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Estado de Minas COLUNA HIT

Os dias entre as últimas semanas de gravidez e a chegada do bebê

No 'Diário da quarentena', a advogada e compositora Luciana Gomez conta como enfrenta a maternidade durante a pandemia


05/08/2020 04:00

Diário da quarentena

Lua cheia, mãe nova
 
Luciana Gomez,
Advogada e compositora

"Lembro-me de ter exaurido o Google para ter certeza se esse vírus não poderia mesmo ser transmitido de mãe para filha"

 “Você devia começar a trabalhar de casa.” Meu chefe me telefonou por volta da 32ª semana de gravidez, preocupado diante de todas as notícias. Ali comecei meu isolamento, ainda no mês de março. Foi ali também que “realizei” que estava tendo uma filha no ápice de uma pandemia (procurei no dicionário o que realmente significava pan-de-mia).

Passei a mão no telefone e suspendi as lembrancinhas de maternidade: minha filha não teria visitas. Depois liguei para minha mãe e questionei se seria prudente ela enfrentar dois aeroportos para estar aqui comigo.

Lembro-me de ter exaurido o Google para ter certeza se esse vírus não poderia mesmo ser transmitido de mãe para filha, verticalmente. Questionei minha obstetra sobre o que fazer, quase como quem suplica um afago nos cabelos depois de uma notícia ruim. Ajuda se dobrar a vitamina D? A resposta veio com humildade: “Sabemos tão pouco sobre ele”.

Com o passar dos dias, os protocolos ficaram mais intensos. Mediam nossa temperatura a cada vez que chegávamos ao hospital para o ultrassom. Trinta e sete graus pra cima você não entra, minha cara. Vai ter que deixar para outro dia ver o bebê, saber se ele de repente está enrolado no cordão umbilical ou ainda se o fluxo de oxigênio é suficiente.

Entre estoques de álcool em gel, máscaras e água sanitária, o grande dia chega como um sopro em dia de lua cheia. Após facílimos 10 centímetros de dilatação, eclode entre quatro paredes o berro de uma criança saudável. Havíamos driblado o vírus.

Não posso dizer que as semanas que sucederam foram como planejei. Minha filha não conhece seus padrinhos, não conhece passarinhos, cachorros de rua, grama ou o moço que vende balões coloridos na praça aqui ao lado. Seu mundo se resume ao que existe em um apartamento compacto onde eu e seu pai nos isolamos há meses e tentamos nos reinventar.

Atravesso esse tempo colecionando momentos futuros, imaginando o que quero mostrar a ela quando tudo isso passar:

– Filha, este é o bar onde seu pai e eu gostamos de tomar cerveja aos sábados. A feijoada daqui é ótima.

– No final de semana, você vai conhecer São Paulo e brincar com seus primos.

– Seu pai passou a infância aqui. Sua bisavó tinha um restaurante logo ali.

– Quando você fizer dois anos, deixo experimentar o sorvete daqui. Adoro o ritual de me sentar aqui neste banco todo domingo.

– Esta feira de orgânicos é incrível. Você vai querer gastar com isso um dia.

Por ora, a vida vai passando simples. Meu dia de mãe recém-parida vai se preenchendo entre estender no varal roupinhas do tamanho do meu antebraço, beber água para ter leite e fazer dormir. Algumas vezes ganho um sorriso escandaloso e, então, o dia parece ter sido tão cheio e eu existido tanto. Para uma mãe de primeira viagem são suficientes esse sorriso, uma taça programada de vinho entre as mamadas, roupas limpas e o aplicativo que me entrega na porta o supermercado. Ligo Sufjan Stevens, às vezes Elis, encomendo fraldas na farmácia e também um chocolate para mim. Olho para ela sorrindo e sorrio também.

Válter Hugo Mãe diz que felicidade é ser o que se pode. Pois bem: sejamos.

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