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Estado de Minas COLUNA HIT

Copos na pia. Abelhas no telhado. E panela de pressão!

Ao completar sua 180ª página, o 'Diário da quarentena' reúne depoimentos sobre descobertas fantásticas escondidas dentro de casa


12/09/2020 04:00 - atualizado 11/09/2020 20:44

Seja qual for o tamanho e o endereço do lar, poeira e um cantinho escondido à espera de um paninho não faltarão. Nos primeiros dias da quarentena, na casa da minha mãe, em Sete Lagoas, o serviço de faxina era rápido. Com pouca prática, passei direto pelo canto de janelas, dos armários, da tela do computador e do móvel que guarda parte da centena de CDs. A poeira sabe nos ludibriar.

A quarentena ensinou, nestes 180  dias de isolamento, que é uma luta constante manter a casa linda como nas páginas das revistas. É preciso jeito, carinho, atenção, tempo e, sobretudo, talento. Trabalho braçal. Só experimentando para reconhecer quem enfrenta o dia a dia da limpeza de nossos lares.

A faxina é uma luta. A importância de valorizar quem atua no ofício está entre as descobertas de muitos confinados. Mas o trabalho doméstico não foi a única “novidade”. Não temos absolutamente nada a comemorar neste ano que praticamente já se foi – e não vimos passar.

Para marcar os seis meses de isolamento social, autores das 180 páginas do Diário da quarentena revelam suas descobertas domésticas.

 NA COZINHA
“Um copo sujo. Lavo. Olho para o lado, aparecem dois. Sujos. Lavo. Quatro. Que estranho. Lavo. Oito. Como eu consegui sujar isso tudo? O telefone toca, um amigo cientista. Ele, então, esclarece o mistério: copo na pandemia é igual 'gremlins' (aqueles monstrinhos conhecidos de quem nasceu no século passado). Você molha e ele se multiplica.”

. Gustavo Greco, designer

ÁREA DE LAZER
“Louca pra chamar um corretor pra avaliar meu apartamento. É certo que o imóvel se valorizou muito nesta quarentena. Era só um apartamento e agora é também estúdio, escritório, área de lazer, academia e parquinho.”

. Patrícia Gaspar, atriz

NOSSO WILSON
“No início da quarentena, não saíamos nem para ir ao mercado. Por sorte, havia feito a compra do mês dias antes de nos isolar. Por azar, havia esquecido de comprar um balde, já que o nosso, com a alça quebrada, rachou após uma queda. Nos primeiros dias, tentamos evitar a necessidade do uso, mas acabamos fazendo uma verdadeira operação. Abusando na ‘silver tape’ com ‘super bonder’ para a rachadura e a adaptação da alça com uma camisa velha. O balde acabou por se tornar assunto e virou personagem da quarentena, apelidado de ‘Nosso Wilson’, em referência ao filme com Tom Hanks.”

. João Pedro Nemer, artista plástico

NA GELADEIRA
“Insuportável cheiro de gás alarmou o andar inteiro. Temeu-se incêndio, explosão. Vistoria, OK. Suspeitaram do meu tapete, umedecido com água sanitária. Não era, claro. Cadáver em decomposição, Deus me livre e guarde. Os vizinhos de cima e de baixo atenderam ao interfone – de viva voz, felizmente. Aí, a faxineira veio e achou uma forma de peito de frango em cima da geladeira. Era mesmo cadáver em decomposição. Esquartejado.”

. Olavo Romano, escritor

CONDOMÍNIO
“Percebo que algumas paredes estão sujas, vidros com marcas de dedo, a máquina de lavar roupa que deveria no mínimo 'ser exemplo' não estava bem assim. Concluo que minha secretária, nos últimos tempos, estava praticando mais o uso de WhatsApp do que qualquer outra coisa. Mas perdoei, já que ficaria uns cinco meses sem recebê-la, saberia depois. Jaquetas de couro mofadas no armário; sim, esses meses me mostraram muitas coisas. A síndica me conta que no prédio onde moro (10 apartamentos) só tem eu de homem e ela tem medo de assalto! Nem sabia disso... Minha casa, minhas surpresas, meus gatos e minha vida. Vida que segue!”

. Olívio Cardoso Filho, 
dono do Estabelecimento Bar

MÁQUINA DE LAVAR
“Todas as roupas que lavava saíam da máquina com manchas escuras. Estraguei várias camisetas do meu filho. Ele, delicadamente, me perguntou: ‘Mãe, você sabe o que está causando isso?’. Eu: Filho, juro que não estou colocando nada de diferente, pode ser um pouco do sabão em pó que fica sobre a roupa quando jogo sabão dentro da máquina. Ele: ‘Como assim? Você não coloca no dispenser?’. Não, filho. Nem sabia o que é dispenser, muito menos tinha usado a máquina de lavar roupa. Ele: ‘Como você colocava a quantidade de sabão?’. Eu: Tudo no sentimento, filho...”

. Mary Arantes, empresária

SÍTIO ARQUEOLÓGICO
“Só três pessoas em casa, cada uma cuidando de sua rotina de trabalho e das atividades de sobrevivência, sem funcionária doméstica em atividade, descobri que só nós não acumulamos poeira. Se a quarentena durar, a casa vai virar um sítio arqueológico para descobrir livros, móveis, objetos.”

. José Alberto Nemer, artista plástico

PARADOXOS
“Eu, ser humano urbanoide acostumado com as idas e vindas na cidade, com predileção para cinemas, livrarias e lojas de discos (ainda compro bolachas e CDs), tive que aprender a reduzir essa circulação para alguns metros quadrados. O cinema virou minha sala de TV, o velho acervo de discos me revelou novidades. Entre meus velhos livros, alguns ainda não lidos, descobri novas histórias. Resumo: absorção de conteúdo não está ligada ao consumo, a gente costuma comprar antes mesmo de absorver. Paradoxos.”

. Roger Deff, rapper

BABY BOOM
“Antes da COVID, eu e minha mulher só nos encontrávamos de manhã, quando íamos trabalhar, e à noite, quando voltávamos e íamos dormir. Com essa pandemia, a única coisa que nos separa é a parede, cada um no seu escritório. De vez em quando, durante o dia, nos encontramos para dar um cheirim, um cafuné, coça cacunda e, de noite, o cobertor de orelha. Mais de 30 anos de casados que não fazíamos isso. Não fosse a idade, era capaz de a família crescer. Qual seria o nome desse próximo rebento? Covid-19?”

. Mauro Alvim, escritor

NO TELHADO
“Bzzzzz... No início desta pandemia, fui surpreendida pelo enxame de abelhas que se formou, de repente, no telhado da minha casa. Verdadeira aglomeração. Juro! Eram mais de 1.000 bzzz... bzzz... bzzz... Fiquei chocada! Pensei: já não basta o pânico diante desse vírus assustador? Agora vou ter que conviver com uma colmeia na minha casa? E se for alérgica a picada de abelha? Bzzz... Será que posso ter choque anafilático? Bzzz... E se tiver que ir a um hospital cheio de coronavírus? Bzzz.. Que sufoco! Bzzz... bzzz. Por fim, com muita fumaça, consegui espantá-las pra longe. Mas na minha cabeça elas continuam zumbindo até hoje! Bzzzzzzzzzz...”

. Ione de Medeiros, 
diretora do grupo Officina Multimédia

DEBAIXO DA PIA
“Eis que nesta quarentena descobri o armário embaixo da pia. Aquele recôndito misterioso e indecifrável como um riso de mulher que existe na cozinha de todo lar. Na minha odisseia culinária, não só abri as portas daquele pequeno universo paralelo como descobri diversos instrumentos e aparelhos de alta tecnologia que habitavam nosso infinito particular e eu nem sabia. Desde o mandolin (Google nele!) até a caixinha vazia de sorvete que faz das tupperwares da minha mãe artefatos da Nasa. Falando na agência espacial, eu decifrei, usei, e, mais do que isso, dominei a temível panela de pressão elétrica. Só quem tem o foco, a força e a fé necessários pra fazer um bom feijão-carioquinha sabe do que tô falando. Depois de me sentir astronauta capaz de manejar equipamentos de alta complexidade ou cozinheiro do time do Léo Paixão no Mestre do sabor, tudo o que almejo é cozinhar como a minha avó quando ela usava seu apetrecho mágico: a colher de pau.”

. Daniel Zago, produtor de eventos

FAXINA
“Como a quarentena não acabou em junho, julho e nem em agosto, olhei em torno e perguntei: o que mais?. Num dia de fúria, amanheci disposto a tudo. Encarei as gavetas e as prateleiras apinhadas de pastas, cadernos, recortes de jornais e revistas, álbuns de fotos (sim, tenho fotografias impressas, muitas, e quase nada no celular ou na 'nuvem'). Por um lado, curti boas memórias. Lembrei-me de vários amigos e de ótimos momentos. Por outro, descobri o tanto de inutilidades que guardava. Enfrentei. Abri espaços. Livrei-me das tralhas, do peso morto, da energia parada. Terminei o dia exausto, com dores pelo corpo, mas feliz. A casa toda está mais leve, sorri satisfeito, agradecidopela disposição, reanimado para o tempo que for necessário.”

. Rogério Tavares, 
presidente da Academia Mineira de Letras

VISITAS
“Em uma sessão faxina fitness, encontrei umas 30 aranhas das pernas finas. Não conhecia minhas colegas de apartamento.”

. Gustavo Paulino, economista

CADÊ O CELULAR?
“Coisinhas que detesto (agravadas na pandemia): ir ao banheiro, com meias, e pisar na poça d’água; entrar no quarto, com a esposa dormindo, sem lanterna, e bater a canela na cama; retirar a pasta de dente endurecida do frasco destampado; lavar louça com luva furada; ligar para o celular e correr pela casa para encontrá-lo; retirar o saco de lixo furado e ter que colocá-lo dentro de outro; esquecer de marcar onde parei a leitura; procurar as unhas que saem voando na hora de cortá-las; esconder-se para tirar uma meleca.”

. André Rubião, professor

PIPOQUEIRA
“Descobri que as facas da cozinha estavam velhas; que ter tempo pra fazer pipoca na pipoqueira (e não no micro-ondas) é divino. Agora sei quantos detergentes de pia gasto por mês, e que existem produtos de limpeza fantásticos! Descobri o quanto tenho a descobrir, mas descobri, principalmente, o quanto tudo isso me encantou!”

. Fernanda Bicalho, administradora

HÓSPEDES
“A verdade é que esta quarentena serviu para me mostrar que moro no Simba Safari, onde as verdadeiras donas da casa são as minhas duas gatas. Eu e meu marido somos os hóspedes.”

. Fernanda Ribeiro, jornalista

PELADO NO QUINTAL
“Às vezes, com pavor, saio de casa para alguma providência que depende só de mim. Ao voltar, deixo o tênis na porta da rua para receber uma dose de Lysoform spray. Descalço, entro pelo portão lateral, sigo direto para a lavanderia, saco a máscara, tiro toda a roupa e, peladão, atravesso o quintal, com o cuidado de não ser visto pela vizinhança. Livre, mas constrangido, entro pela cozinha e vou direto para o banho. Talvez, quando passar essa onda, eu esteja tão acostumado que até me permita andar nu pelas ruas. É a pandemia parindo o novo normal: o nudismo.”

. Osias Ribeiro Neves, escritor

SALA DE AULA
“Minha casa virou meu palco, meu set. Gravei publicidade e um filme de ação. Virou minha sala de aula e meu boteco de salvação!”

. Eda Costa, cantora e atriz

NO JARDIM
“Lembro-me nitidamente de que, durante a minha infância, todos os dias minha mãe acordava cedo e regava suas plantas, tirava as ervas daninhas, replantava as que estavam morrendo, adubava, conversava com elas com um carinho que me deixava emocionado. Na verdade, achava engraçada aquela relação dela com as plantas. Cresci, me mudei da casa dos meus pais, fui morar sozinho e nunca dei muita atenção para plantas. Tive um cacto e achava fácil cuidar dele. Desde 2019, me despertou ter outras plantas em casa. Fui atrás de selecioná-las para meus ambientes, porém, com a agenda cheia de antes da pandemia, nunca cuidava delas como deveria, mas sempre estavam lindas. Afinal de contas, alguém cuidava. Um belo dia, em meados de abril, senti que estavam tristes e fui me aproximando para entender o que ocorria. Era falta de água que estavam sentindo há mais de 30 dias. Ha ha ha. Agora me pego regando e conversando com elas, como minha mãe faz!”

. Phillipe Martins, relações-públicas

AS CORTINAS
“Eu nem sabia que a gente tinha de lavar as cortinas a cada seis meses. A pandemia me ensinou isso também. Fui descobrir porque, depois de tanto tempo trancada em casa, a alergia começou a apontar. Olhei pra elas – as cortinas – e estavam lá me perguntando, com certo tom de desprezo: você achou que a gente se lavava sozinha?.”

. Luciana Gomez, advogada e compositora

SOBREVIVENTE DO DELIVERY
“De repente, me vi novamente na casa dos meus pais, em Bom Despacho, vários anos após ter saído de lá para morar em outra cidade. Tinha uma nobre missão: cuidar deles durante a pandemia. O pai traz o jiló novinho da roça e pede: ‘Faz lá aquela farofa com ovo que só você sabe fazer’. Olho pra ele, tentando compreender o desejo repentino, e percebo que ninguém ali concebe a ideia de que não sei cozinhar. Sou da capital, sobrevivo de delivery. Mas como isso me pareceu mais uma ordem, lá fui eu preparar o prato, experimentar a arte da gastronomia mineira, errar no tempero e queimar a mão.”

. Vander André Araújo, 
escritor e estudante de filosofia

CABELO E MEIAS
“Certamente, os anfitriões da minha quarentena foram o meu cabelo, que acho que nunca mais será penteado e dificilmente vai se regular, e as meias, que, com a ajuda do frio, só saíram do pé para tomar banho!”

. Tiago Gramiscelli, professor de educação física

ON-LINE
“Acordei e o interfone já estava tocando com mais uma entrega. Tirei a máscara, troquei o álcool, peguei o sapato e desci... Era uma live. Passei água sanitária e a guardei na despensa. Fui trocar a fralda do meu filho, mas a internet caiu e não consegui completar. Então, agendei o Zoom pra mais tarde e enviei as roupas pra lavanderia pelo WhatsApp. As louças da pia já estavam com mais de mil visualizações, mas nenhum like. Não consegui tomar banho porque o desinfetante tinha acabado. Ainda bem que na aula virtual os alunos não vão notar. Só dançando mesmo...”

. Jomar Mesquita, coreógrafo

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