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João ensina o pai, Gustavo Paulino, a brincar de novo

No 'Diário da quarentena', pai conta como ele e o filho, de 7 anos, transformaram o isolamento social em acampamento, corrida maluca de bolinha de gude e campeonato de botão


postado em 20/05/2020 04:00



Diário da quarentena

Velha infância

Gustavo Paulino
Pai do João

E foi assim, sem saber o que vinha pela frente, que entramos em casa, meu filho e eu. Hora boa para colocar agenda em dia, pensei. Hora boa, vou brincar muito, pensou. Já no outro dia, a escola começava suas aulas virtuais, nada muito denso para um garoto de 7 anos. Acompanhando as aulas, as tarefas diárias. Ele sabe como fazer, pensei. Sem os professores não preciso fazer, pensou. Comecei meu intensivíssimo curso de magistério, santa profissão. Pelo menos ele não fica parado da escola, pensei. Quando serão as férias?, ele pensou e perguntou.

Fim de semana chegou e fomos acampar, na sala mesmo. Barraca instalada, amigos convidados (bonequinhos e pelúcias), vídeo de pescaria na TV e lanches. Esses dias têm passado rapidamente, surpreendentemente rápidos. As ligações de vídeo com a mamãe, isolada em sua casa com suspeita de COVID, ajudam a matar a saudade, ajudam a passar o tempo. Ele descobriu a função reunião, juntando mais pessoas em uma só ligação por vídeo, agora a graça é juntar a família e mostrar seu camping.

Voltamos do acampamento. Voltamos nada, pois ali virou a cama dele, dormem surpreendentes 30 pessoas na barraca, se é que bonecos e pelúcias são considerados pessoas por nós, insensíveis adultos. As aulas e tarefas voltaram, ocupam bem a manhã e parte da tarde.

Hoje vamos ao cinema de novo, na sala mesmo. Pipoca e tudo mais. Apaga a luz, tudo escuro. Engraçado, parece que tem uma barraca dentro do cinema. A sessão foi ótima, quer ver o “2” – todo filme de criança tem síndrome de Rambo: 1, 2, 3... OK, OK, mas tem de fazer todos os exercícios direitinho amanhã.

A escola recomenda atividades físicas, manda até aula. Montamos uma academia, circuito de corrida, corre lá, sobe ali, pula acolá, passa por baixo de cadeira, volta na mesa, arremessa a bola no cesto, para o cronômetro! Quanto deu, quanto deu??? Outra volta, quer bater o recorde. Algumas voltas depois, a temida frase: “Sua vez”.

Papai, que interrompeu uma planilha de treinos para a maratona, que por sinal nem vai ter mais, coloca a língua pra fora na primeira volta, não sem entalar embaixo da fila de cadeiras. O recorde não foi batido. A meu lado, o campeão comemora.

Novos desafios virão.

Achou no YouTube uma corrida maluca de bolinha de gude. No meu tempo, eu jogava bolinha de outro jeito, pensei. Legal!!!, gritou. Resolvemos montar a nossa pista, já tínhamos meia dúzia de bolinhas por aqui, restos daqueles presentes que o pai busca na memória pra dar ao filho. Com a ajuda de garrafas PET, caixas de papel, cápsulas de café, embalagens usadas, fitas, cola, barbante e criatividade (bastante), montamos nosso “bolódromo”. Tem campeonato e tudo. A bola 4 é a melhor, deve ser o Senna das bolinhas de gude.

Já chegou o domingo de novo, dia de futebol. Ele buscou a caixa onde o pai guarda, há mais de 40 anos, 11 times de botão, aqueles de lentes pintadas com os escudos dos times. Estavam guardados pra ele mesmo... Montamos o nosso estrelão, escolhemos o time. O meu é o Cosmos, guiado talvez pelas lembranças e saudade da hoje tão distante Nova York; o dele, a surpreendente Iugoslávia, pois gostou da história do país que se dividiu e se solidarizou. Jogo tenso, placar zero a zero. Disputa de pênaltis, como gosta de uma disputa de pênaltis esse garoto. Ele ganha, adaptando cada cobrança às regras do jogo, mas ganha. Morre de rir da narração deste Galvão aqui, iugoslavo se me permitem, terminando tudo em it: futebolit, penaltit, Joãozit, campeonit.

Aí acaba a quarentena da mamãe. Lá vai ele, eu fico agora nas ligações de vídeo. Já, já ele vem passar mais uns dias aqui. Deixa ela curtir agora.

O dia ficou longo demais.

Ah, já marcamos de aprender a andar de bicicleta...




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