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Estado de Minas PANDEMIA

Gustavo Bertoni: 'A linha entre adaptação e acomodação é tênue'

No 'Diário da quarentena', músico descreve a transformação de sua vida nestes dias de confinamento


postado em 05/06/2020 04:00

Diário da quarentena

Energia não
se controla,
se conduz

Gustavo Bertoni
Músico

Comecei a escrever este texto às 21h18, depois de tomar um raro café noturno. Dia ensolarado, longo e produtivo. Vim esboçar um texto pra dormir despreocupado. Revisito-o amanhã de manhã com a cabeça vazia.

Tenho tentado dormir cedo, acordar relativamente cedo… Dentro do que é cedo para um músico, né? Fazer o dia render. E tem rendido muito. Curioso como minha produtividade aumentou muito durante o isolamento.

Ando muito atento à ansiedade, que de vez em quando bate na minha porta. Meu mantra tem sido: “Energia não se controla, se conduz”. Não me lembro de quem disse isso, mas gostei. Então, convido-a para entrar. Permito que se sente a meu lado e me veja trabalhar. Como criança querendo atenção ou querendo ajudar, explico que tudo tem sua hora. Como um pensamento indesejado, não adentro nem reprimo. Nuvem passageira. Tomo um gole d'água do copo que não tenho enchido até o topo. Assim, tenho com mais frequência uma boa desculpa para levantar, andar um pouco, encher o copo novamente, enquanto reparo o sol entrar pelos cobogós. Escuto os sons distantes de um clássico bloco candango da Asa Sul.

Lar temporário, voltando para onde passei minha primeira infância. Acho que me sinto menos encarcerado no privilégio dessa arquitetura modernista do que vou me sentir ao voltar ao 31º andar de um prédio modernoso em São Paulo. Vejo gente passando na rua e penso: esse aí realmente não podia ficar em casa, ou será que é só bolsonarista, mesmo? Tô brincando, não resisti. Prefiro reparar em estranhos divagando sobre suas virtudes.

Voltando... Escuto crianças, louças, carros, pássaros. Alguns sons que vazam no meu microfone enquanto gravo composições novas. Gosto da textura. Compartilho arquivos com os moleques e seguimos compondo nosso primeiro trabalho a distância.

Definitivamente, funciono melhor sob uma condição que apresente limitações e desafios. Melhora meu foco. Quanto mais atenção, mais presença. Quanto mais presença, menos tensão. Acho que me acomodo um pouco demais no decorrer “normal” das coisas. Talvez, todos nós. A linha entre adaptação e acomodação pode ser tênue. Nossa capacidade de adaptação é incrível. Inclusive, já me adaptei ao fato de me acomodar às vezes. Depois busco compensar isso com rompantes de produtividade. Estou nessa fase. E a vida parece realmente ser feita de fases. Oscilações. Saber navegar nessas ondas é a chave, dizem. Não há como controlá-las, são uma força maior que nós. Estamos todos nos deparando com exatamente isto: a falta de controle. A batuta está na mão de uma ameaça. Estamos nos adaptando, enquanto temos uma boa oportunidade de olhar para as nossas acomodações. O mais importante será transpor os novos hábitos e percepções para a vida “normal”, quando ela voltar.

O que este tempo, mesmo com todas as tensões e desafios, tem para nos ensinar? Quão sustentável é a nossa voraz e incessante ambição? Expansão, expansão, expansão. Até quando? Nossas instituições e crenças têm se mostrado finitas e falhas. Autodestrutivas. Quanto será o suficiente? Buscamos respostas e transcendência no externo porque não sabemos mais nos escutar. Por que é tão difícil para as pessoas estarem consigo mesmas? Nos acomodamos com um nível de estresse e desumanidade que já está custando muito caro. É o desequilíbrio do yin-yang em proporções macro, alarmantes.

Fomos forçados a mudar a nossa rotina e a lidar apenas com o necessário. Nossa adaptação tem escancarado nossos exageros, fruto dos vazios que preenchemos com ilusões. A esperança só é ilusória quando não há potencial para melhora. E isso sempre haverá. Esperança é agarrar as possibilidades de mudança. Isso sempre haverá. Somos, então, fatalmente esperançosos. O grande desafio é nos adaptarmos a nós mesmos.

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