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Estado de Minas COLUNA HIT

Alexandre Cioletti: saudades de BH e do Clube da Esquina

No 'Diário da quarentena', o ator, que mora em SP, relata seu dia a dia, sente falta de Minas e diz que estamos vivendo o plágio descarado de filmes de Buñuel e Bill Murray


postado em 26/05/2020 04:00

Diário da quarentena

Entre Murray e Buñuel

Alexandre Ciolleti
ATOR

Calma, respira, vai passar...

Ouço essa frase quase todos os dias.

Ironicamente, nunca foi tão difícil respirar, no entanto... “Pra que chorar/ se o sol já vai raiar/ se o dia vai amanhecer/ pra que sofrer/ se a lua vai nascer/ é só o sol se pôr/ pra que chorar/ se existe amor”, ouço pela internet na Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte. O programa é Memória nacional.

Memória e saudade...

Sinto uma saudade absurda das minhas filhas. Três meses que não as vejo, três meses sem um mísero e simples abraço.

Sinto saudade dos meus pais, dos meus amigos, do meu trabalho.

Pois é, seu Zé, meu trabalho se foi. “Ultimamente ando matando até cachorro a grito/ e a plateia aplaudindo e pedindo bis”... É, seu Zé, não tá fácil pra ninguém e eu bem sei.

Saudade também dos botecos, dos afagos, do teatro, do Clube da Esquina, saudade dos jogos do Cruzeiro, saudade da minha terra... “Mas agora sou cowboy/ sou do ouro/ eu sou vocês/ sou do mundo/ sou Minas Gerais”.

Que saudade...

Moro em São Paulo, a cidade brasileira mais castigada pela pandemia. Minha rotina e a de minha companheira é quebrada pelo nosso filho, meu caçulinha de 11 meses, e agradecemos aos céus todos os dias por esse solzinho de felicidade iluminar eternamente as nossas vidas. Ter o privilégio de acompanhar de perto os detalhes do seu desenvolvimento não tem preço que pague e nem pandemia que estrague. Do contrário, entre os afazeres domésticos e as raras e essenciais saídas de casa, estaríamos vivendo em uma mistura daquele filme Feitiço do tempo, do Dia da Marmota, em que o personagem do Bill Murray é enfeitiçado e passa a acordar sempre no mesmo dia e a ver as coisas acontecerem sempre do mesmo jeito, com O anjo exterminador, do Buñuel, em que os convidados de uma festa misteriosamente ficam presos em uma sala de estar e de lá não conseguem sair, embora nada os impeça de fazê-lo.

Com essa loucura toda – plagiada descaradamente dos filmes de ficção –, procuro sempre me inteirar das notícias do dia pela TV ou pela internet, mesmo me arrependendo profundamente depois, confesso. É desesperador e revoltante, em meio a tanta dor e tantos mortos vítimas da pandemia, acompanhar um boçal e sua corja comandarem a nação com tamanho desprezo, desrespeito e irresponsabilidade. Que saudade daqueles tempos, daquela nossa estrela, do nosso tão querido e bom velhinho...
Mas tudo bem, deixe estar. Mário me disse: “Eles passarão... Eu passarinho!”.

Também vejo filmes, muitos deles repetidos, eu gosto; cozinho, bem mal, mas tenho me esforçado; canto, geralmente com o Rakim nos braços, as preferidas são as canções infantis do Mundo Bita; dou uma bela incrementada no meu peso, é o que tenho feito melhor; choro, afinal de contas, ninguém é de ferro e as “zicas” precisam sair por algum lugar; arrumo a casa, ou tento, pelo menos; leio, não como gostaria; lavo a louça, isso sim, faço com bastante frequência; escrevo de vez em quando, tentando colorir um pouco a rotina, como agora. E faço chamadas de vídeo, antes recurso pouquíssimo utilizado por mim, mas que agora se tornou essencial. Aliás, quem diria que essa ferramenta tantas vezes criticada por individualizar as pessoas, como a internet (e o próprio celular), seria responsável por nos aproximar?

No mais, distanciamento social, máscara, álcool em gel e Memória nacional...

Memória e saudade.

Porque vai ser com saudade, esperança, paciência, e, claro, com muito amor, que a gente vai conseguir levar.

“Mesmo com o nada feito/ com a sala escura/ com um nó no peito/ com a cara dura/ não tem mais jeito/ a gente não tem cura”

Calma, respira, vai passar...

Madrugada de sexta-feira, 15 de maio de 2020

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