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Estado de Minas

"Um ato de coragem e de paixão"


postado em 28/07/2019 04:00

Marjorie Quast é pura emoção ao fazer um balanço dos 35 anos do Grupo Camaleão. “São os momentos de conexão com o público e a emoção de cada cena que alimentam a alma e fazem a gente continuar acreditando que tudo vale a pena!. Vale a pena ser artista e sempre poder abrir espaços para falar, comunicar, sensibilizar e conectar através da arte”, afirma, garantindo que são 35 anos de dedicação à dança, “de acordo com o que o Brasil apresenta de possibilidades, sempre sendo Camaleão, se adequando e se transformando”.

Dos momentos marcantes do grupo, Marjorie cita a estreia do primeiro espetáculo, Terra, com direção de Betina Bellomo e coreografia de Fred Romero. “Foi o início das nossas experimentações na linguagem do moderno”. Cita Diadorim, de Jairo Sette, Encontro no Espaço, de Luis Arrieta, que foi muito significativo por colocar Betina Bellomo em cena como bailarina.

Apesar da alegria em falar da história do grupo, que nasceu no Núcleo Artístico, Marjorie lamenta o desmanche de espaços, companhias, grupos, patrocínios, apoios a festivais. “Enfim, são tempos sombrios”, critica, lembrando que é preciso muita atenção, jogo de cintura, flexibilidade, parcerias para conseguir sobreviver e circular.

Para driblar os perrengues, a bailarina destaca a importante parceria e apoio do Instituto Unimed-BH, que, há cinco anos, patrocina uma parte da manutenção do grupo, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. “Além disso, estamos atentas aos editais de cultura, festivais e eventos que possibilitem a complementação de nossa sobrevivência e circulação do repertório da companhia.” Sobre o futuro para a cultura no país, ela é otimista. “Como uma pessoa perseverante, penso que tudo melhorará e que juntos conseguiremos preservar a nossa cultura, que é a nossa mais forte identidade!”

COM A PALAVRA
MARJORIE QUAST, BAILARINA

Quando o Camaleão foi criado, você acreditava que chegaria a 2019 na ativa?
Não imaginava, pelas dificuldades de manter um grupo ativo ao longo desses anos. A nossa escola Núcleo Artístico já existia desde 1978. Em 1984, o Camaleão foi montado, pela paixão de dançar, pelas nossas inquietações artísticas e dos grandes artistas/bailarinos que surgiram a cada momento na formação da escola. Foi um ato de coragem e de paixão.

Verga, o mais recente espetáculo, foi apresentado na programação da Virada Cultural. Como foi a relação com a plateia? 
Inesquecível!! Mágico! Foi um privilégio dançar num símbolo de BH, como a Praça 7, e com um acolhimento tão forte do público. Foi um evento maravilhoso, bem organizado, com excelente apoio da equipe de produção, que movimentou toda a cidade. As pessoas foram se aproximando e se organizaram em grande círculo de forma que acolheu a obra como se já soubessem do que ela precisava! E foi uma conexão incrível! Este não é nosso primeiro trabalho pensado para a rua. Tivemos a direção de Chico Pelúcio e Lydia del Picchia na obra Horas possíveis, que rodou o Brasil e ganhou muitos prêmios. Para o Camaleão é importante se apresentar também em espaços públicos, mas sempre com muito cuidado e respeito.

Por opção, o Camaleão não tem um coreógrafo residente. Qual a importância dos que passaram pela companhia na construção da identidade do grupo? 
O Camaleão é aberto a novas linguagens e pesquisas. Cada um desses coreógrafos influenciou e deixou sua contribuição. Cada pesquisa somou ao que hoje é o Camaleão. Um dos últimos coreógrafos convidados, Omar Carrum, continua muito presente em nossas pesquisas de movimento, através da técnica Continuum. Nossa diretora artística, Inês Amaral, faz parte da rede de professores da técnica. Anualmente, esses artistas se encontram no México para reciclagem e atualização desta técnica assinada pelo Omar. Neste ano o encontro será em outubro.  Outra parceria e troca que já existe há alguns anos e continua é do Camaleão com o coreógrafo Jorge Garcia. Através desta amizade foi possível criar as obras Tá passando... e Retina, também bastante premiadas. Sentimos que ainda temos muito o que fazer juntos. Por isso o coreógrafo, desde novembro de 2018, tem vindo a BH e experimentado com o Camaleão alguns caminhos para mais uma obra que completará a trilogia. Trata-se de uma expedição pelo Rio das Velhas, aprovada pelo Fundo Estadual de Cultura, com estreia prevista para 2020. Deste projeto pretendemos criar um espetáculo e um vídeo dança.

Das montagens apresentadas ao longo de 35 anos, quais são suas preferidas? 
Gosto de todos os espetáculos que já fizemos. Cada época nos traz suas devidas inquietações e perguntas. Mas atualmente estou apaixonada por nosso novo espetáculo, Verga! É uma montagem feita para a rua e tem direção coreográfica e artística de Inês Amaral, com criação coletiva do grupo. Verga propõe uma discussão sobre uma forma criativa de resistência. E como linguagem traz também a capoeira como um signo forte de discussão dessas ideias. Telas foi um espetáculo que fortaleceu ainda mais os laços artísticos com Oswaldo Montenegro. Essa parceria vem desde 1982, quando fizemos Dança dos signos e ainda éramos um grupo experimental. Neste ano estamos novamente juntos! Iniciamos a pesquisa de Mayã. Esse novo trabalho ainda “não sabemos onde, quando e nem como será apresentado!” Palavras do próprio Oswaldo! Estamos amando estar juntos de novo nesta viagem, pesquisa, e sonho. TraZhumante, assinado pelos artistas Omar Carrum e Vladimir Rodriguez, também me encanta. A obra, além da maravilhosa linguagem que esses dois artistas trazem, foi inspirada em situações e realidades de pessoas que muitas vezes se encontram à margem da sociedade, como os refugiados, moradores de rua...

Como você vê o mercado de dança em Minas Gerais? 
Ele é muito rico! Existe uma diversidade de excelentes artistas em muitas e diferentes modalidades. Neste momento, está havendo uma linda união de artistas independentes, grupos, diretores, coreógrafos, estudantes em prol da dança. Algumas conquistas têm avançado, como a volta da Terça da Dança, no Teatro Marília. O Fórum Permanente da Dança e a Associação Cultural Dança Minas fazem um trabalho permanente e consistente para conquistas de políticas públicas para a dança. Temos representantes da dança no Conselho Municipal, nosso querido Tuca Pinheiro, e, no Conselho Estadual de Cultura e na Lei de Fomento do Município, nossa querida Regina Amaral.

O Camaleão também trabalha com comunidades carentes... 
Esse trabalho sempre foi um sonho para nós! Realizávamos alguns trabalhos pontuais, mas nada com grande alcance e continuidade. A partir de 2007, com a parceria do Instituto Unimed-BH, demos início à Escola de Artes Instituto Unimed-BH no Morro das Pedras, que hoje atende por volta de 200 crianças, adolescentes e jovens adultos. Esse trabalho sempre nos interessou muito, pois acreditamos nas artes como ferramentas poderosas de formação de cidadania e transformação de vidas.

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