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Estado de Minas COLUNA DO JAECI

O dia em que, sem credencial, cobri título de Guga em Paris

"Cheguei bem cedo ao hotel e esperei o carro da organização. Fui apresentado à mãe de Guga e entrei na van com destino a Roland Garros. Domingo de sol em Paris"


postado em 14/06/2020 12:22

Guga superou Sergi Bruguera em 1997 para chegar a seu primeiro título em Roland Garros, onde seria tricampeão(foto: GABRIEL BOUYS/AFP %u2013 11/6/17)
Guga superou Sergi Bruguera em 1997 para chegar a seu primeiro título em Roland Garros, onde seria tricampeão (foto: GABRIEL BOUYS/AFP %u2013 11/6/17)

Torneio de França, 1997. Estava eu em Lyon, depois daquele jogo em que nosso lateral-esquerdo Roberto Carlos fez aquele golaço em cobrança de falta, que Fabien Barthez, goleiro francês, está procurando a bola até hoje quando toca o telefone. Do outro lado da linha, o editor geral João Bosco Martins Salles, a quem devo muito na minha carreira, manda que eu pegue um trem, largue o torneio e vá para Paris cobrir a final de Gustavo Kuerten contra o espanhol Sergi Bruguera. Eu não estava credenciado, mas, por meio do meu colega Ivan Drummond, um dos grandes repórteres do EM, entrei em contato com Diana Gabani, assessora de Guga, para tentar uma exclusiva com ele e a credencial para cobrir a final. Peguei um trem em Lyon à meia-noite de sexta-feira. Não havia TGV naquele horário. Havia uns marroquinos passando pelos vagões, olhando cada pessoa, para tentar nos roubar. Eu dormia com um olho fechado e outro aberto, abraçado ao meu laptop, meu instrumento de trabalho. Passaporte por baixo da calça e dinheiro e cartão de crédito juntos. Estava seguro. Às 5h, desembarquei em Paris e fui me hospedar em Saint-Germain de Pré, num hotel muito bem localizado. Já era sábado, e eu não havia comido nada no trem. Tomei um banho, meu café, e liguei para a Diana. Ela atendeu e me deu o endereço do hotel onde Guga e Larri Passos, seu técnico, estavam hospedados.


Ela me disse que ele treinaria em Roland Garros na véspera da final e que, por volta das 19h, estaria no hotel. Depois do almoço, fui para a porta do hotel Mont Blanc, pequenino, acanhado. Fiz plantão lá, sozinho. Eu precisava daquela exclusiva que o João Bosco havia pedido. Ansioso e com a missão por cumprir, eu pensava de que forma iria persuadir o Guga a me dar aquela entrevista na véspera da final. Lá pelas 19h, parou um carro da organização do torneio e dele desceram Guga e Larri. Me dirigi a eles e falei: “Guga, muito prazer, sou o Jaeci Carvalho, estava no torneio da França, em Lyon, e meu diretor me mandou cobrir a final de Roland Garros, amanhã. Eu preciso muito de uma entrevista com você. Meu jornal está parado, esperando a entrevista para publicarmos amanhã”. Imediatamente, Larri Passos tomou a frente e disse: “Ele não vai falar com ninguém. Amanhã temos a final.” Sem olhar para Larri, apelei a Guga de que precisava da matéria. Aí, ele me perguntou: “Quanto tempo de matéria”? E eu disse: “Dez minutos”. Ele entregou sua bolsa de treino a Larri, que subiu, puto da vida. Nos sentamos no lobby do hotel e ficamos conversando quase uma hora. Fiz a entrevista de que tanto precisava e enviei imediatamente para o Estado de Minas.


Guga ainda me perguntou como eu iria cobrir a final. Eu disse que não tinha credencial. Ele, então, falou: “Esteja aqui amanhã, às 7h em ponto, que o carro da organização virá buscar minha mãe e você vai com ela no carro. Lá dentro do complexo, você se vira”. Eu fiquei radiante. Que cara sensacional! Além de me dar uma entrevista exclusiva, ainda me permitiu o sonho de cobrir a final. Nem dormi direito, mas, confesso, que me sentei no Café de Flor, em Saint-Germain, pertinho do meu hotel, e tomei um champanhe para comemorar a dupla conquista. Cheguei bem cedo ao hotel e esperei o carro da organização. Fui apresentado à mãe de Guga e entrei na van com destino a Roland Garros. Domingo de sol em Paris, ruas vazias. Chegamos ao complexo. Entramos. Eu agradeci à mãe de Guga e fui conhecer um pouco da estrutura. Fantástico. Mulheres chegavam com seus chapéus maravilhosos, homens com aquelas camisas de quem joga tênis, Rolex no pulso, um luxo só. Eu tinha mais um desafio: como entrar na arena para cobrir a final?


Foi aí que encontrei meu amigo J. B. Telles, repórter de Santa Catarina, amigo de Guga, que também fazia a cobertura da Seleção Brasileira. Colei nele, que estava credenciado, e fiquei na porta da entrada para a arena, onde um rapaz conferia os crachás. Pus meu crachá do torneio da França para dentro da blusa, deixando a corda para fora, como se fosse para Roland Garros. Telles distraiu o porteiro e, num lance de sorte, entrei na arena. Peguei o elevador e subi para me situar na tribuna de imprensa. Não me lembro o horário do jogo, mas subi bem cedo, a ponto de ver Guga treinar por uma hora contra um jogador venezuelano. Fiquei abismado ao saber que um tenista se aquece antes do jogo final atuando contra uma espécie de sparring. E olha que ele teria um jogo difícil pela frente. Eu estava doido para fazer xixi, mas não podia sair da minha localização, sob o risco de ser barrado na volta. Preferi me conter e esperar o grande jogo. Ele começou e, a cada ponto de Guga, a voz de Vinícius, um amigo dele, que faleceu anos depois, ecoava em Roland Garros: “Boa, Guga”, dizia ele!


Guga foi fazendo pontos, desestabilizando o espanhol Bruguera, até se sagrar pela primeira vez campeão de Roland Garros. Eu delirava, pois jamais havia coberto uma final de tênis, ainda mais de um brasileiro. Confesso que vi várias finais de ATP, inclusive em Roland Garros. Eu gostava de ver o jogo de tênis, mas não de praticar. Morei num prédio que tinha uma bela quadra de saibro, mas nunca me interessei pelo esporte. Mas eu amei. Desci para a coletiva junto com Renato Maurício Prado, Armando Nogueira, Telles e Chiquinho, do Estadão. Não tive problemas para entrar na sala da coletiva. Na minha vez de perguntar, fiz a pergunta que achei pertinente, olhei para Guga e agradeci por tudo o que ele fez e por ter me ensinado a me tornar um amante do tênis. Ele respondeu, balançou a cabeça positivamente, fez um sinal de ok. Foi a minha consagração. Minha missão estava cumprida. O EM deu um furo nacional, Guga foi campeão e, na terça-feira, eu fechei com chave de ouro, com Brasil e Inglaterra, o Torneio da França, com o jogo no Parque dos Príncipes, em Paris. Guga foi visitar a Seleção na véspera, e todos fizemos matéria com ele. Foi mais uma oportunidade que tive de agradecer por tudo o que ele fez por mim. Em 2000, quando fui fazer a reportagem Meninos do Brasil, duplamente premiada com o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo e Imprensa Embratel, eu me credenciei com antecedência, pois sabia que estaria em Paris na época da final de Roland Garros. Guga estava lá de novo, dessa vez enfrentando o sueco Magnus Norman e o derrotando por 3 sets a 1. Me deliciei uma vez mais, porém, credenciado, com tudo direitinho. E para fechar com chave de ouro, Diana Gabani nos convidou para a festa de comemoração do título, no Ritz Carlton, luxuoso hotel de Paris, onde estive com minha mulher, Alexia. Na época, éramos noivos. Passamos o Dia dos Namorados lá. Não cobri o tricampeonato, mas assisti aos duelos pela tv. Reencontrei Guga anos depois, num condomínio na Barra da Tijuca, e conversamos sobre aquela primeira final. Nosso último encontro foi na cabine da Globo, na final do futebol na Olimpíada Rio'2016, no Maracanã. Toda vez que o vejo, agradeço por tudo que fez por mim e pelo tênis brasileiro. Obrigado, campeão. Você é um orgulho para todos nós! Ao Estado de Minas, que sempre meu deu todo o apoio e aporte para as grandes coberturas, minha eterna gratidão.
 

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