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Estado de Minas COLUNA DO JAECI

Uma Seleção Brasileira que não empolga e não tem empatia com o torcedor

O Brasil de hoje está distante da torcida e Neymar, o maior craque brasileiro, também não ajuda


postado em 12/09/2019 04:00 / atualizado em 11/09/2019 19:54

O Brasil perdeu amistoso para o Peru por 1 a 0, na madrugada de quarta-feira, em Los Angeles(foto: Kevork Djansezian/Getty Images/AFP)
O Brasil perdeu amistoso para o Peru por 1 a 0, na madrugada de quarta-feira, em Los Angeles (foto: Kevork Djansezian/Getty Images/AFP)


Los Angeles – O povo brasileiro está longe da Seleção. Se no passado o maior patrimônio esportivo do povo era motivo de orgulho, depois dos 7 a 1 impiedosos que a Alemanha nos aplicou, em plena Copa do Mundo no Brasil, tudo mudou. O distanciamento, que era apenas geográfico, pelo fato de o Brasil jogar amistosos no exterior, transformou-se também em emocional. Pela primeira vez na história, temos um único craque, que é odiado pela torcida. Nunca vi isso na vida. Neymar é nosso principal jogador, talentoso, diferente, craque, mas não tem empatia com os torcedores. Vejo uma grande parte desejando coisas ruins para ele, o que é muito triste. Nossos craques – Pelé, Gérson, Zico, Rivelino, Ronaldo Fenômeno, Romário, entre outros – sempre foram idolatrados, e são até hoje. Com Neymar acontece justamente o contrário. É considerado antipático, nojento, cai-cai e outros adjetivos ruins. Culpa da torcida? Claro que não. Culpa do próprio jogador, que escolheu o caminho das revistas de fofocas, das celebridades, sem se preservar onde deveria: no campo de jogo.

Convivi com os grandes jogadores da Seleção desde 1986, na Toca da Raposa, quando trabalhava na TV Globo. Pelo jornal, acompanhei as carreiras de Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Roberto Carlos, entre outras feras. Sempre me dei bem com todos, tive e tenho o respeito deles até hoje. Era uma época em que os jogadores gostavam da gente. Alguns fizeram muita bagunça extracampo, mas, no gramado, resolviam com dribles, passes, gols e ficava tudo certo. Hoje, os caras ficam reclusos, como “anjinhos”, não descem no hall do hotel, não trocam ideia com os jornalistas, não gostam da gente. Eu preferia os jogadores considerados problemáticos, gandaieiros, que resolviam tudo com o gol. Que conversavam sobre vários assuntos, menos futebol. Nos voos fretados, nós, da imprensa, pagávamos nossas passagens e viajávamos juntos com eles. Batiam papo nos aviões, até baralho eu já joguei com Romário e Edmundo, quando voltamos da Copa América da Bolívia, em 1997, com a taça a bordo. Era uma época de ouro, onde ganhávamos taças e tínhamos amizade. Os caras nos reconheciam, davam entrevistas exclusivas, e não havia esse cerceamento de liberdade de expressão.

Hoje, tudo mudou. O técnico não desce e não conversa com os jornalistas. Apenas uma entrevista coletiva fria, com jargões prontos e um discurso pastoral. Lembro-me de Telê Santana, Carlos Alberto Silva, Parreira, Zagallo, Leão, Vanderlei Luxemburgo, Candinho e tantos outros que ocuparam o cargo de treinador da Seleção, que adoravam estar conosco nos halls dos hotéis. Leão e Parreira adoram obras de arte. Na Copa das Confederações da Coreia e Japão, bati longos papos com Leão sobre quadros e aprendi muito com ele. Como era legal. Os caras aceitavam críticas e elogios na mesma medida. Os que dizem que é impossível amizade entre jogador, técnico e jornalistas mentem. Se todas as partes souberem separar os momentos de cada coisa, não tem erro. Jamais entrei na vida pessoal de qualquer atleta ou técnico. Minhas críticas sempre foram no campo de jogo.

Por isso, na última entrevista que fiz com Romário, tendo o cinegrafista Amir Martins, o Baixinho disse: “Jaeci, queria te agradecer, pois você sempre falou bem ou mal de mim, em campo, mas jamais mentiu. Sempre expressou a verdade do momento”. Esse reconhecimento não tem preço. Por isso, Romário e companhia ganharam Mundiais. Lembro-me também do meu começo de carreira, em 1986. Com três anos de jornalismo, fui cobrir a Seleção de Telê, na Toca I. Ver Zico, Reinaldo, Cerezo, Éder, Falcão, Sócrates, entre outros, de pertinho, era um sonho. E quando a gente sentava na escada e pedia uma entrevista, os caras vinham, tranquilamente. Gente, esses caras eram gênios da bola e estavam lado a lado conosco. Em cada ponto da Toca da Raposa I havia um jornalista sentado com o jogador, fazendo sua exclusiva. Que tempo legal. Esses exemplos é para que vocês tenham a ideia do que era cobrir Seleção Brasileira. Vou contar muita coisa no meu livro, que, em breve, pretendo escrever.

Reconheço que naquela época havia poucos meios de comunicação e hoje qualquer um se credencia e cobre Seleção. Mas é preciso separar o joio do trigo. Reconhecer quem é quem e admitir uma postura diferente em entrevistas. O assessor de imprensa chegou ao ponto de dizer que “mesmo que o atleta seja amigo da gente e queira falar eles não permitem, pois precisarão saber a pauta”. Isso é uma espécie de censura. Lamentável que no século 21 a gente seja surpreendido com uma decisão tão esdrúxula. Tenho a certeza de que é uma determinação de Tite e sua comissão técnica. O assessor de imprensa, Vinícius Rodrigues, por sua inexpressividade, não teria força para tomar uma posição dessas. Por isso, e por tantas outras incoerências, o Brasil vai penar para voltar a ganhar uma Copa do Mundo. Falta talento, pois nosso único craque parece não querer ser o dono da bola. Faltam comprometimento, alegria, e, pra dizer a verdade, jogadores mais largados e que não sejam vaquinhas de presépio. Essa é a realidade da Seleção Brasileira, nosso maior patrimônio esportivo. Uma pena!


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