Publicidade

Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Carta da torcida cruzeirense aos jogadores

Não precisam jogar por nós ou pelo Cruzeiro, façam somente por suas próprias honras


postado em 27/11/2019 04:00 / atualizado em 26/11/2019 22:13

A torcida celeste não abandonou o time, apesar da campanha pífia nesse Brasileiro(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
A torcida celeste não abandonou o time, apesar da campanha pífia nesse Brasileiro (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


Time celeste,

o esporte dá a oportunidade de sermos heróis ou vilões. Odiados ou idolatrados. Lembrados ou esquecidos. Mas essa carta não é só sobre futebol. Trata-se de uma prosa sobre a vida. Sobre vivê-la com honra. Dignidade perante filhos, pais, colegas de trabalho e até gente como nós, os “torcedores”. Aquela gente misturada, longe, nas arquibancadas, num borrão de azul e branco. Os rostos anônimos por detrás da fita que nos separam do campo de treino; segurando sinalizadores na passagem do ônibus e ajudando crianças a lhes pedirem uma selfie no hall do hotel.

Escrevemos para fazer um pedido simples e direto: não manchem a história de uma instituição na qual, por seus próprios méritos, vocês se tornaram ídolos de nove milhões de crianças, jovens, pais, mães e avós. Foram campeões e construíram uma sinergia conosco em noites de gols e classificações heroicas. Não desaprendemos, não é?

Mas o que houve? Deixamos de querer? Nós da Nação Azul não, e vocês?

Por falar em aprender, é bom lembrar: o Cruzeiro não se tornou o único gigante de Minas Gerais por acaso. Foi por jogadores que lutaram até o fim, mesmo quando tudo parecia impossível.

A Libertadores de 1976 com o gol espírita de Joãozinho; a Taça Brasil de 1966 sobre o Santos de Pelé; a Supercopa de 1991 com o impensável 3 a 0 e a Copa do Brasil de 2000 com gol cantado por Muller, feito por Geovani e festejado por Sorín. Até o questionado Alex de 2001 retornando para ser ídolo eterno em 2003. O time de 2011 escapando do vexame da Série B com o 6 a 1 no Atlético de Lourdes, inspirando muitos de vocês a fazerem o seis com os dedos das mãos.

Os seus próprios colegas aí da concentração, ao levantarem o bi de 2013/2014. Olhem só... Vocês mesmos em 2017/2018, calando a boca da mídia sedenta por lhes tratarem como menores perante Flamengo e Corinthians!!!

Mas se toda essa grandeza do Cruzeiro não interessar, façam por suas próprias reputações. Pelos outros funcionários do clube, que também com os salários atrasados, continuam trabalhando, sofrendo e confiando em vocês.

Façam pelo “bom dia” do porteiro Euler. Pela admiração incondicional que a faxineira Salomé, o jardineiro Sorriso e o eletricista Tiãozinho sentem por vocês. Pela disposição da Vânia e do Zé ao lhes servirem as refeições feitas pelo Wilber todos os dias. Pelo cuidado dos seguranças Michael e Hugão com seus familiares. A atenção do Ozildo dirigindo para vocês. Pela correria do Geraldinho e do Boi para dobrarem suas roupas ou do Bruno Faleiro para evitar desgastes com a imprensa.

Não manchem a história do Abel Braga, que teve uma dor imensa ao perder um filho e, mesmo assim, foi para a beirada do campo lutar.

Não é por nós que viemos pedir nessa reta final, mas, sim, por aquilo em que vocês acreditam. Pela esposa grávida; o joelho operado; as tardes de incertezas na fisioterapia; os filhos que lhes assistem vestir a camisa do Cruzeiro; a superação pelo fim do casamento; para não ser desacreditado e pela volta do sorriso sem constrangimento. Que seja até mesmo para se valorizar e ajudar o seu empresário na busca por outro clube em 2020.

Não manchem seus nomes e as nossas cores. Se não for por histórias como a de Geraldo II, que nos anos de 1940 foi ao mesmo tempo o nosso goleiro e o pedreiro que construiu o nosso estádio, façam pelo esforço de seus pais e mães, que como pedreiros, motoristas, empregadas domésticas, cozinheiras, letradas ou lavradores lutaram muito para dar a vocês a chance de jogarem futebol.

Por esses todos, não marquem as suas carreiras como aqueles que levaram o Cruzeiro a um lugar que não pertence à sua grandeza. Pedimos que lutem. Faremos a nossa parte apoiando.

Mesmo que jogar por nós não lhes interesse mais, que ao menos seja por vocês mesmos.



Publicidade