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Estado de Minas

"A corrida é um conector, não um fim em si"


postado em 04/08/2019 04:00 / atualizado em 02/08/2019 14:55

(foto: rquivo pessoal)
(foto: rquivo pessoal)

Volta e meia, nas ruas dentro do perímetro da Avenida do Contorno é possível localizar um rapaz de 32 anos e 1m75 correndo solitariamente. Na costas, a mochila com água e o carregador de celular. Nas pernas, força e determinação. Na cabeça, a vontade de conhecer a cidade onde mora. Até 5 de setembro, data de seu aniversário, Rafael Marchetti espera fazer a volta em toda a Avenida do Contorno e concluir os 220 quilômetros a que se propôs. Mas os planos não param por aí. O empresário quer explorar as ruas e avenidas mais extensas da capital. “Ainda não pesquisei quais são elas. Pretendo percorrer cada uma do início ao fim, no mesmo dia. Depois, vou pesquisar as maiores ladeiras, que temos de sobra, e fazer todas elas”. Para Rafael, o que não falta é trajeto. “BH não é um ovo, é a melhor cidade onde eu poderia estar”.

As pessoas ficam curiosas quando o veem correndo. “Principalmente os moradores de rua, lá perto da Rodoviária. É algo fora da paisagem comum deles: alguém correndo, registrando tudo no celular, tirando fotos, indo e voltando nas mesmas ruas e cruzamentos”, diz. “Alguns me perguntaram se estava perdido, outros me deram dicas para evitar as ruas sem saída, mas era preciso ir e voltar ali também. Procurei conversar com pelo menos duas pessoas diariamente”.

Das histórias mais marcantes que ouviu, Rafael lembra a de Rose, que vive na rua há 13 anos. “Ela estava sentada no banco de uma praça, lendo jornal e tomando sol da manhã, de acordo com suas próprias palavras. Falou que só aceitava tirar foto se eu aparecesse também, pois de solitária já bastava a vida dela.” A jornada desse mineiro é totalmente livre, sem dia, horário e cronometragem predeterminados.

COM A PALAVRA
RAFAEL MARCHETTI, EMPRESÁRIO

Em três meses, você percorreu 185 quilômetros pelas ruas do perímetro da Avenida do Contorno. Como avalia a relação do homem com o espaço urbano nessa região?
É instigante tentar traçar essa relação na área que vai do metro quadrado mais caro de Belo Horizonte às zonas degradadas que servem como um grande e informal abrigo comunitário a céu aberto, como o Baixo Centro. Existe desconexão entre a cidade e o habitante. A maioria dos moradores de Belo Horizonte provavelmente desconhece Belo Horizonte. As pessoas simplesmente vivem a vida num automatismo perturbador, não são capazes de entender e admirar o espaço onde vivem. Não sabem como a cidade foi planejada, a quantidade de córregos e ribeirões que a cruzam, desconhecem a arte urbana ao nosso redor, cujo potencial transformador é enorme. Isso só é possível quando você vai para fora do seu carro e da sua casa. Quando você caminha, corre, anda, conversa com as pessoas e, acima de tudo, observa. Para entender essa relação, temos que observar. E observar com os próprios olhos.

De onde veio a inspiração para o projeto?
Tudo começou numa viagem com amigos para Itatiaia, distrito de Ouro Branco, em novembro de 2018. O Bernardo Biagioni recomendou o livro Nascido para correr e me falou sobre um atleta americano, chamado Rickey Gates, que corriaas ruas de San Francisco, na Califórnia. Li durante uma viagem de réveillon e comecei a acompanhar o Rickey nas redes sociais. Foi uma combinação explosiva. Todos os dias, eu acordava querendo correr, mesmo do meu quarto até a cozinha. Escrevi para o Rickey, perguntando se ele tinha interesse em fazer esse projeto em BH. Espantosamente, ele me respondeu quase instantaneamente que adoraria, pois havia estado no Brasil, mas nunca em BH. No momento, ele não tinha planos de vir para cá. Pensei: por que não faço isso sozinho? Cerca de quatro meses depois daquele réveillon, iniciei o projeto. A razão disso é a vontade de ressignificar, repensar e questionar. A corrida é um conector, não um fim em si. Ela é simplesmente um modo de entender a dinâmica da vida urbana, das interações pessoais, comerciais. A cidade é uma grande colmeia. E estamos nela.

Qual é a parte mais difícil de descobrir a cidade com as próprias pernas?
Quando comecei a correr todas as ruas e avenidas dentro da Contorno, o mais difícil foi convencer as pessoas com quem me encontrava de que realmente estava fazendo aquilo. Praticamente ninguém acreditava. Achavam a ideia estranha. As reações e expressões faciais eram as mais diversas. As perguntas, as mesmas: 'Por que não uma praça, um parque ou as serras que nos cercam?', 'por que todas as ruas?'. A segunda dificuldade foi observar e ter a minha própria opinião e percepção de tudo, sem intervenção de ninguém. É difícil assimilar tudo o que vivencio. Por isso, criei o hábito de escrever sobre cada corrida.

O que foi mais legal nessa jornada?
Sem dúvida, observar dinâmicas sociais, arte urbana, trânsito, pessoas, vida. Experimentar a nossa cidade correndo por todas as ruas do projeto planejado por Aarão Reis é entrar em contato com uma experiência multissensorial: cheiros intensos, cores exuberantes, chão imprevisível e instável, sons dos mais variados tipos de pessoas, pássaros, carros, músicas. A multiplicidade de afetos. Sempre sou tomado pela mistura de curiosidade e ansiedade quando saio de casa para percorrer algum trecho. Nunca sei o que esperar. Um projeto igual a esse tem uma infinidade de possibilidades. Isso é muito legal.

Conte uma situação engraçada que você viveu.
Provavelmente, a mais engraçada foi o dia em que resolvi tentar entrar no Palácio da Liberdade à noite. Fui correr na Savassi e o mapa indicava que havia uma rua lá dentro do palácio, na parte de trás. Se tem uma rua, tenho que percorrê-la.! O nome dela é Rua Professor Francisco Brant. Cheguei e expliquei para os guardas que precisava entrar pra completar um projeto de vida. Mostrei a eles todo o meu planejamento, todas as ruas onde já havia corrido e tudo mais. Não houve jeito. Mandaram dar meia volta e ir embora, pois ali era uma zona militar com acesso proibido a civis, principalmente à noite. Insisti, pedi para me acompanharem, falei que não faria nenhuma filmagem ou foto. Só precisava que ficasse registrado no GPS. Mas não houve jeito. Essa rua vai ficar como uma lembrança.

Depois de tantos quilômetros, quais foram as melhores descobertas que não estão nos guias de turismo? 
Elas não estão fora, mas dentro de nós mesmos. A cada dia, tive a oportunidade de pensar sobre mim mesmo a partir do que observava fora de mim. Entrando no contexto desta pergunta, a verdade é que o Bairro de Lourdes pode ser lindo e organizado, mas peca por não ter tanta graça. O Centro pode ser perigoso, mas é intenso, cheio de arte urbana e vida. A nossa percepção parte daquilo que observamos e assimilamos. O que não está nos guias, mas está na boca de todo mundo, é que BH é um ovo. As pessoas que consideram BH um ovo são as mesmas que nunca se propuseram a fazer nada de diferente.

Por que você corre sozinho?
Para poder estar 100% presente na experiência. Cheguei a correr com três amigos, mas a sensação e a dinâmica não são as mesmas. Não levo música, não escuto nada. Estou totalmente focado em fazer o que quero, poder parar quando quero pra registrar o que julgar interessante. Gosto da sensação de correr sozinho pelas ruas de BH. Nesse desafio, a parte mental é exaustiva, mas estimulante. Não dá nunca pra desligar. Tenho de estar sempre atento.

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