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Estado de Minas DIáRIO DA QUARENTENA

Raquel Pedras: 'Ver corações é uma forma de resistir. De poemar'

Entre a poesia e a dureza do dia a dia, atriz revela, no 'Diário da quarentena', que a escrita é sua aliada para ordenar a casa, o corpo e o cérebro


postado em 27/05/2020 04:00



Isso é um poema?

Raquel Pedras
atriz

Fico querendo olhar para estes dias como um poema. Ainda que trágico, um poema.

Ainda que irreal, triste ou indecifrável, um poema. Olho para as paredes de casa.

Esta casa de um ano. Agora um ano e uma quarentena. Olho para meus filhos. Cada parte deles. Me vejo em transformação. Como um poema. Um apontamento. Apareceram teias que não conhecia nas esquinas deste espaço-casa-mundo que se estabeleceu em poucos dias. Mas seriam poucos dias se pensarmos que todos os dias do passado nos trouxeram até aqui?

Fico querendo escrever um poema. Para ser dito aqui neste diário. Que poesia linda é o diário de uma pessoa, que coreografia de letras, que mapa, que geografia única. Incomparável. Que espanto. Que descoberta.

São 60 dias já. E ainda chamamos isso de quarentena. O nome disso, o nome desse vírus, o nome dos remédios possíveis. Existem remédios possíveis?

Quem terá essa resposta?

A possibilidade da ciência. incalculável.

Penso que quero escrever um poema, ao mesmo tempo penso na boca que lerá esse poema. Possivelmente uma desconhecida, sua língua e a dança das palavras. Penso no sim dessas palavras, no ritmo dessas palavras. Penso nos meus filhos, nas aulas virtuais, nas reuniões virtuais, nas compras virtuais, nos projetos virtuais. Nos corações que teimam em aparecer para mim, e aparecem, todos os dias. E todos os dias vejo. Talvez por teimosia.

Agradeço.

Abro o telefone, não há mensagens.

Sinto saudade. Isso é um poema?

Escrevo para ordenar o que está aqui. dentro dessa casa, desse corpo, dentro desse coração, desse cérebro...

Penso nas aulas de neurofisiologia. Que poema. Chorei ao saber do processo da memória e escrevi: a vida é uma sequência interminável de sinapses. Sim, assim é a vida. Interminável até que.

Choro enquanto escrevo, já não sei mais se por tudo isso (o mundo, o Brasil, esse desgoverno) ou se por mim mesma.

Me sinto egoísta no segundo seguinte a esse pensamento. Penso em apagar. Mas não.

Tenho achado algumas pessoas lindas pelo que fazem em suas redes sociais. O humor delas, a alegria, a resistência.

Penso que ver corações é uma forma de resistir. De poemar.

Poemar: esse verbo.

Gosto de quem vê. Gosto do amor assim posto. Não gosto do amor imposto.

O “desgoverno” volta em notícias, lidas às vezes sem querer. sinto o que não gostaria. mas não tem jeito. Sinto ódio. Penso que essa é a natureza “dele”. E que a minha é o poema. E a alegria. Pelo menos era.

Ou ainda será. Não sei.

O céu de maio é lindo. Da janela da sala, é ainda mais. Mas já não é o mesmo céu. Penso que na próxima saída ao supermercado vou dar dinheiro para aquele senhor que pede no sinal da esquina da Montes Claros com Nossa Senhora do Carmo, como tenho feito sempre. Janela aberta, ouço sua lamúria e sua bênção, olhando no olho dele. Ele diz: Deus abençoe a senhora. Eu digo: fica com Deus, amém. Penso no olho dele e choro. Isso não é diferente do que era. Eu choro.

Choro. Não me conformo com esse mundo assim. e parece que o mundo resolveu não se conformar também.

Seguirei o caminho de casa, e comprarei as balas Chita do ambulante, no sinal seguinte. Se isso é um risco, aceito. Janela aberta. peito também. e de novo a bênção pra mim e pra ele. O olhar. Esse mesmo Deus.

Quase chegando em casa, refaço mentalmente: tirar a máscara, os sapatos. Abrir a porta, compras na pia. Direto pro banho. Roupas para lavar. Lavar o cabelo. Colocar uma roupa confortável.

Chego.

A casa me olha, olho de volta pra casa. e...

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