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Lelena Lucas: 'O melhor é o distanciamento social'

No 'Diário da quarentena', escritora revela que busca se preservar, torcendo para que os entes queridos sobrevivam


postado em 28/06/2020 19:43

A tarde se vai. Daqui a pouco, 18h e a pontualidade da Ave-Maria que vai tocar na janela do vizinho. Muitos, também pontualmente, vão aplaudir. Não eu, que tenho precisado de mais para me comover.

Sigo convicta de que o melhor é o distanciamento social. Melhor para todos e bom para mim, que me reaproximo com mais força de questões pessoais. Procuro, portanto, aliar minha responsabilidade à minha intimidade.

Difícil, entretanto, administrar os sentimentos quando uma pandemia ameaça e mata tanta gente. Quando os jornais anunciam mortes, escancaram a desigualdade social e a tirania de um governo desgovernado e arrogante. Alimento a cada dia minha esperança de que esse mesmo governo, com tantos erros, se destrua. Da minha janela, meu grito “fora Bolsonaro” não recebe os aplausos da Ave Maria. Entendo e lamento, daqui do meu isolamento privilegiado.

Em meio a tudo isso, um negro norte-americano é covardemente morto por um policial branco. Detona no mundo um manifesto antirracista. Milhões de vozes tomam as ruas. Refletimos sobre os nossos negros assassinados covardemente nas favelas – de tantos, parece que a sociedade se anestesiou. Cai o menino negro do nono andar. Estava sob os cuidados da patroa branca da mãe por poucos minutos! A moça bonita, repórter da TV, nos traz essa entre outras notícias. Ainda não há remédio eficiente para a pandemia. Uma vacina parece ser possível para um futuro não tão distante. Insisto em, ainda assim, comemorar.

Termino mais um livro de poemas. Reparo seu esqueleto, os subtítulos e a estrutura que finalmente ganhou uma forma que julgo interessante. Penso então no que fazer com ele. Por enquanto, nada. Mesmo sabendo da longa e difícil batalha para torná-lo público, comemoro. Assim nós somos, muitos escritores e artistas. Capazes de comemorar um longo processo mesmo sem saber seu destino.

Meu pequeno ateliê de pintura já transborda de tanto que tenho pintado. Já nem sei o que faço com tudo isso. Resolvo fazer um site e disponibilizar meus trabalhos. Serviço de formiguinha em um país que pouco valoriza a produção artística. Mas, seguimos! E o site está lá. Mais uma vez, comemoro.

Estamos no mês do orgulho LGBT+. Como integrante do coletivo Mães pela Diversidade, mantenho adornadas de arco-íris as minhas redes sociais o ano todo. Gravo vídeo para uma live sobre o assunto. Muito caminho a trilhar na luta pelo respeito à diversidade, num país líder em assassinatos de pessoas trans. São três anos de um coletivo de mães que se uniram em defesa dos direitos de seus filhos. Também por isso, algo a se comemorar.

Sigo me preservando e torço para que sobrevivam, assim como eu, meus entes queridos.

E para que milhares de famílias tenham algum conforto diante de suas duras perdas.

Respiro e comemoro: I can breathe! Já é muito.

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