Publicidade

Estado de Minas COLUNA DO JAECI

Ganhou o quê?

Construir uma história num clube, torná-lo campeão e colorir a galeria de troféus é mesmo tarefa para poucos. Para os competentes, para os fortes e, acima de tudo, para os vencedores, jamais para os vaidosos


postado em 07/08/2019 04:00 / atualizado em 07/08/2019 15:14

Os ex-presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares, com a taça de campeão da Copa do Brasil, em 2017, e o ex-presidente do Atlético, Alexandre Kalil, abraçando Ronaldinho Gaúcho no dia da conquista da Copa Libertadores, em 2013(foto: Arte sobre fotos de Ramon Lisboa e Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Os ex-presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares, com a taça de campeão da Copa do Brasil, em 2017, e o ex-presidente do Atlético, Alexandre Kalil, abraçando Ronaldinho Gaúcho no dia da conquista da Copa Libertadores, em 2013 (foto: Arte sobre fotos de Ramon Lisboa e Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
 
 
A história de Atlético, Cruzeiro e América é marcada por presidentes vitoriosos e competentes. É bom o torcedor saber quem é quem, e entender que as gestões competentes transformaram suas equipes em referência no país e no mundo. Quando cheguei em Belo Horizonte, em 1986, ouvia falar muito em Felício Brandi e Carmine Furleti. Dois dos maiores presidentes da história do Cruzeiro, que conquistaram Libertadores e Copa Brasil. Até hoje, ambos são idolatrados pela torcida. Outro dia, recebi um agradecimento do filho de Felício, por ter citado seu pai, elegendo-o como um dos maiores dirigentes do clube. Depois, tivemos a história vencedora dos irmãos Massi e, mais recentemente, dos irmãos Perrella. Zezé e Alvimar se dividiram em conquistas importantes como Libertadores, Copa do Brasil e Brasileiro. Dois dos maiores vencedores, com mais títulos no Cruzeiro. Deixaram saudades e, volta e meia, o torcedor pede que eles retornem ao clube. Souberam mexer o doce, montar grandes times e, o que é mais importante, conquistar taças. Mais recentemente, Gilvan de Pinho Tavares faturou dois brasileiros e uma Copa do Brasil. Conquistas que o deixam na galeria dos maiores presidentes cruzeirenses de todos os tempos.

No Atlético há dois eternos presidentes: Nélson Campos, campeão brasileiro em 1971, e Alexandre Kalil, campeão da Libertadores, em 2013, Copa do Brasil e Recopa, em 2014. O Galo não ganhava nada havia 42 anos, e Kalil, que administrou o clube com mão de ferro, mostrou o caminho das vitórias e das taças. Lembro-me quando ele era presidente do Conselho e numa eleição fui escalado pela TV Globo para fazer a cobertura. Quando Nélson Campos entrou no auditório, Kalil pediu que todos se levantassem e aplaudissem o presidente campeão de 1971. Foi emocionante o reconhecimento dele a um grande vencedor. Kalil não queria ser presidente, mas estava escrito (maktub), ele tinha que assumir o Atlético e torná-lo vencedor. Montou um dos maiores times da história, com o maestro R10 comandando a companhia, e, ao alugar o Independência, tornou aquele estádio um caldeirão. Um inferno para os visitantes, um aliado para seu time. Ali, onde o torcedor funga no cangote dos jogadores, o Galo tornou-se quase imbatível.

Kalil soube montar times e ganhar taças. Como escrevi acima, a história de um dirigente é marcada por conquistas de taças e gestão eficiente. Kalil tirou o Galo do ostracismo, do motivo de chacota, para transformá-lo num time poderoso e temido. A galeria de troféus da sede de Lourdes ganhou três taças de peso em sua gestão. O torcedor o tem como uma espécie de “Messias”, tamanha a idolatria por ele.

Outros dois dirigentes elogiados e reconhecidos são Marcus Salum e Alencar da Silveira Júnior, campeoníssimos com o América, dentro, é claro, da possibilidade do clube. Mas os americanos os têm na mais alta conta, como vencedores que são. Assim se escreve a história de um clube. Calçada, que morreu esta semana, no Vasco, Márcio Braga, no Flamengo, Francisco Horta, no Fluminense, Dualib, no Corinthians, e tantos outros dirigentes vencedores e carismáticos, que encheram a galeria de troféus de seus clubes. Os dirigentes, ainda vivos, têm história para contar. Os que morreram, deixaram saudades e o reconhecimento público, até mesmo dos rivais. Aí eu pergunto: e os dirigentes que passaram pelos clubes, tornaram-se conhecidos e nada ganharam? Esses ficaram, ou ficam, no ostracismo e os torcedores rezam para que o mandato termine logo. Não adianta o dirigente se achar o bam-bam-bam, fazer boa campanha nas competições e não levantar canecos. Vai passar pelo clube como um ‘Zé Ninguém’. Alguns são motivo de chacota, pois levaram seus clubes para a Segundona. O Vasco é um exemplo disso. Caiu três vezes, inclusive com Eurico Miranda, já falecido, que era o “todo poderoso”. Porém, ele ganhou títulos importantes e tem o reconhecimento do torcedor alvinegro.

A verdade do futebol é que um dirigente é amado ou odiado, dependendo da gestão que fez e das conquistas de taças. Sem elas, não há reconhecimento algum, não há empatia, não há liga! Dirigir um clube não é para qualquer um. Não é só chegar à mesa de um dirigente campeão e pedir que o apoie numa eleição. Tem que ter muito mais que isso. Tem que conhecer futebol, saber contratar jogadores, montar um grupo competente e vencedor e, acima de tudo, saber como se ganha um troféu. Os jogadores sabem quem é quem, assim como o torcedor. Se é do ramo, os caras respeitam. Se não é, adeus. Kalil, Zezé, Alvimar, Felício, Furletti, Gilvan, Nélson Campos, Salum e Alencar da Silveira Júnior conheceram o caminho das vitórias e das taças. Eles podem perguntar aos perdedores: “Ganhou o quê?”. E essa pergunta é cruel, pois a história só fala dos vencedores. Os perdedores passam sem deixar lembrança ou saudade. Como escrevi acima, tornam-se “Zé Ninguém”. Se você, que está lendo essa coluna e tem vontade de ser presidente de um clube, consulte os vencedores ainda vivos e se atenham à memória dos que já nos deixaram. Construir uma história num clube, torná-lo campeão e colorir a galeria de troféus é mesmo tarefa para poucos. Para os competentes, para os fortes e, acima de tudo, para os vencedores, jamais para os vaidosos. Ganhou o quê?

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade