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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Que o Galo cante com toda sua força após a longa noite escura

A classificação na terça e a possível final da Libertadores contra o Flamengo será meu mais esperado duelo, um acerto de contas


25/09/2021 04:00 - atualizado 24/09/2021 23:31

Sob o comando de Cuca, o Atlético vem num equilíbrio como em poucas temporadas: ataque eficiente e defesa segura
Sob o comando de Cuca, o Atlético vem num equilíbrio como em poucas temporadas: ataque eficiente e defesa segura (foto: PEDRO SOUZA/ATLÉTICO)


Por mais que se tente disfarçar, encontramo-nos todos absortos pelos pensamentos de Atlético. É algo que nos assalta sem anúncio prévio, e quando percebemos já bateram nossa carteira. Então, mergulhamos num looping de glórias e fracassos do passado, gols do Hulk, celebrações etílicas sem fim na sede de Lourdes e no Salomão, viagens ao Paraguai e ao Marrocos, a gente saindo pela janela do busão quando atingia a altura da rua do Peixe, a rua do Peixe lotada de cabo a rabo, o Inferno Alvinegro, o punho cerrado do Rei, a maneira como podíamos carregar oito chopes apenas com nossas patas de caranguejo, o tropeiro, o bolinho de feijão, a Dragões da FAO e sua faixa misteriosa, “a filosofia máxima de um povo”.

Eu tinha 13 anos e subia a Rua Ramalhete com o meu primo, que entedia tudo de táticas de futebol. Eu não entendia nada e sigo sem entender. Bastava uma vitória simples contra o Coritiba. Ele, então, me disse algo de que sempre me recordo ao ouvir o verbo “vaticinar”, essa previsão contundente e assertiva a respeito do porvir. Ninguém vaticinara antes com tamanha calma e convicção. Ninguém vaticinara como o Claudinho: “O Galo vai ganhar”. Escalávamos o morro da Ramalhete, dois meninos, e tínhamos a certeza de que atingiríamos o cume.

A bola entrou, mas o juiz não viu. Havia coisas que só ocorriam com a gente. Nunca mais acreditei em vaticínio algum. Tão mais contundente e assertivo, menos o vaticinar me falava à alma. No compasso de desilusão, tantas vezes dançamos. Quatro anos antes, aos 9, fui punido pela mãe com o terceiro cartão amarelo. E retirado, então, do jogo contra o Flamengo pela Libertadores de 81. Fui pro chuveiro mais cedo e, depois, cama. As luzes escapavam da velha TV Sanyo que ficava no quarto dos meus pais e faziam sombras no meu teto. Muquiei, sob o travesseiro, um rádio de pilha. Por entre as plumas, me dei conta da injustiça dos homens e da inexistência de Deus. Fodeu, eu tinha só 9 anos. Chorei em silêncio, fingindo que dormia. Acordei adulto.

Por causa daquela noite eu fiquei revoltado, por ter ficado revoltado eu virei punk, por ter sido punk fiz jornalismo, por ter feito jornalismo, me mudei pra São Paulo, por mudar pra São Paulo construí toda uma vida, família, filho, casa, cachorro. O que quero dizer é: aquela foi a noite inaugural, a vernissage – aquele menino com a cabeça no travesseiro ia mudar tudo pra sempre.

No ano anterior, final do Brasileiro, saímos pra comprar uma bandeira. Aquilo era particularmente importante, porque meu pai não gostava de futebol – eu tinha sido acometido pela doença em razão da falta de distanciamento social para com os tios por parte de mãe. Meu pai me levou às Lojas Bacana, e de lá saímos com a bandeira na janela. Coitado do Neil Armstrong fincando a bandeira na Lua, perto da gente subindo a Afonso Pena com o nosso pavilhão – posso sentir, mesmo 40 anos depois, o meu peito estufado como um chester na véspera do Natal.

Bem, perdemos. Aos 8 anos, foi a primeira vez que presenciei um assalto. Achei estranho que se pudesse fazê-lo na frente de todo mundo, por cima dos panos e nas barbas do general (o Figueiredo estava lá, claro que torcendo pro Flamengo). Em todo caso, ainda havia Deus – e guardei para essa instância superior o dia em que se faria justiça.

Se o Galo se classificar na terça-feira e o Flamengo na quarta, a vida terá sido todos os pormenores que transcorreram entre o menino com a cabeça no travesseiro e o velho adulto que foi ao Uruguai assistir à final. Estudamos, namoramos, casamos, fizemos filhos, separamos, ouvimos música, fizemos tatuagens, corremos de carro, trabalhamos, ganhamos dinheiro, fomos despedidos, fizemos dívidas, criamos cachorros, lemos livros, vimos filmes, ganhamos amigos, perdemos pessoas, renunciamos a grandes amores – estávamos apenas fazendo hora, aguardando na antessala o dia da revanche.

Somos 8 milhões de meninos com a cabeça no travesseiro, chorando em silêncio as nossas injustiças e os nossos azares – esse corvo pousado no nosso umbral. Depois da noite escura, oxalá estejamos todos preparados pra quando o Galo cantar.



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