DA ARQUIBANCADA

Fred Melo Paiva: Vai em paz, amigo atleticano

"Como um cético que acredita nas coisas transcendentais apenas quando envolve o Atlético, gosto de pensar agora que cantamos e choramos em sua homenagem"

Fred Melo Paiva
- Foto: Reprodução/Instagram

Desconheço um time de futebol cuja torcida seja capaz de chorar a derrota e ao mesmo tempo encher-se do orgulho mais improvável. Quando o Galo caiu para a Série B do Campeonato Brasileiro, naquele empate com o Vasco no Mineirão, 60 mil vozes cantaram o hino no final do jogo, entre lágrimas e essa coisa que, inexplicável, vou chamar de “orgulho”. 

Na quarta-feira ocorreu de novo. Este escrevinhador estava lá. Eu e meu filho. O Francisco chorava e cantava, e seu choro, antes triste, transfigurou-se numa torrente da mais desbragada emoção. De repente, não era mais o choro da derrota (ou daquele que ganhou mas não levou). Era a sorte de ter nascido atleticano, e tudo que isso contém, para além do futebol.

O Francisco tem apenas 11 anos, mas já entende o inexplicável. Sabe que certas derrotas não são exatamente derrotas.
São como os fracassos do Darcy Ribeiro, mineiro de Montes Claros, Galo ainda que não tenha sabido disso: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.

Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

O Atlético é, antes de tudo, um time de honra. Sua verdade e sua mística estão centradas na luta. “Lutar, lutar, lutar, este é o nosso ideal.” Dos tantos versos da nossa Marselhesa, esse é o que melhor nos resume. Por isso nos são tão caras as vitórias épicas, a superação inimaginável, as grandes viradas. No dia seguinte ao jogo contra o Tijuana, milagre primeiro de São Victor, eu chorei vendo a imagem captada pelo craque Gabriel Castro, fotógrafo, nas arquibancadas do Independência.

Nela, um pai abraçava o filho, ambos transtornados pelo que acabaram de ver. Mas eu chorei mesmo foi com a legenda da foto: “Um pai ensinando seu filho a acreditar sempre, a desistir jamais”. Aquilo era maior do que a própria classificação.

É por essas que temos tanta dificuldade em lidar com o Patric.
O que se faz com um jogador até certo ponto limitado, mediano, mas de tal forma aguerrido e disposto à volta por cima, que acabou por se tornar um atleticano de fato? Como lidar com um cara que diante de todas as vaias, e sabemos o tamanho delas, nunca deixou de honrar a camisa que veste? Como lidar com esse pai que viu um filho ter as pernas amputadas em razão de uma doença rara e ainda assim manteve-se na luta?

Nada é mais Atlético do que o golaço do Patric na quarta-feira. Está contido no seu petardo toda a raiva do mundo, todo o sonho de justiça, toda a nossa atleticanidade. Embora o gol tivesse saído tarde, nunca é tarde para o impossível que volta e meia nos acomete, o prêmio pela nossa mania de acreditar sempre, desistir jamais.

O jeito que o Patric corre para comemorar seu gol, um pique desvairado, é nóis tresloucados, é nóis em nossa mais sincera galoucura. O Patric, meus amigos, é o próprio Galo. Ruim mas bom, feio mas bonito, roto mas reto. É como disse o Reginaldo Rossi, “você não presta, mas eu te amo”. O Patric é a gente quebrando nosso cartão do Galo na Veia e colando com durex no dia seguinte. O Patricão da Massa.

Quando o jogo acabou, eu vi o time abraçado em campo, o hino na arquibancada. Em outra parte do gramado, o Cruzeiro celebrava o vexame que acabara de evitar.
Dançavam uma dancinha estranha, uma salsa marota, não sei, um passinho, sem clubismo, um tanto ridículo. Antes, o cruzeirense que foi ao Horto cantou Beth Carvalho e “Eu Acredito”.

Sim, houve isso, senhores. Em outros tempos também cantavam nossas músicas, com a intenção de uma certa ironia que não resiste ao fato de que lhes falta aquilo que nos sobra, aquilo que não se explica. Jogaram milho nas ruas. Acham que isso nos ofende, que piada. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu. Nunca serão.

Enquanto o Francisco cantava o hino, não tínhamos ciência, ainda, que um atleticano de 34 anos havia infartado ali mesmo no nosso setor. Luciano Palhares morreu a caminho do hospital. Estava no estádio com seu filho de 5 anos.

Vi uma foto dos dois. Como um cético que acredita nas coisas transcendentais apenas quando envolve o Atlético, gosto de pensar agora que cantamos e choramos em sua homenagem. Vai em paz, amigo atleticano, cuidaremos do seu menino.

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