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Estado de Minas

Helvécio carlos


postado em 21/07/2019 04:00


“Acredito na arte universal, sem barreiras”

João Pedro Nemer, de 29 anos, é de família de artistas. A mãe, Lea Nemer, trabalha com arteterapia, é sobrinha de Amílcar de Castro e irmã de José Alberto Nemer. Com eles, João aprendeu a valorizar a arte e a cultura. “Sinto-me privilegiado por ter frequentado museus, exposições e concertos, desde a infância. Acredito que essa influência familiar, a atmosfera artística, tenha sido crucial para que encontrasse o meu caminho nas artes plásticas”, conta.

Formado pela Escola de Belas-Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), João Pedro apresenta sua primeira individual, Linhas de transposição, em cartaz até 4 de agosto, na Galeria de Arte BDMG Cultural. 

Uma das características de João Pedro é cultivar processos e expandi-los ao longo do tempo. “Desde 2009, venho trabalhando com as unidades básicas dessa exposição. Logicamente, o trabalho foi se transformando de acordo com seu desenvolvimento”, diz.

Depois de se formar em 2017, ele passou a se inscrever em editais e a desenvolver ideias para uma exposição. “Contei com o apoio substancial da curadora Daniela Maura, que me ajudou a conceber o projeto. Ao longo de todo esse tempo, usei experimentações técnicas e muito diálogo para encontrar os argumentos conceituais que queria colocar no meu trabalho”, explica.

Para Nemer, a escuta é muito importante neste momento – escuta aberta a tudo e todos. “Encontrei na rua uma fala através dos materiais que coleto. E encontrei no mar a inspiração para produzir”, revela.

COM A PALAVRA
JOÃO PEDRO NEMER
ARTISTA PLÁSTICO

Você se formou há pouco mais de um ano e já apresenta a primeira individual. Como é a rotina de um jovem  artista em busca do seu lugar ao sol?
Penso que a experiência e a vivência de cada artista são únicas, o que faz com que a rotina de cada um seja muito pessoal. Falando do meu dia a dia desde que me formei, especialmente depois de ser selecionado para a primeira exposição individual, tive intensa rotina de trabalho, pois meu processo é muito trabalhoso e exige tempo. De toda forma, a busca de um jovem artista costuma ser de instabilidade e certa insegurança, já que não contamos com a cultura de valorização das artes em nosso país. Entretanto, quando acreditamos no que estamos fazendo, encontramos forças para seguir criando.

Você é otimista em relação ao futuro das artes plásticas no Brasil? Essa arte é popular ou coisa de elite?
Dizer que estou otimista não seria verdade. Estou preocupado com o rumo que as coisas estão tomando no país, principalmente no que diz respeito à cultura. Entretanto, a arte é muito maior e mais forte do que esse discurso de desvalorização cultural. Acredito também que momentos difíceis acabam por gerar o efeito contrário, que resulta em forte produção artística, quase como uma resposta. Sobre a arte ser coisa de elite, penso que ainda existe, sim, esse tipo de visão e realidade. Entretanto, a arte popular está também muito presente no mundo de hoje. Vejo nela um caminho para vários avanços sociais que acredito serem muito importantes para o país. Por meio dela conseguimos avançar com a educação, além de criar conteúdo e senso crítico e estético. Mas, de toda forma, acredito na arte universal, sem barreiras.

Quais são os desafios para quem está começando a carreira em artes plásticas? Como enfrentá-los?
Um dos maiores desafios é encontrar o próprio caminho. Como não existem regras nem receitas para seguir, esse artista acaba descobrindo e construindo sua história à medida que o trabalho vai evoluindo. Outro desafio é tomar, sozinho, todas as decisões. Na maioria das vezes, claro, podemos contar com o apoio de amigos, colegas, familiares e professores. Entretanto, a decisão final sempre será do artista.

Quais são seus planos para o futuro?
Bom, quero continuar com minha pesquisa e produção em artes plásticas. Realizar outras exposições abordando séries que nunca foram mostradas, além de continuar desenvolvendo os caminhos abertos dentro da série que apresento em Linhas de transposição. Pretendo continuar minha carreira acadêmica, fazer mestrado e doutorado em artes para, no futuro, poder lecionar no ensino superior. Desejo também expandir meu conhecimento e experiência no campo da arte-educação, no qual já atuo.

Quem são seus artistas preferidos? Por quê? 
Vou começar a resposta pelo final da pergunta. Meus artistas preferidos mudam muito, estão sempre se alternando de acordo com o meu processo de produção, meus pensamentos e até mesmo humor. Eles variam de acordo tanto com a série em que estou trabalhando quanto com o momento que estou passando. Atualmente muito envolvido com a exposição, vou listar alguns nomes que apresentam um pensamento gráfico para a imagem, ou uma forma de organizar o trabalho que dialoga com a minha. E também autores que trabalham com a ressignificação do objeto, reutilizando materiais cotidianos. São eles: Guto Lacaz, brasileiro; Adam Pesapane (PES), americano; Sol LeWitt, americano; Peter Fischli e David Weiss, duo suíço.

Como você define o seu trabalho?
A espinha dorsal do meu processo de desenvolvimento artístico acontece de maneira contínua. Trabalho a partir de séries que estão em processo dinâmico. As mesmas questões que me impulsionaram a dar início a tais séries ainda me impulsionam a dar continuidade a elas. Para mim, é de extrema importância experienciar a ação do tempo sobre as questões abordadas, atentando aos caminhos e mudanças despertados. Busco desdobramentos dentro de cada série com o intuito de esgotar assuntos que, na realidade, acredito serem inesgotáveis. Nessa busca, caminho por diferentes técnicas e contextos, e as séries acabam por se cruzar diversas vezes. Não é à toa que entre todas elas haja unidade, o que ajuda a definir meu processo de criação. Credito isso ao princípio do meu pensamento gráfico, disposto a somar pequenas partes que vão resultar em um todo que se fortalece. Meu trabalho envolve também a escuta e o olhar para o mundo em busca de materiais e recursos. Penso que podemos encontrar beleza nas coisas mais banais.

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