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Estado de Minas COLUNA DO JAECI

Só transformação dos clubes em empresas salva futebol brasileiro

Clubes endividados na Fifa, com salários atrasados, contratando jogadores e técnicos pagando R$ 1 milhão. Isso é uma vergonha


postado em 24/05/2020 09:20 / atualizado em 24/05/2020 09:24

Presidente eleito do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues vai priorizar volta do clube à Série A e pagamento de dívidas(foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)
Presidente eleito do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues vai priorizar volta do clube à Série A e pagamento de dívidas (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)

Terra arrasada, o Cruzeiro tem agora um novo norte. Sérgio Santos Rodrigues se elege presidente com três anos de atraso, já que perdeu por 30 votos, em 2017, a eleição para a quadrilha que comandou o clube. Tivesse ele entrado naquela oportunidade, provavelmente o time não teria sido rebaixado, e a dívida seria bem menor do que a que se propaga, pois só em 2019 foram gastos mais de R$ 380 milhões, segundo relatório da empresa contratada para auditoria no clube. Chorar o leite derramado não adianta, mas buscar punição aos culpados, suas condenações e o dinheiro roubado de volta, é possível. Em conversa com o novo mandatário, ele me disse que não vai abrir mão de apoiar a condenação dos envolvidos e tentar a recuperação do dinheiro desviado. Cabe à polícia indiciar os delinquentes, e à Justiça, condená-los. O torcedor azul deverá ter novidades na próxima semana. De clube exemplo no país, com gestões equilibradas e vencedoras, o Cruzeiro virou notícia em páginas policiais, tornou-se time de Segunda Divisão e vive seu pior momento, em quase 100 anos de glórias. Comenta-se a possibilidade de insolvência e formação de um novo clube. Porém, o presidente e torcedores não admitem isso jamais. Acreditam na recuperação, ainda que a médio ou longo prazos.

O problema é que uma torcida acostumada com taças terá de se contentar em figurar nas competições. Viver o drama da Segundona, sem garantia de volta à elite, já que o time é fraco para a disputa da B. Sem dinheiro para nada, o presidente diz que vai priorizar a volta à Série A e o pagamento de salários em dia, assim como as dívidas que o clube tem com a Fifa. Ele me disse que com R$ 120 milhões conseguirá tocar o clube até dezembro. Resta saber onde vai arrumar esse dinheiro, pois o clube não tem credibilidade no mercado, face aos desvios da gestão anterior. Esse dinheiro, para o mecenas que sempre ajudou o Cruzeiro, não é nada. Porém, não sei se ele está disposto a pôr essa grana toda lá, sem garantia de que irá receber de volta. Nos bancos não há crédito. Realmente, o presidente terá de se virar para conseguir recursos. Ele estudou o momento do clube durante muito tempo e, com certeza, não se elegeu presidente para se aventurar. Tem suas estratégias e vai colocá-las em campo. A volta do doutor Lidson Magalhães como vice-presidente a mim agrada bastante. Grande cruzeirense, ético, sério. É um ganho para o clube.

Não vejo outro caminho para os falidos e quebrados clubes brasileiros a não ser a transformação em empresas. Fiz uma live com o presidente do Orlando City, Alexandre Leitão, e entendi um pouco mais sobre o funcionamento da MLS, a liga do futebol por aqui, do soccer. Cada clube é uma franquia, uma empresa, que tem que trabalhar com o orçamento determinado, com dirigentes remunerados, que têm de dar lucro aos clubes e taças. Simples assim. A MLS não permite aventureiros, e o dono das franquias tem de mostrar ter condições de manter salários em dia e todas as despesas pertinentes. Não existe esse negócio de o clube estar mal na temporada e contratarem a rodo. Não. Isso é coisa amadora, dos irresponsáveis dirigentes brasileiros. Aqui há lei, regra e punição severa, leia-se cadeia, para quem não andar reto. Vejam que com toda a essa crise da pandemia do coronavírus, o Orlando City manteve os salários em dia, não demitiu nenhum funcionário, pois tinha reservas justamente para essas necessidades. Os jogadores voltaram a treinar, mas ainda não há previsão de volta do futebol. Existe uma possibilidade de todas as equipes se concentrarem em Orlando e jogarem o restante da competição lá. Isso com todos os cuidados determinados pelas autoridades médicas e sanitárias. Hoje, os jogadores chegam em seus carros, cada um com sua bola, são testados na entrada do clube, e cada um tem o seu quadrante de trabalho. Quando um jogador sai, o outro que está esperando no carro entra, e assim sucessivamente. Isso se chama respeito à vida e organização.

O futebol brasileiro é mal gerido pelos dirigentes de clubes há anos. Aquele incêndio no Ninho do Urubu, ano passado, que matou 10 crianças que treinavam no Flamengo, jamais ocorreria aqui, pois se o clube não tiver alvará de funcionamento para todas as dependências e, principalmente, alojamento que recebe vidas, não abrirá. Aquele incêndio aqui teria dado cadeia para muita gente. No Brasil, além de não indenizarem as famílias, os dirigentes rubro-negros estão “isentos de condenação”. Alguém é culpado e precisa pagar pelo crime. Clubes endividados na Fifa, com salários atrasados, contratando jogadores e técnicos pagando R$ 1 milhão. Isso é uma vergonha. Mano Menezes, que ajudou a jogar o Cruzeiro na Segundona, agora pede uma fortuna na Justiça. Eu avisei que taças, quando ganhas de forma irresponsável, têm um preço. A conta chegou no Cruzeiro, e ela é dolorosa.

Um seguidor do meu perfil no Instagram (@jaecicarvalhooficial) mandou mensagem dizendo que “trocaria as taças todas pela volta à elite, pois não imaginava que sofreria tanto”. Eu disse isso lá atrás, quando estavam comemorando a conquista de duas Copas do Brasil, em 2017/18. O Cruzeiro pagava R$ 1 milhão a Fred e mais R$ 1,5 milhão a Thiago Neves. Além disso, contratou jogadores a rodo, renovou salários por preços absurdos de atletas reservas e fez transações do arco da velha. O resultado está aí: R$ 380 milhões em gastos só no ano passado. Isso é crime e crime deve ser punido com cadeia. A pergunta que não cala entre os torcedores é se os envolvidos na quadrilha devolverão o produto do roubo. Fosse aqui nos Estados Unidos, com certeza, sim. No Brasil, tenho minhas dúvidas. Portanto, torcedores do Cruzeiro, Atlético, Flamengo, Vasco, Corinthians e demais equipes: é preciso transformar os clubes em empresas. Os presidentes precisam ser remunerados e fiscalizados. Não dá mais para manter essa mentalidade amadora, em que o cara é presidente, diz que dedica 24 horas do seu dia ao clube e não ganha nada oficialmente. Isso é balela. Ou ganha projeção, pois os dirigentes de futebol são tratados como celebridades. Ou ganha dinheiro de forma escusa, pois há vários casos comprovados, e o do Cruzeiro é o mais recente. Já passou da hora de esse amadorismo acabar. Não se pode mais pagar R$ 300 mil a um jogador ou a um técnico. Não no futebol brasileiro, quebrado, de pires na mão, regido por um país na lama, com a economia em frangalhos. Não dá mais. Ou os clubes viram empresas, com donos, orçamento e responsabilidade fiscal, ou em breve o esporte bretão vai acabar. E, vale lembrar, que essa doença atinge toda a América do Sul. Os clubes dos países vizinhos estão quebrados, assim como suas economias. A Sérgio Rodrigues, boa sorte nessa nova empreitada. Não será fácil, mas a China Azul promete ajudar a reconstruir o clube. Fábio, Léo e Marcelo Moreno são os exemplos a serem seguidos entre os jogadores, de amor ao clube e dedicação ao trabalho.



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