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Como Sísifo, estamos alheios ao entorno empurrando blocos de mármore?

A pergunta é do advogado Leo Maximo, convidado do 'Diário da quarentena', edição especial da Coluna Hit, do jornalista Helvécio Carlos


postado em 03/04/2020 04:00

Diário da quarentena

Leo Máximo
advogado

Paris, 1º de dezembro de 2019. Uma cena que me acomete com certa (e incômoda) frequência se dera novamente: eu havia acordado e levado alguns segundos para me dar conta de onde estava – em qual hotel, em qual cidade, em qual país? Aturdido por um ritmo de trabalho e viagens com aparência sedutora e sabor dúbio (por vezes doce, outras tantas amargo), lá estava eu em meio a mais uma maratona de avião-hotel-reunião-palestra-aula-avião.

Ainda na cama, após constatar minha real localização, lembrei-me de Sísifo – o do mito grego e o da obra de Albert Camus. Celebrado na mitologia como o mais astuto dos mortais, Sísifo fez irritar os deuses em função de suas incontáveis proezas. Como punição, viu-se condenado a passar a eternidade rolando uma pedra de mármore até o alto de uma montanha. Todavia, sempre que quase alcançava seu destino, a malsinada pedra lhe saía do controle, deslizava até a falda da montanha. E lá ia ele novamente, desde o advento, executor do próprio castigo, retomar a rolagem eterna e disparatada que lhe fora imposta.

O mito grego, posteriormente utilizado por Camus para explicar o quadro do absurdo de tantas vidas – um perpétuo rolar do que quer que seja, sem refletir –, fez-me ruminar sobre a condição do mundo. Seríamos todos Sísifos, em um ritmo alucinado, alheios ao entorno e à contemplação, empurrando blocos de mármore? Haveria como romper o grilhão do produzir incessante e simplesmente desacelerar? Pausar mesmo?

A resposta nos chegou há poucos meses, na forma de um mensageiro microscópico que logrou o inimaginável: reduzir drasticamente a toada da locomotiva sem freio que se tornou o que chamamos de contemporaneidade. Instados que somos a ficar em casa para achatar a curva de contaminação do inimigo invisível, foi-nos subtraída a grande pedra. Temos duas escolhas: exasperar-nos por sentir falta da moto-contínua engrenagem, ou voltarmo-nos, temporariamente, para o essencial. Para a observação de quem somos, para o cuidado conosco e com o próximo, para o preencher dos dias com novas soluções. Para, enfim, questionarmos uma série de cacoetes de vida, de modelos de sucesso, de delírios de progresso.

A economia precisa girar? Sem dúvida! A produção deve ser retomada? Certamente. Mas na hora certa, da forma como for possível, em ação conjunta de Estado e sociedade. A necessidade da quarentena é também uma lição de humildade diante do que não podemos controlar – humildade, essa virtude que os sapiens teimam tanto em ignorar. E um lembrete de que o vocábulo “crise”, em seu nascedouro grego krisis, significa, entre outras coisas, “momento decisivo”. Já, já, quando tudo voltar ao seu lugar (e sempre volta, porque a humanidade é de uma resiliência ferrenha), pelo que optaremos após este momento de decisão?

Podemos retornar a Sísifo e seguir subindo montanhas enlouquecidamente, de novo entorpecidos pela máquina do cotidiano. Ou podemos ter um novo olhar sobre a pedra, a trajetória, a tarefa, o relevo. Uma ciência de que o que apelidamos de progresso clama por uma escala mais humanizada e consciente, que vá além desse repetir eterno e desmesurado. E que tenha o humano, como já apontou Protágoras (novamente os gregos...), como a medida de todas as coisas. Minha torcida entusiasmada é pela segunda trilha.

Ao terminar este texto, lembro-me de que não entro em um avião há 23 dias, em função de nosso distópico cenário de pandemia. Um verdadeiro recorde. E a despeito da aflição pelos muitos planos adiados e negócios suspensos – além, claro, da inquietação pela saúde do planeta –, respiro num local entre sereno, consternado e esperançoso. E anseio com fé por dias melhores (que eu sei que virão).

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