal Estado de Minas

COLUNA DO JAECI

O novo e o velho, a riqueza e pobreza também existem no Catar

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Aqui no Catar não é diferente de outro país ocidental no quesito riqueza e pobreza. Se você andar pelo nobre bairro Lusail, onde ficam as praias particulares, criadas para a Copa do Mundo, e que segundo consta, permanecerão abertas a turistas, após o evento, perceberá os prédios luxuosos, onde moram os árabes com muito dinheiro.



Parece que você está caminhando por Ipanema ou Leblon, com prédios, é claro, ultramodernos e com destaque mundial. A Lusail Katara Twin Towers, por exemplo é algo inimaginável, uma arquitetura dos deuses. É lá que estão hospedados os ex-jogadores e dirigentes convidados pela Fifa.

Tudo isso em frente ao Golfo Arábico. Do outro lado da cidade, a situação é bem diferente. Apartamentos que mais parecem conjuntos habitacionais, que abrigam estrangeiros que aqui trabalham, da Índia, Bangladesh, Sudão, Sirilanka, que dividem, por vezes, um espaço de 100 metros, para 20 pessoas.


CONTRASTE 1


São trabalhadores, que saem de seus países, em busca de emprego para o sustento da família. Conversei com um taxista que me levou a um dos estádios da Copa. Ele me disse que é de Bangladesh, e que sua família, mulher e 3 filhos, estão lá. Trabalha dia e noite, para tirar o sustento, e ainda enviar dinheiro aos familiares. Ele não vai ao seu país há 5 anos, e diz não ter condições de pagar uma passagem de avião. É assim com praticamente todos os taxistas que aqui trabalham. Você não vê um catariano dirigindo táxi.



Ibraim me disse que neste mês, da Copa do Mundo, está ganhando um bom dinheiro e que talvez consiga ir ao seu país. Perguntei o motivo de ele deixar a família tão distante, não ve-la, ao invés de trazê-la para cá. Ele disse que esse é um sonho impossível. Indaguei o motivo de ele não voltar para Bangladesh. Me disse que lá não tem emprego e que é melhor ficar aqui, sem poder ver a família, mas ter como enviar dinheiro para ela. É muito triste a vida desses imigrantes aqui.

 

PRAIA DE BURCA


Estive em duas praias no domingo. Uma só para estrangeiros, onde o frequentador pode levar sua garrafa de bebida alcoólica, e as mulheres podem usar biquíni fio-dental. Praia criada para este evento, Copa do Mundo, mas que segundo o proprietário, fará parte da "nova Doha", e não será fechada após o Mundial.

A outra, a 2 km dali, é feita só para famílias árabes, onde as mulheres têm que cobrir o corpo, totalmente. Algumas vão de burca. Os homens vão de calças compridas ou bermudões. Não é permitido filmagens, e só quem pode estar ali são os árabes.



Pedi permissão para entrar e filmar. Eles deixaram, mas não se pode filmar as pessoas. Filmei parte do Golfo Arábico, as areias e só. Respeitar as determinações de um país, é o segredo para não ter problemas.

 

MULHERES AO VOLANTE


A primeira vez em que estive no mundo árabe, em 1997, na Copa das Confederações, na Arábia Saudita, mulheres usavam burcas e telas sobre os olhos e eram levadas na boleia das caminhonetes. Dirigir, nem pensar, era algo proibido. De lá, estive outras tantas vezes por essas bandas e fui percebendo, gradativamente, algumas mudanças.

Aqui no Catar, por exemplo, onde já estive em 5 oportunidades com essa, a primeira delas em 2009, as mulheres já podem dirigir e andar sozinhas em seus carrões. Pelo menos as que têm excelente situação financeira.



Na região rica, onde passei o domingo, fazendo reportagens, vi várias delas, em BMWs ou Mercedes, pisando fundo no acelerador e mantendo a tradição da buzina. Sim, como elas e eles buzinam por aqui. Por isso que eu digo: quem tem que buscar mais liberdade e lutar por isso, é o próprio povo catariano. Eu estou aqui para cobrir a Copa do Mundo, e não para protestar por algo que não me pertence.

 

CRÍTICAS INFUNDADAS


Tenho visto companheiros de profissão, que aqui estão, querendo mudar as leis do país e até mesmo contra o islã. Para aparecerem no Brasil, querem demonstrar que são a favor de tudo o que não se permite aqui. As pessoas têm que entender que quem rege a lei de um país é o presidente, no caso aqui, o Emir do Catar.

O povo o adora, como vimos na abertura da Copa, quando ele apareceu no telão do estádio e foi aplaudido e ovacionado. Conhecemos bem o alcorão e o islã. É uma cultura milenar e não devemos nos opor a ela, já que estamos aqui como convidados, para cobrir a Copa do Mundo. Problemas de direitos humanos, homofobia ou coisa parecida, não nos pertencem. Cabe ao povo daqui buscar melhores condições de vida. Respeitar a cultura e as leis de um país é o segredo numa cobertura internacional.





 

CHEGA DE ÓDIO


As eleições acabaram e tem gente insistindo em se manifestar, agredir cidadãos e se sentir no direito de xinga-los, publicamente. Gilberto Gil tem 80 anos. Sua esposa, Flora Gil, 62. Ambos foram xingados e encurralados num dos estádios aqui da Copa, porque votaram em outro candidato nas eleições no Brasil.

As pessoas falam tanto em democracia, mas não querem aceitar uma derrota e não admitem que haja quem goste do candidato que não lhe representa. Esse ódio, essa divisão, só faz mal ao próprio país. Não tenham político de estimação. Cobrem de quem foi eleito, um governo transparente, sério e decente.

Gilberto Gil é um dos maiores nomes da nossa cultura musical, de todos os tempos, imortal da Academia Brasileira de Letras, e um ser da paz, que prega a paz e união em suas composições. Estamos indignados com o que estamos vendo, e a única solução é punição aos culpados. Aqui no Catar, agredir uma pessoa, verbalmente, pode dar cadeia de até um ano. Os "valentões" deveriam pensar 10 vezes, antes de atacar uma pessoa.





 

MAIS AMOR E MENOS ÓDIO


Quando a gente vê uma pessoa atacar o jogador Neymar e desejar que ele quebre a perna, como vimos na internet, durante essa semana, precisamos questionar que tipo de ser humano é esse? Neymar é um profissional do futebol, erra e acerta, como em qualquer profissão. Tem seus erros como cidadão, como todos nós temos, mas daí a desejar o mal, é demais.

Coisa de gente sem coração, alma, ou sem Deus. Ronaldo Fenômeno, em bela carta, saiu em defesa de Neymar, e toda a sociedade de bem, tem que fazer o mesmo. Não importa se ele é antipático, se promoveu festas durante a pandemia, se é um ser egoísta.

É sabido que grande parte da população brasileira, não gosta dele. Tudo isso faz parte da vida. Porém, desejar o mal à uma pessoa, seja ela quem for, é falta de caráter. Neymar tem nosso apoio e nossa solidariedade. Que se recupere e possa ajudar o Brasil na busca do hexa.





 

VEIO PASSEAR?


O péssimo técnico Tite ainda não anunciou, oficialmente, a escalação do Brasil para o jogo de hoje com a Suíça. Porém, se puser Éder Militão no lugar de Danilo, que está machucado, será incoerente, e comprovará que trouxe Daniel Alves para passear.

Mesmo não jogando de lateral-direito há 5 anos, Alves foi da posição e foi chamado com tal. Na primeira oportunidade que tem de jogar, se for preterido, realmente é preciso entender a cabeça desse treinador. Ainda acredito que ele começará jogando, mesmo não gostando do seu futebol. Quanto ao substituto de Neymar, acredito na entrada de Rodrygo. É quem mais tem talento para tal. Tite parece preferir Fred.

 

MELHOR JOGO DA COPA


Espanha e Alemanha protagonizaram na noite de domingo o melhor jogo desta Copa do Mundo, até aqui. O time espanhol é o mais bem treinado, por Luiz Henrique, e quem tem mais jovens de qualidade. A Espanha sobrou em campo e só cedeu o empate aos alemães porque o futebol muitas das vezes é ingrato.



Nem mesmo a França, apontada por mim como grande favorita, pratica futebol tão bonito. Alemães e espanhóis vão avançar, pois vão jogar contra Costa Rica e Japão, e não acredito que percam.

As zebras que tinham que aparecer, já apareceram na primeira rodada. Daqui pra frente, a normalidade vai prevalecer. Mas, tecnicamente, é uma Copa do Mundo bem fraca, com jogos sofríveis, como há muito não se via. Vale lembrar que a Espanha deverá cruzar o caminho do Brasil nas quartas-de-final. Pelo que vi, não temos futebol para superar os europeus. Pelo jeito, a "maldição" das quartas-de-final vai nos atormentar, mais uma vez.