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Estado de Minas DIÁRIO DA QUARENTENA

Escritor Osias Ribeiro Neves abre a sua Caixa de Sortilégios

O ator Luis Lobianco interpreta o texto de Osias no Instagram do jornal Estado de Minas (@estadodeminas)


postado em 21/05/2020 04:00



Menino, dias melhores virão

Osias Ribeiro Neves
escritor

A Caixa de Sortilégios foi presente de aniversário do amigo marceneiro, de quem me fiz aprendiz. O nome também foi ideia dele. Recordo-me perfeitamente da sua fala, naquele dia feliz: “Nesta caixa só cabem coisas boas. Assim, quando você sentir que está a se distanciar delas, basta abri-la e se reabastecer”. Durante anos, fiz da caixa o meu relicário, ajuntei fotos, frases, papéis, cartas, recortes, fitas cassete, episódios a escrever, sempre com o cuidado em guardar coisas que me causassem bem-estar.

A vida seguiu seu rumo, em doida aceleração, ligada no piloto automático, e me arrastou com ela. Nem mesmo diante das diversas intempéries enfrentadas durante pares de décadas lembrei-me de abrir a Caixa de Sortilégios. Agora, neste estranho tempo de quarentena e distanciamento social necessário, e, sobretudo, tempo de obscurantismo, canalhice, mentiras, velhacaria e falta de ética, preciso urgentemente me valer de algo bom como estratégia para me manter saudável. Pressinto ter chegado a hora de abri-la e me refazer. Vou revirando o baú e degustando cada lembrança que encontro.

Vejo a foto da tia Chica e me emociono. Lembro-me dela tocando o bandolim que meu pai me presenteou quando concluí o primário. Tia franzina, de olhos claros, esbanjando alegria, ainda que, no fundo da retina, persistissem sinais da vida de lutas, no fardo de criar os filhos quase sozinha e, ainda, ajudar minha mãe, sua irmã caçula, a cuidar de seus bacuris. Tia era costureira de mão cheia, fazia camisas, calças, vestidos, e ainda cosia mais que roupas: na delicadeza do pespontar, bordava caminhos, alinhavava sentimentos, amalgamando a alma de cada um dos meninos, seus e não seus, como eu.

Enquanto me revigoro nesse memorial de doçuras, emerge do fundo falso da caixa uma carta do amigo a mim endereçada. Escrito em 1969, o texto narra os terríveis anos da ditadura, o revezamento dos generais no poder, a tortura como política de Estado, as mortes e os desaparecimentos, a censura às artes e à imprensa. A repressão sem limites. Ao final, uma frase otimista: “Menino, dias melhores virão!”. E vieram, com muito sofrimento, 16 anos depois.

Hoje, nesses 35 anos de democracia, prisioneiro em minha própria casa há mais de um mês, corro o risco de ser atacado pelo vírus, inimigo invisível, silencioso e letal. Ainda vejo, com receio, inomináveis vermes brotarem da terra plana. Eles ateiam fogo na cultura, desconstroem a democracia e, em cada ponto dado, costuram bandeiras na violência, na ignorância e tentam nos conduzir ao caos. Pergunto, então: o que será que meu amigo diria?. Otimista que era, talvez afirmasse: “Não se desespere, menino. Assim como o vírus, os vermes também passarão. Dias melhores virão!”

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