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Estado de Minas entrevista de segunda Rafael Mantovani/ Endocrinologista infantil

Alimentação de qualidade das crianças foi afetada com a pandemia

Endocrinologista infantil Rafael Mantovani revela, na Entrevista de Segunda, como os pais podem vencer mais este desafio


11/01/2021 04:00

(foto: Deia Quitino/Divulgação)
(foto: Deia Quitino/Divulgação)
 
Dos desafios enfrentados pelos pais na educação dos filhos, ensinar a criançada o segredo da boa alimentação é um dos mais difíceis. A grande pergunta é: como enfrentar a situação?. Para o endocrinologista infantil Rafael Mantovani, de 42 anos, com planejamento a tarefa pode ficar mais fácil. "Porque aprender a dizer 'não' para os filhos é uma tarefa difícil, mas que faz parte inclusive da orientação pediátrica na puericultura. Evitar o consumo de açúcar nos dois primeiros anos de vida pode parecer uma tarefa fácil, mas é um desafio, especialmente depois do primeiro filho."

Pai de dois meninos – Francisco, de 13, e João, de 8 –, e a partir de experiência própria, o médico acredita que a diversidade alimentar e as "regras e combinados" contribuem para uma alimentação saudável das crianças. "Fica bem mais fácil convencer os filhos a comerem vegetais, por exemplo, se os pais têm costume de comê-los no dia a dia. A seleção do que entra na despensa, na geladeira, as regras, até para a transgressão alimentar." 

Formado em medicina pela UFMG em 2002, Rafael é um dos três sócios da clínica pediátrica Mon Petit, uma das referências no setor. Para o médico, a endocrinologia infantil é uma área fascinante da medicina por trabalhar com o crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. O desafio, segundo ele, se relaciona, em grande medida, com o próprio desafio da pediatria em si, que é uma questão das famílias. 

"Uma criança não tem autonomia para cuidar de si. Não é ela quem faz as compras, não é ela quem decide o que vai ser preparado, não é ela quem define rotinas, hábitos. Sendo assim, para que qualquer conduta dê certo, é fundamental a adesão da família", afirma. "Uma criança ou um adolescente não conseguem adquirir novos hábitos sozinhos, é um esforço coletivo. Trabalhar com as famílias ações preventivas, estimular hábitos saudáveis, mesmo quando há uma grande dificuldade. Procurar motivar pais e filhos a praticar atividade física, a dormir mais cedo, são os grandes desafios!"

Atividades do homescooling, tarefas do home office, cuidados com a casa. Nessa rotina pandêmica, os pais conseguiram controlar a alimentação das crianças ou acabaram relaxados, deixando abertas as portas da dispensa e da geladeira?
Passamos por fases nesta pandemia – que já dura nove meses! Inicialmente, uma fase de relaxamento, "férias forçadas" dentro de casa. Mais doces, menos regras, menos qualidade. Com o passar do tempo, houve uma melhora da consciência de várias famílias. Houve, inclusive, uma tendência à melhora dos hábitos alimentares, já que lanches extras em clubes, em casas de vizinhos e de parentes, passeios em shoppings não eram uma rotina como na fase pré-pandemia. Mas evoluímos com um esgotamento dos "bons hábitos". Redução de atividade física e novamente uma maior ingestão de alimentos (saudáveis ou não) contribuíram para um  fenômeno de ganho de peso na infância e na adolescência. Isso representa um maior risco de desenvolvimento de obesidade e suas complicações, como hipertensão arterial, alterações do colesterol, da glicose, problemas ortopédicos e psicossociais.

A pandemia também traz reflexos negativos, contribuindo de alguma forma para o aumento da obesidade infantil. Já existem pesquisas nesse sentido ou é muito cedo para falar sobre isso e por quê?
Ainda não há resultados de pesquisas por causa da dificuldade metodológica nesta fase da pandemia. Mas há várias publicações relevantes alertando sobre os riscos de um grande aumento de casos de sobrepeso e obesidade infantil em 2020. O sedentarismo, o consumo maior de alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar e sal, o aumento do tempo de tela e a piora da saúde do sono são os "vilões" da atualidade.

Você percebe algum efeito da pandemia nas crianças? 
Efeitos psicológicos, como medo e insegurança, a falta de socialização nas escolas, ansiedade pelo momento e pelo excesso de tela (jogos, filmes, séries, desenhos, YouTube, redes sociais...). Adolescentes sem as experiências da idade, sem o convívio presencial no seu meio, com os pais "sempre por perto"... Acredito que o retorno às aulas presenciais, quando possível, poderá ajudar a reduzir o impacto psicossocial da pandemia. A prática regular de atividade física (especialmente ao ar livre) ajudaria de várias formas: redução do tempo de tela, melhora do sono, redução do risco de sobrepeso, melhora do perfil hormonal e metabólico... 

A cantina sempre foi lugar disputado na hora do intervalo. Pelo menos na minha época, tanto no colégio quanto na faculdade. Em nenhuma dessas fases discutia-se alimentação saudável. Qual a função das escolas para que as crianças cresçam com hábitos saudáveis? 
A escola tem um papel complementar na educação alimentar. Pode-se, na sala de aula, ensinar e conscientizar as crianças sobre hábitos saudáveis de vida, inclusive sobre os alimentos. Também é função orientar os pais e alunos sobre a importância da qualidade dos lanches e merendas levados de casa, assim como criar regras sobre os produtos vendidos nas escolas. Hoje, temos informações disponíveis sobre o tema, o que não era a realidade da época da nossa escola.

Alimentação saudável é urgente, mas é difícil pensar no tema quando existem crianças que têm na escola a única refeição do dia. Você acredita que a sociedade civil e o poder público, unidos, podem enfrentar a questão da fome? 
Sem dúvida, o poder público tem um papel muito importante na alimentação de muitas crianças. A escola pública pode oferecer uma refeição rica em vários nutrientes que dificilmente alguns teriam acesso em casa. Programas públicos já têm sido desenvolvidos nessa área há anos – creio que o próximo desafio é a implementação de melhorias, como o horário integral na escola pública, propiciando a maior prática de atividade física, o reforço pedagógico, além de uma nova refeição (saudável!).

Na última semana do ano passado, o Reino Unido proibiu a venda de batatinhas, balas e alimentos com alto teor de gordura, sal e açúcar. O que você acha da iniciativa? Acredita que seria medida importante para as crianças no Brasil ou são realidades distintas?
É muito difícil uma sociedade reduzir os índices de obesidade infantil se não houver o papel do governo no sentido de promover campanhas de conscientização, estímulo para a venda de alimentos naturais e saudáveis e barreiras para a venda indiscriminada de alimentos ultraprocessados, especialmente aqueles destinados ao público infantil. As sociedades médicas alertam sobre isso há anos. As medidas adotadas no Reino Unido são um passo importante nesse processo. Seria desejável um maior engajamento dos políticos nesse sentido também no Brasil. Os poucos estudos com a população brasileira mostram que nossa realidade não difere muito em relação à prevalência do excesso de peso na faixa etária pediátrica dos países desenvolvidos. Espera-se que haja bons resultados nas medidas a serem adotadas e que outros países, inclusive o Brasil, possam promover medidas parecidas.

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