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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Dia do Cruzeiro vingar o gol do Amarildo

Trinta e dois anos depois de ser desclassificado no Mineirão pelo Internacional na semifinal da Copa União, Raposa tem a chance de devolver na mesma moeda


postado em 04/09/2019 04:00 / atualizado em 03/09/2019 22:19

Torcedores celestes foram à Toca II levar apoio aos jogadores na saída do ônibus da delegação para o aeroporto de Confins(foto: AGC/Drone2)
Torcedores celestes foram à Toca II levar apoio aos jogadores na saída do ônibus da delegação para o aeroporto de Confins (foto: AGC/Drone2)


Por um cruzamento vindo da direita, a bola subiu muito. Parecia pronta para morrer sem perigo nas mãos do gigante Gomes, o “goleiro do Fantástico”, que tocava o travessão com os pés. Mas não foi bem esse o seu destino. Enquanto olhávamos para a esfera voando no céu escuro da Pampulha, surgiu – em voo – um magrelo de cabelos cacheados, camisa branca, com o 9 às costas e o escudo do Internacional no peito. A cabeceada do centroavante Amarildo fez a bola quicar no gramado antes de balançar as redes. Transformou 60.000 de nós, presentes naquela quinta-feira, 3 de dezembro de 1987, num uníssono silêncio inexplicável. Na prorrogação da segunda partida das semifinais da Copa União, dentro de seus próprios domínios, favorito absoluto, vindo do Beira-Rio com um bom resultado, o Cruzeiro estava eliminado.

Um dia antes do desastre daquela prorrogação, na mesma Toca da Raposa 3, o Atlético de Lourdes havia caído diante do Flamengo. Acabamos por assistir à decisão daquela copa entre o time da Rede Globo e o Inter. Uma final das zebras, mas que calou uma Minas Gerais insolente, fosse pela Turma do Sapatênis ou pela nação azul.

O desastre duplo não deve ter doído tanto no time de Lourdes, acostumado a ser cavalo paraguaio e, ao mesmo tempo, saco de pancadas dos urubuzinhos. Já para nós, cruzeirenses, chegar ao fim daquela semana desclassificado foi como cair dos céus em queda livre.

A noite do Mineirão sufocada por um gol de cabeça na prorrogação se manteve no lado triste de nossas memórias por muito tempo. Afinal, o ano de 1987 era de redenção. Surgia ali uma “geração de prata”, formada às duras penas para nos fazer esquecer da penosa primeira metade daquela década, marcada pelos péssimos resultados em campo e pela quebradeira financeira do clube.

Assim como agora em 2019, começamos a temporada maravilhados. Tínhamos um bom escrete, comandado por um dos maiores camisas 10 de nossa história: o endiabrado Careca. Foi dele o gol que abriu o caminho para o Cruzeiro sagrar-se campeão mineiro, em agosto. Numa década sofrida, comemorar a conquista da Country Cup ainda era algo a se contabilizar.

Veio a Copa União, e assim como o elenco montado para a atual temporada, nos imaginávamos chegando ao final do ano escrevendo uma nova página heroica. Fechamos o primeiro turno em terceiro e abrimos o returno mostrando o quanto éramos superiores ao Internacional: 3 a 0, com show de Cláudio Adão, que ainda perderia a chance de aplicar uma sonora goleada nos gaúchos ao desperdiçar um pênalti. Nós e o Atlético de Lourdes chegamos como favoritos às fases de mata-mata. Foi quando voltamos a encarar o jovem time colorado exatamente naquela fatídica semifinal.

Tudo isso para dizer que temos duas opções de como encarar, nesta quarta-feira, a Batalha do Beira-Rio: com o temor de não termos forças para sair dos maus resultados e da quebradeira financeira e moral ou como sendo um sonho azul se transformando em redenção. Na saída da delegação para Porto Alegre, milhares de torcedores, capitaneados pelos brutos da Associação Grandes Cruzeirenses (AGC) e das organizadas, mostraram o caminho escolhido pela torcida: iluminaram com luz e fogo a certeza do quanto somos gigantes.

Fizeram o céu descer à terra, e numa nuvem de amor, fundiram o azul ao branco, como uma bruma de estrelas a flutuar o ônibus. A rua de fogo embalou a nossa esperança até Porto Alegre.

Sair classificado da noite de hoje será se redimir com a história recente do Cruzeiro e com aquela Copa União. Uma reviravolta épica, nos devolvendo o sonho apaixonado e irracional de sermos torcedores do Maior de Minas.

Enquanto a imprensa do Rio Grande do Sul se deleita na soberba de cantar nossa desclassificação de forma antecipada, chamando a noite por “Copa dos Gaúchos”, nós aguardaremos o momento de dizer: na segunda partida das semifinais da Copa do Brasil, dentro de seus próprios domínios, favorito absoluto, vindo do Mineirão com um bom resultado, o Internacional está eliminado.
 
Chegou o dia de pagarem por aquele gol do Amarildo.


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