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Estado de Minas COLUNA HIT

Na pandemia, filha se transforma em personal trainer do pai

No 'Diário da quarentena', a escritora Ana Paula Dacota conta como são os dias de isolamento social ao lado da família


12/08/2020 04:00 - atualizado 11/08/2020 20:23

Ana Paula Dacota,
Escritora


Domingo de sol. Meu pai diz no café da manhã: “O tempo hoje está bom, vamos para o clube?”, e eu tenho que repetir pela milésima vez: “Paizinho, estamos de quarentena, o clube está fechado, está tudo fechado, vamos ter que ficar em casa”. E então ele diz: “Ah, tá bom”.

Assim é todos os dias. Um processo de esquecer e lembrar, lembrar e esquecer. Para ele, foi muito difícil compreender por que teve que parar de ir à academia – fazia parte de sua rotina –, assim como nos fins de semana não ter mais clube. Eu explico diariamente sobre a pandemia. Ele pergunta quando vai poder ir de novo ao shopping, e eu digo que não sei, que temos que esperar.

Ele quer sair a toda hora. Desistimos de detê-lo nos passeios diários pela vizinhança com o cachorro, é algo que não conseguimos restringir. Na hora em que ele está saindo, sempre preciso lembrá-lo de colocar a máscara. Às vezes ele discute comigo sobre o dia da semana e a data em que estamos, e só consigo convencê-lo de que hoje é uma quarta-feira do dia tal se lhe mostrar o jornal, que ele assina há anos e confia.

O Alzheimer está progredindo rápido, sua memória está afetada, mas o corpo de 74 anos continua forte. Ele não sabe mais usar o WhatsApp, mas usava, há um ano. A academia dele está fechada desde março, mas envia vídeos diários de treinos para o grupo de pessoas que lá se exercitam. No início de fevereiro deste ano, tinha me inscrito nessa academia, feito os exames e tudo mais, mas só fui um dia e não voltei. Sempre tive uma preguiça imensa, que tentava vencer na porrada. Era sempre assim: logo depois do início do ano, flerto com a academia, faço todos os exames, pago a primeira mensalidade, me exercito uma, duas vezes, e desisto.

O isolamento social está me fazendo me dedicar a algo que julgava dificílimo: exercitar-me diariamente. Esse milagre da motivação não veio por mim, mas por meu pai. Assisto várias vezes aos vídeos de ginástica que ele recebe, aprendo as sequências e passo para que ele faça. Ele só consegue fazer se me ver fazendo, e, mesmo durante a execução, preciso ser bem didática e corrigi-lo sempre, prestar muita atenção para que ele faça tudo certinho.

Desde março, todas as manhãs temos feito os exercícios, me tornei sua personal trainer. Só assim para conseguir entrar na linha, a motivação tinha que vir do amor. E como todo amor, ao fazer bem ao meu pai, acabo fazendo bem a mim mesma. Não sei quando as academias irão reabrir, mas quando elas retornarem à ativa voltarei a frequentá-las. Com outra disposição, pois a semente que foi plantada dentro de casa e está crescendo agora tem raízes em algo muito profundo. Me lembrarei de cada manhã com meu pai, usando pesos improvisados com sacos de açúcar de dois quilos e embalagens de cinco litros de água sanitária, para exercícios dos braços; das mochilas cheias de livros nas costas para exercitar as panturrilhas; dos sacos de feijão amarrados com cadarços fazendo as vezes de caneleiras para exercitar as pernas.

E assim esperamos por este futuro, nos esforçando na academia improvisada, com a esperança de poder um dia responder ao meu pai: “Sim, vamos!”, quando ele disser que quer ir ao clube no próximo fim de semana...

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