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Estado de Minas COLUNA HIT

A 'operação limpeza' de Binho Barreto

No 'Diário da quarentena', artista visual descreve as sensações que experimentou com a faxina no chão do quintal


11/09/2020 04:00


Outro dia, peguei emprestada uma máquina de jato de água para limpar o piso de cimento do quintal. Confesso que eu não sabia do que se tratava, até ver o que era. Algumas pessoas que vinham à minha casa quando eu recebia visitas, antes da pandemia, me davam o conselho de que deveria "passar a máquina no chão". Eu imaginava uma geringonça cheia de lâminas e fios, uma parafernália medonha com poderes ultramundanos.

Um dos amigos que me aconselhavam passou aqui outro dia, bem no meio da quarentena, e sacou o tal equipamento do porta-malas, deixando-o em frente ao portão. Ele, que usava máscara importada, aquela bacanuda que a OMS recomenda, se conteve em me telefonar para avisar que estava na porta. Gelei por completo ao entender que a temida "máquina" tinha chegado. Peguei o objeto, que mais parecia um aspirador de pó obsoleto, e o levei até o quintal. Não sem antes besuntá-lo de álcool 70%.

No dia seguinte, conectei a mangueira ao orifício lateral da máquina e comecei a fazer a limpeza. A altíssima pressão da água impulsionada pelo compressor ia removendo a crosta de lodo do cimento, que agora mostrava a sua verdadeira cor: cinza-claro, e não o azul-esverdeado boloresco de antes. É estranho pensar que a aguaceira ia batendo e vencendo a craca. Na correnteza provocada pelo esguicho, era possível notar partículas imundas seguindo coreograficamente até o ralo.

Aquilo me trazia uma sensação de alívio pessoal, como se estivesse sendo expurgado algo que também estava incrustado em mim.

O que é um isolamento social? O que é distanciar-se?

Durante os últimos meses, o que mais fiz foi estar em contato. Nunca tive tanta clareza de quanto as produções artísticas cumprem o papel de nos aproximar. Por meio dos filmes, das músicas, dos livros, das lives (e nem tão lives), me aproximei de muita gente. No distanciamento físico, mas com conexões afetivas e nostálgicas, reencontrei-me com pessoas queridas, com o meu próprio passado, com aqueles que já nem vivem mais, com amigos invisíveis e imaginários, e também comigo mesmo. O isolamento foi, assim, tomando a forma de uma multidão – conectada por wireless ou pensamento.

Não deixei de me conectar com os sofrimentos causados pela pandemia, nem mesmo com aqueles anteriores a ela, mas me permiti dissipar minhas angústias, assim como acontecia com aquelas partículas verde-azuladas que iam saindo do chão. A arte e o afeto tomaram o lugar da temida máquina que eu imaginava cheia de fios e lâminas e, assim, pude, ainda que momentaneamente, acreditar na vida e em seus fluxos, em seus caminhos fortes e maleáveis.

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