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Estado de Minas COLUNA HIT

Adilson Marcelino: 'Urgente é viver'

Convidado por Helvécio Carlos para escrever na seção 'Vivendo e aprendendo' deste sábado, jornalista diz que a pandemia impôs ao mundo nova concepção de espaço e tempo


28/11/2020 04:00


Adilson Marcelino
Jornalista e pesquisador do cinema brasileiro

Depois do enorme sucesso do disco e do show Falso brilhante, a cantora Elis Regina estreou, em 1978, o espetáculo Transversal do tempo. Se no primeiro estava em cena a saga de um artista, neste o foco estava no homem comum. E a ideia da concepção ela teve ao se ver em um engarrafamento de trânsito, impedida de prosseguir para o seu destino. Elis se sentiu presa não só no carro, mas numa transversal do tempo, como na música de João Bosco e Aldir Blanc: “Fechada dentro de um táxi/ Numa transversal do tempo/ Acho que o amor/ é a ausência de engarrafamento/ As coisas que eu sei de mim/ Tentam vencer a distância”.

Desde que a pandemia da COVID-19 se instalou e com ela o distanciamento social, essa imagem de Elis e esse estado de coisas que ela sentiu me vêm à cabeça e ao coração. Porque, sobretudo, o que a pandemia fez com as nossas vidas foi essa suspensão do tempo. Cada um, em sua realidade social, se viu em uma nova concepção de tempo e espaço, uma reconfiguração entre o ser e o estar. É como se, escravos do mundo digital, voltássemos a fórceps ao analógico.

Se há algo que aprendi, ou reaprendi, nesta vida pandêmica é que urgente é viver. E aí no sentido mais amplo possível do termo, potencializando ainda mais o coletivo em detrimento do individual. Porque viver só em volta do nosso umbigo é mesmo muito triste e pequeno. Se há uma palavra preciosa que está na moda é empatia, o sentimento imperioso de nos colocarmos no lugar do outro. Pois é quando podemos nos manter empregados – e tantos não podem – que a gente vê, ainda com mais nitidez, que a dor, o desespero e o desamparo do outro é também nosso.

É na hora em que temos de fazer de tudo em casa, como a faxina, que temos a dimensão real do quanto é um serviço pesado, ainda que muitos minimizem as dores, o cansaço e a má remuneração dos que nos servem.

A única certeza, e ainda assustadora, é de que vamos morrer. A pandemia está aí para nos mostrar que esse fim pode ser agora. Nosso, dos nossos, de quem amamos ou não, do mundo. Portanto, se o mais urgente é viver, o que a pandemia me ensinou de mais precioso é que esse viver, e essa urgência, só faz sentido se for com o outro.

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