A MARSELHESA BRASILEIRA
Tárik de Souza
crítico de música
Numa entrevista apressada, num barzinho da Rua Major Sertório, no Centro de São Paulo, poucos dias antes de apresentar-se na final do Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, no Rio, em 1968, Geraldo Vandré me confidenciou seus receios. Ia cantar sozinho ao violão, que mal tocava, sua litania de dois acordes, enquanto os concorrentes contavam com grandes orquestras ou arranjos modernistas. Temia fracassar. Era sua composição “Caminhando” ou “Pra não dizer que não falei das flores”, que arrebataria o estádio lotado, mas ficaria em segundo lugar. E renderia aos autores da primeira colocada, “Sabiá”, Tom Jobim e Chico Buarque, uma ensurdecedora vaia.
A toada em cadência de guarânia ou “rasqueado de beira de praia”, como preferia o autor, disparava uma letra explosiva, nas vésperas do AI-5 e do recrudescimento da ditadura militar: “Pelos campos há fome em grandes plantações/ pelas ruas marchando indecisos cordões/ ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ e acreditam nas flores vencendo o canhão”. E o choque frontal: “Há soldados armados, amados ou não/ quase todos perdidos de armas na mão/ nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição/ de morrer pela pátria e viver sem razão”. Com um refrão matador: “Vem vamos embora/ que esperar não é saber, quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”.
A composição abalou poderosos da ditadura militar. Um oficial do Exército escreveu um artigo no finado Jornal do Brasil, elogiando a eficiência mobilizadora da música e pedindo, por isso, a prisão do compositor. O humorista filósofo Millôr Fernandes a apelidou de “Marselhesa Brasileira”, e ela foi imediatamente censurada. Até uma inocente regravação, do rei do baião Luiz Gonzaga, teve a circulação vetada. Vandré foi obrigado a exilar-se, primeiro no Chile e depois na França. A perseguição implacável e seu retorno, sob humilhação, retratando-se de sua posição política, o fez perder o rumo artístico e pessoal.
Mas o hino resistiu ao tempo, sendo cantado nas manifestações ou evocado por políticos de oposição aos poderosos seguintes. Paraibano, radicado no Rio e depois em São Paulo, revelado pela bossa nova, fez parcerias com Carlos Lyra (“Quem quiser encontrar o amor”, “Aruanda”) e Baden Powell (“Se a tristeza chegar”), mas logo virou dissidente do movimento, ao enveredar pela saga nordestina (“Fica mal com Deus”), o protesto deslavado (“Hora de lutar”) e a moda de viola caipira, na obra-prima em parceria com Theo de Barros, “Disparada”, vencedora do Festival da TV Record, em 1966, ao lado de “A banda”, de Chico Buarque.
Seus recados, alguns bastante explícitos, soam atemporais, em meio às novas sombras e trevas do país, como o da farpada “Arueira”, também lançada em 1968, ano que parece repetir-se como farsa política. Cantava a canção: “Vim de longe, vou mais longe/ quem tem fé vai me esperar/ escrevendo numa conta/ pra junto a gente cobrar/ madeira de dar em doido/ vai descer até quebrar/ é a volta do cipó de arueira/ no lombo de quem mandou dar”.
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