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O que fazer com milhares de metros quadrados até então usados para o trabalho?

No Diário da quarentena, o arquiteto e professor da UFMG Carlos Alberto Maciel recorre à poesia de Ana Martins Marques para refletir sobre os impactos da pandemia na arquitetura das cidades


postado em 07/07/2020 04:00



O espaço cura?

Carlos Alberto Maciel
Arquiteto e professor da UFMG


“A cura está no tempo, dizem, mas, ela pensa, por que  não no espaço?(...)”

. Ana Martins Marques, em Como se fosse a casa (uma correspondência). 

Para refletir sobre os impactos da pandemia na arquitetura, foi à poesia de Ana Martins Marques que recorri para buscar uma fagulha para a imaginação. Em tempos duros, só a poesia nos salva. Neste momento em que grande parte das pessoas encontra-se reclusa, o espaço adquire um outro significado.

A convivência intensa com nossos lugares de intimidade nos faz reconhecer a real importância da arquitetura. Permite-nos perceber que o espaço pode, sim, curar, mas também pode nos adoecer. Para além das aparências, começamos a compreender que sol, ventilação, silêncio, verde, espaços abertos, integração dos interiores e a possibilidade de transformar o espaço doméstico para atender a necessidades circunstanciais e emergentes são valores fundamentais que nem todas as nossas casas e apartamentos oferecem.

A sobreposição do trabalhar ao morar tem sido para muitas pessoas um motivo para repensar os espaços do cotidiano. Se, por um lado, isso implica algumas transformações do ambiente doméstico e uma possibilidade de ampliar o convívio familiar – não sem conflitos e contradições –, por outro, ilumina uma possibilidade de transformação radical das cidades: menos deslocamentos, mais economia, menos poluição, menos congestionamento.

Para além das questões individuais, a convivência entre o trabalho e a moradia pressupõe uma outra lógica de cidade. Era ela que gerava aquele típico sobrado que tinha o comércio no térreo e a casa do comerciante no segundo andar, que implicava uma diversidade urbana que foi apagada pela separação intencional entre a vida laboral e a vida doméstica.

A emergência do trabalho em casa em consequência da pandemia abole o último vestígio desse funcionalismo que definiu, nas nossas leis, a estrita separação entre os usos, fazendo prédios só para trabalhar e outros só para morar. A grande maioria das atividades produtivas contemporâneas que podem ser feitas por trabalho remoto não geram impacto, não poluem e não incomodam os vizinhos. Sua coexistência com o morar torna a cidade mais segura, mais diversa, mais ecológica.

A consequência dessa reconciliação será a disponibilidade de milhares de metros quadrados que eram até então usados para o trabalho. Esse estoque imobiliário, geralmente bem localizado e provido da melhor infraestrutura urbana, dificilmente voltará a recuperar a ocupação para a qual foi originalmente pensado – se tivermos em mente que, em poucos anos, a população brasileira começará a diminuir – e precisará 
ser ressignificado.

Quando nos damos conta de que uma das consequências mais profundas da pandemia será, em um curto período e com uma força avassaladora, o empobrecimento de parte da sociedade, parece ser óbvio, necessário e urgente que aquela farta disponibilidade de espaço físico que surgirá nas cidades possa ser transformada em habitação para os mais vulneráveis: perto de tudo, inclusive do trabalho, reduzindo deslocamentos, usufruindo de espaços públicos qualificados, ampliando a diversidade e a segurança da vida urbana que só a presença de moradores permanentes propicia.

Para que isso se torne realidade, inventar novas e virtuosas políticas públicas, a partir de um diálogo amplo e de uma escuta atenta às necessidades da sociedade, conciliando os diversos interesses com vistas ao bem comum, é a urgência que emerge nesse momento crítico.

“( … ) E depois isto: ensaios de morar onde melhor nos convém experimentos de ajuste do corpo à arquitetura ligeiro desconforto e desamparo infinito.” 

. Ana Martins Marques, em De novo 

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