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Estado de Minas COLUNA HIT

'Diário da quarentena' chega à 150ª página, escrita coletivamente

O advogado Pedro Henrique Oliveira reúne, nesta quinta-feira, frases escritas pelos 59 autores convidados pela Coluna Hit para revelar como enfrentam os dias de isolamento impostos pela COVID-19


13/08/2020 04:00 - atualizado 12/08/2020 22:40

Desde o início do isolamento social, a Coluna Hit foi transformada em Diário da quarentena, reunindo textos de convidados retratando este momento da trajetória da humanidade. Para marcar a página 150, o advogado e administrador de empresas Pedro Henrique Oliveira, de 31 anos, topou o desafio de criar um texto com frases destacadas em cada uma das páginas do Diário.

Por e-mail, Pedro recebeu 134 frases correspondentes às publicações feitas entre 17 de março e 28 de julho. De lá para cá, ele teve mais 10 dias para concluir e entregar o trabalho na segunda-feira passada. Ele conta que o primeiro passo foi categorizar as frases em “cotidiano”, “reflexivas”, “depressivas”, “otimistas”, “arte e cultura”, “técnico-científicas” e “críticas”. “A partir daí, montei uma linha de raciocínio. São frases divergentes, com tantos sentimentos revelando o que todos estão passando”, afirma Pedro.

Foram selecionadas 65 frases, das quais 59 estão nesta página. “Havia utilizado mais, mas acabei cortando por avaliar que ficou cansativo e repetitivo”, diz ele, que fez poucas interferências, usando termos conectivos ou frases autorais e pequenas alterações no tempo verbal do texto original. “Foi um exercício bacana. Emocionante ler todas as frases”, conta.

O resultado você lê abaixo:

DESFRAGMENTANDO A QUARENTENA


Texto organizado por Pedro Henrique Oliveira*

Meu pai sempre dizia “nas escolas deveriam ensinar matemática, português e bom senso, o mundo seria melhor”. Esse bom senso, entretanto, parece esquecido em meio a políticas públicas desastrosas. Estamos no olho do furacão, travando uma guerra contra um vírus que parece se fortalecer quando em simbiose com o individualismo e suas imensas desigualdades sociais, fake news e ignorância. A tais posturas somam-se o desvario, a insensibilidade e a indiferença de determinados (des)governantes, a quem, polêmicas conceituais à parte, não seria impróprio qualificar de genocidas. Falta empatia.

A quarentena tem sido uma mistura entre a enorme tristeza por tão imensas perdas de vidas, de condições sociais, de acesso à saúde e de privações, e importantes aprendizados humanos e profissionais. Perdemos a dimensão do componente humano dessa tragédia em frente ao mar de gráficos e estatísticas.

Estamos diante de um mundo esquisito e somos novatos em sua sala de aula (ninguém levanta a mão pra responder às perguntas). O mundo adoeceu, se fechou, se confinou. O mundo que eu amo tanto... A verdade é que muitas vezes não consigo pensar na pandemia. Quer dizer, a verdade é que muitas vezes não consigo pensar nas notícias porque as notícias disparam o coração. Chorei vendo o jornal. Todo dia isso? Incomoda saber que alguém se foi e deixou algo mal acabado por aqui. Em quem pôr a culpa? O nosso carrasco é silencioso e invisível. O sol se mostra especialmente longo no nosso cárcere desafinado. Você assiste ao pânico, ao horror. E se é o fim do gênero humano? Isso me assustou muito, porque trouxe para bem perto a noção de finitude, da qual sempre adiei pensar sobre. A insegurança e a incerteza do que virá pela frente assustam, afligem.

A sensação de controle que se tinha, cheio de futuro, sumiu. Existiu alguma vez? Meu otimismo e minha criatividade tiraram férias de mim. Tem a solidão que chega sempr--e no fim da tarde quando olho para o sol se despedindo. Pensando bem, meu estilo de vida, por diversas razões restritivas, sempre foi muito parecido com a situação coletiva enfrentada por todo.

Como os vagabundos, personagens de Esperando Godot, sou um homem incapaz de crer, mas também incapaz de perder a esperança. Tenho procurado enfrentar minha escuridão para encontrar a luz. Eu preciso de esperança. Estou ficando triste e não gosto disso. Preciso de gente. Quero gente, gente, gente... Vai passar... Fica calmo... Nunca passa...? Danço sozinho no escuro com alguma frequência. Fico calado por horas.

Quero que nossas vidas voltem a ter a mesma cor e beleza das ilustrações criadas com tanta inspiração por Lelis e Quinho. Afinal de contas, a esperança só é ilusória quando não há potencial para melhora.

O planeta girava a mil por hora quando um não ser, megapoderoso e invisível, tomou de assalto a cabine de comando e puxou o freio de mão. Capotamos. 13 de março, veio o isolamento social e o fechamento das fronteiras. Então me vi ali fechado comigo mesmo. Com todas as viagens canceladas, separo um livro para a noite e isso me faz viajar igual. Qual você está lendo? Me sinto contagioso e contagiado. É fato que a ciência existe e é operante. Que os preconceitos são mortais, como os vírus. Que a arte e a cultura não são a cereja do bolo, mas o fermento que lhe dá forma e sabor. Diante disso, busco um livro, um disco, um filme, busco me cercar do que faz meu inconsciente desejar a vida. Ferreira Gullar mais uma vez se mostra com toda a razão: “A arte existe porque a vida não basta”.

Depois do baque inicial, me veio à cabeça como iria me adaptar e fazer do caos um exercício produtivo. Com tantas incertezas, ganhamos uma nova página em branco. Estou cozinhando todos os dias, resgatando temperos e receitas que aprendi com minha mãe. Tenho alho-poró, sálvia, manjericão, alecrim e orégano. Vou lá todas as manhãs buscar temperos frescos. Mais uma confissão: tenho tudo, tudo na minha casa. Ficar em casa me faz refletir sobre a certeza absoluta de que tudo o que virá será de dentro pra fora. Criei uma rotina diária para favorecer o hábito com leveza, prazer e disciplina. Quero sair desta quarentena mais jovem do que entrei. Por isso, a cada dia me reinvento. Criei um delivery para tempos de quarentena. E resolvi gravar e postar uma receita fácil por dia para que as pessoas, sobretudo as crianças, possam reproduzi-las.

O padrão de importância das minhas percepções anda um pouco alterado, confesso. Difícil, entretanto, administrar os sentimentos quando uma pandemia ameaça matar tanta gente. Quando a realidade começa a se dispersar lentamente, o sonho se impõe, como um raio que cai sempre no mesmo lugar. E quando acordo vejo que esta parada circunstancial continua a estampar, com cores fortes, a imagem da nossa indigência. A brevidade da nossa existência, que nos inquieta em situações como esta, também nos faz mudar individualmente. Mudou tudo. Apenas o verniz segue igual.

A verdade é que é motivo de grande honra estar vivo na Terra neste momento. Se alguém um dia reclamar que o tempo não é o bastante e disser que o dinheiro é o mais importante, peço por piedade, diga para aquele que reclama quanto vale o abraço de quem ama. Procuro não desperdiçar uma hora, um minuto, um segundo sequer daquilo que me resta. A vida antes agitada das ruas agora imerge num recesso forçado, sem data para terminar. A cidade é linda lá fora, mas estávamos distraídos demais para vivê-la.

Da janela, vejo pessoas que passam silenciosas pelo meio da rua, de máscaras, cabeça baixa. Desfrutam da caminhada, uma afirmação da liberdade em tempos de confinamento. São 150 dias de antônimos. Da apatia que vira euforia. Do domingo que parece segunda. Da distância que aproxima. Bocas tampadas ganham vozes que precisam ser ouvidas. É preciso falar. Porque tem silêncio que é omissão.

A reflexão que fica é: não existe mudança no mundo sem que mudemos a nossa forma de estar nele. Nem tudo está perdido, como alguns acham. Ainda dá tempo de mudar. A necessidade da quarentena é também uma lição de humildade diante do que não podemos controlar. Finalmente, a hora da verdade chegou. A percepção do amor eterno e incondicional pela vida está crescendo. O amor não fica em quarentena. Vamos passar por isso juntos, mostrando a força da humanidade. E vai ser com saudade, esperança, paciência e, claro, com muito amor, que a gente vai conseguir levar.


*Trechos retirados de textos escritos por Rodrigo Ferraz, Márcia Charnizon, Caio Boschi, Ana Gabriela Dias Cardoso, Patrícia Lobaccaro, Clô Wanderley, Sílvia Gomez, Débora Gomez, Davi Maurity, Flávio Renegado, João Ferreira, Luiz Felipe Leprevost, Bianca Di Giacoia, Danniel Maestri, Paulo Azevedo, Daniela Fernandes, Kika Gontijo, Dolly Piercing, Raul Starling, Anna Vitória Motta, Fafá Rennó, Eduardo Moreira, Bárbara Collen, Helvécio Carlos, Gustavo Bertonina, Marcelo Xavier, Negoativo, Gustavo Greco, Regina Bertola, Juliana Marques Caldeira, Tatiana Laucas, Paula Geo Machado, Henrique Gualtieri, Priscila Freire, Luiz Arthur, Mary Arantes, Cláudia Mourão, Agnes Farkasvolgy, João Pedro Nemer, Lelena Lucas, João Gabriel, Magdalena Rodrigues, Fernanda Mello, Liliane Prata, Sérgio Pererê, Fábio Brazza, Edmundo de Novaes, Rogério Faria Tavares, Guilherme Gimenez, Wander Melo, Sabrina Abreu, Roger Deff, Maju Rodrigues, Leo Máximo, Alex Cunha, Guilherme Oliveira e Alexandre Cioletti 








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