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Diário da quarentena

Só a imaginação salva
 
Lívia Gaudencio
Atriz e dramaturga


O casamento não ia bem desde antes da quarentena. Havíamos nos perdido entre filhos e empregos. Vivíamos nos trombando pela casa, pelo fato de já não nos olharmos mais. Usávamos as crianças pra fingir que nos divertíamos juntos. A verdade era que os desejos e planos já não eram os mesmos e o tesão desbotou. Quando veio a pandemia, eu sabia que seria impossível encarar aquela vida que não fazia mais sentido. O pesadelo que visualizei incluía crianças 24 horas na TV, enquanto eu e meu marido íamos desaparecendo um diante do outro.



Numa tentativa desesperada de sobreviver ao confinamento, eu comecei a inventar mundos. Tudo bem complexo, com personagens imaginários convivendo comigo, inspirados nas pessoas conhecidas, porém melhoradas. Só era interrompida quando ia dormir e chegavam os sonhos que eu não controlava o desfecho. Aliás, é importante mencionar que todas as minhas histórias inventadas – todas mesmo – tinham desfechos felizes. Isso eu fazia questão!

Um dia, recebi um pedido inesperado. Minha vizinha iria ficar fora por uma semana e precisava que eu fosse até seu apartamento para aguar suas plantas. O apartamento dela era uma versão do nosso, caso ele existisse no paraíso. Havia uma verdadeira floresta indoor! Com flores coloridas, plantas de todos os tamanhos, uma rede na sala, uma cama japonesa com luzinhas românticas no quarto e, para minha surpresa, uma hidromassagem no banheiro. E, na cozinha, uma garrafa de vinho branco e outra de vinho tinto com uma anotação em uma pequena lousa decorativa: “Lívia, querida, este par de vinhos é para agradecer a gentileza de vocês!”

Pausa para uma respiração profunda. (Vocês devem ter captado meu deslumbramento.)

Inspirei. Expirei.

Passei a ir todos os dias, mesmo sem precisar. Aguava as plantas, mas também deitava na rede, lia livro, escrevia um pouco e cheguei até a tomar banho na banheira. Avisava ao marido que voltava em meia hora, mas sempre passava do tempo. Até que um dia eu dormi na cama japonesa e voltei três horas depois. Neste dia, meu marido disse que ele mesmo queria aguar as plantas da vizinha. Ele voltou meia hora depois e disse: “Amanhã é o último dia que vamos aguar as plantas, então eu gostaria que fôssemos juntos”.

Fingi naturalidade ouvindo aquela frase, mas meu pensamento era: “Meu Deus! O que ele teria visto lá? O que teria pensado? Que proposta era essa agora?”. Não contive minha pulga atrás da orelha e, assim que todos dormiram, eu fui, pé ante pé, até a casa da vizinha. Chegando lá, o vinho tinto estava no centro da mesa com duas taças. Na pequena lousa decorativa estava escrito: “Quem sabe um novo lugar possa nos trazer um novo recomeço?”. Vasculhei a geladeira. Nada comestível. Corri em casa e busquei um queijo nosso. Voltei pra casa e deitei ao lado dele na cama. Olhando ele dormir, reconheci aquela pessoa com quem decidi me casar. Comecei a rir sozinha. Muito típico esse jeito torto dele me convidar pra um encontro.

No dia seguinte, fingi não fazer ideia dos planos. Procurei o longa-metragem infantil mais longo possível e coloquei as crianças para assistir. Vesti uma roupa, arrumada o suficiente para que ele pudesse me achar bonita, mas que ainda pareça que era pra ficar em casa. Com o coração levemente acelerado e borboletas na barriga, eu disse a ele que estava pronta para aguar as plantas.