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Estado de Minas ENTREVISTA DE SEGUNDA

Urubu cansa da vida de carnívoro e, depois de comer mamão, vira vegano

A fábula é da escritora mineira Marcela Maciel Nogueira, que lança seu livro de estreia, %u2018Um urubu vegano%u2019


07/06/2021 04:00

Marcela Maciel Nogueira formou-se em farmácia e agora está no quinto período de pedagogia(foto: Divulgação )
Marcela Maciel Nogueira formou-se em farmácia e agora está no quinto período de pedagogia (foto: Divulgação )

Há cinco anos, Marcela Maciel Nogueira planejava transformar alguma de suas histórias em livro infantil. Marcela sabe como a leitura é importante para a meninada e quer contribuir de alguma forma com a formação deles. Ela, que já trabalhou como professora, recorda que o momento da leitura com as crianças sempre foi o seu preferido em sala de aula. 

"Adoro vê-los comentar as partes lidas, pedir para voltar alguma página e observar as diferentes formas que uma mesma história pode tocá-los. Ao abrir o livro, um mundo novo surge para eles, e isso é muito empolgante".

A paixão pelo trabalho com crianças vem desde os tempos em que atuou como professora de inglês e balé, em Belo Horizonte, e como professora assistente em uma escola em Los Angeles, onde viveu por três anos. Na UFMG, formou-se em farmácia, atualmente está no quinto período de pedagogia.

Marcela conta que, enquanto pensava no projeto literário, pesquisava ilustrações, referências, preços dos trabalhos, também se preparava financeiramente para bancar o projeto do seu livro de estreia. Em “Um urubu vegano”, o herói do título troca sua dieta de restos de animais mortos por frutas, que ele, sem a menor preocupação, rouba da cozinha da casa da vovó.

Depois de entender as etapas da produção de um livro, no ano passado, além de estar mais confiante naquilo que já estava pronto, a autora teve grande ajuda da amiga Paula Cabral, que é designer e assumiu o projeto gráfico. 

"Além disso, foi ela quem me apresentou para a Mari Flecha, ilustradora que transformou o texto em imagem exatamente como sonhei e, ao mesmo tempo, muito melhor do que eu jamais imaginei! Por último, encontrei a Crivo Editorial, também via uma amiga querida, e então o livro se materializou."

Marcela conta que tem outros textos já escritos e segue escrevendo quando alguma ideia surge. "Eu adoro contar e ouvir histórias." Apesar de os leitores quererem saber o destino do urubu, Marcela ainda não pensou em continuação. "Então, quem sabe? Eu escrevo quando algo me provoca!”

Sobre o trabalho com as crianças, Marcela diz aprender com elas o tempo todo. "Observar sem pressa é algo que faço mais desde que comecei a dar aulas. Também fiquei mais à vontade para ser espontânea.”
As ilustrações do livro são assinadas por Mari Flecha
As ilustrações do livro são assinadas por Mari Flecha

Como aluna do curso de pedagogia da UFMG e professora de inglês você vive as duas experiências de quem usa o home office. O que há de bom e ruim nesse formato de ensino imposto pela pandemia?
Falo de um lugar de privilégio social. Tenho espaço em casa para trabalhar e estudar, um computador exclusivo para mim, boa conexão de internet, não tenho filhos ou outras crianças que morem comigo, tenho minha renda e divido as tarefas domésticas com meu companheiro. Portanto, foi e é possível buscar formação profissional e continuar trabalhando de casa, mesmo durante a pandemia. Dito isso e consciente que uma minúscula parcela da população se assemelha a essa realidade, vejo que o home office possibilitou que eu fizesse cursos ministrados por professores que moram em outros estados e não existiam na versão on-line anteriormente, que assistisse aulas em horários antes impossíveis por causa do tempo de deslocamento e que organizasse a agenda com mais possibilidades.

Entretanto, a desigualdade de condições individuais dos alunos e professores é imensa. Grande parte precisa enfrentar desafios desde o próprio acesso aos aparelhos eletrônicos e à internet para conseguir assistir/ministrar suas aulas. Há também a questão do espaço não apropriado. Muitos lares no país não têm sequer água e sabão para realizar a higiene básica que tem sido falada desde o início da pandemia e nos proteger do vírus. Estar longe da escola dificulta não só o aprendizado, mas a continuidade dos estudos e, para muitos, traz a fome. 

Há crianças que dependem da merenda para terem o que comer, e a luta contra a evasão escolar fica incrivelmente mais árdua. Pensar nessas famílias desassistidas precisa ser a prioridade. Como professora e aluna de pedagogia de uma universidade pública, não há meio para dizer que tal formato de ensino, nas condições que temos hoje no país, é bom. Enquanto houver desigualdade e sofrimento dessa esfera, é impossível falar que o ensino remoto é vantajoso.
 
Uma das discussões no país diz respeito ao retorno das aulas presenciais. Você acompanha a situação da escola onde você trabalhou em Los Angeles ?
Acompanho pelas redes sociais de algumas professoras com quem trabalhei na Crestwood Hills Preschool (que é uma escola privada). As aulas presenciais estão voltando na medida em que há uma quantidade suficiente de pessoas recebendo as doses necessárias das vacinas. Ainda assim, as crianças precisam usar máscaras durante todo o tempo que estão na escola e há outras recomendações de segurança.

No Brasil, a situação das escolas públicas já era muito difícil. Durante a pandemia, vimos verbas para educação serem cortadas, enquanto a destinada ao Ministério da Defesa (militares), por exemplo, aumentou. Precisávamos ampliar ações orçamentárias de apoio à infraestrutura para a educação, mas o contrário é que foi observado. Muitas escolas não têm estrutura de banheiros nem condições adequadas para sequer lavar as mãos. Não há como fazer reforma para garantir a ventilação adequada para um retorno mais seguro às aulas presenciais, e a maioria dos professores ainda não foi vacinada. A educação precisa ser prioridade e isso não significa somente criar uma lei que a indique como tal. É preciso garantir investimento em sua adaptação e melhoria para que elas possam ser reabertas de maneira a assegurar que vidas sejam preservadas e que tenhamos ganhos educacionais.

Com o isolamento, os cursos on-line são uma opção, contudo o excesso de ofertas deixa o público indeciso na escolha. Qual o caminho que você seguiu, os critérios que usou para escolher bem o seu curso de escrita criativa que resultou no livro.
Gosto de pedir indicações de amigos que se interessam por assuntos parecidos com os meus. Alguém sempre dará uma dica de curso ou de outra pessoa que possa ajudar. Através das redes sociais também consigo boas recomendações à medida que o algoritmo trabalha. Nos últimos anos tenho estado mais atenta a quem sigo e ao que aparece para mim. Para o curso durante o qual escrevi o texto do livro, recebi a indicação de uma amiga, que também irá lançar o seu em breve!
 
Na literatura infanto-juvenil, urubus como personagens são poucos, mas existem. Por que a sua escolha logo por uma das aves que a maioria de nós rejeita?
O texto surgiu de um exercício de escrita proposto pela professora. Precisávamos falar sobre a casa e seus problemas. Algumas sugestões foram dadas, entre elas a minha escolha: um urubu entra se você abrir a janela. O curso não era voltado para a literatura infantil, e sim sobre formas breves. Mas, para mim, escrever para crianças é como me sinto confortável.

E um urubu vegano… Para você, qual a importância de a sociedade abolir o uso de qualquer produto de origem animal, seja na alimentação ou no vestuário?
O respeito à nossa singularidade é fundamental para mim e é um tema tratado no livro. Por reconhecer as multiplicidades culturais, não vejo espaço para essa abolição. O que acredito é que a crueldade não deveria existir e, na medida do possível e praticável, podemos ir contra as formas de exploração animal. Quando somos coerentes com esse posicionamento, é natural assumir uma visão que não coloca o ser humano no centro de tudo e que não alimenta um capitalismo predatório. Nos relacionarmos com o meio ambiente de forma sustentável é um caminho que leva à redução do consumo de produtos de origem animal e industrial. O processo de cada um será único, e não necessariamente tem uma linha de chegada. É possível também começar e continuar de várias formas e isso quem decide só pode ser o próprio sujeito.
 
Foram três anos vivendo, estudando e trabalhando em Los Angeles. O que você aprendeu de melhor nesse período?
Aprendi que tempo não precisa ser dinheiro, que trabalhar excessivamente não tem benefícios para o trabalhador e que, em várias áreas da vida, mas principalmente na carreira, ir na direção do que o próprio desejo aponta é a única forma de continuar com satisfação.

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