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Estado de Minas

A vida mudou depois daquele curso de cervejeiro por correspondência


postado em 26/07/2019 04:00

As primeiras palavras davam a impressão de que haviam o abandonado num congresso de física quântica com um chinês,um cazaque e um grego

Topógrafo, webdesigner, advogado, dentista, oceanógrafo, biólogo, professor de educação física. Faltava mesmo era bússola àquele quase ex-menino que não se decidia sobre o que fazer na vida. Foi assim, meio ao sabor do vento, que o papel literalmente lhe grudou ao pescoço na travessia da Avenida Afonso Pena, bem no Centrão.

Fez o gesto automático de se livrar do que parecia ser mais uma peça de propaganda. E o braço se esticando para buscar a lixeira, vislumbrou em letras garrafais: "Aprenda a fazer cerveja por correspondência". Como assim? Parou, para que pudesse conferir se era mesmo aquilo.
Pensou em dar de ombros, dispensar o panfleto, mas se lembrou de vó Diana repetindo feito fosse um mantra: "Tudo na vida tem um propósito, até aquilo que às vezes soa sem sentido. E se uma borboleta cruza seu caminho, sinaliza tempo de transformação". Borboleta? Era figura de retórica, a professora havia explicado no ano passado...

Era exatamente aquela sensação de asas delicadas tomando todo o vazio o que se dava ali. Estranho, é verdade. Mas o tal sentimento atravessava a alma e, entronizado, esbarrava na convicção de que, sabe-se lá por que, estava diante de um divisor de águas.

A razão daquela certeza? Tinha como responder não. Só percebia que era quase palpável, como raro lhe ocorrera ao se deparar com a necessidade de decidir. Daí, releu o folheto: "Aprenda a fazer cerveja por correspondência". E ele não tinha a mais vaga noção de como aprenderia – ou se aprenderia. Mais difícil ainda se num curso a distância.

E o que ele tinha, afinal, a ver com cerveja artesanal? Nada. Mal bebia. Mas vó Diana, ah, vó Diana.... Dobrou uma esquina com o papel às mãos, procurou uma agência dos correios, pagou a taxa descrita na propaganda e ficou dia a dia conferindo a caixa de cartas. Abraçou a apostila como quem revê um velho amor.

Mas as primeiras palavras davam a impressão de que haviam o abandonado num congresso de física quântica com um chinês, um cazaque e um grego. Que papo era aquele de quebra da cadeia de aminoácidos, isomerização de lúpulo? Ah, não, 18 páginas e tinha transitado da euforia juvenil à estupefação. Daria mais dois capítulos pra não desistir de vez.

E beirava a decepção, quando as dúvidas foram virando espuma. Aí se reanimou por inteiro. Num tempo em que e-mail já caía em desuso, escreveu quatro cartas num só mês. E recebeu respostas também manuscritas. Mais que isso, em letras caprichosamente desenhadas. Mesmo sem assinatura, tinha certeza: eram de mulher.

E restava um perfume leve. Embebedou-se daquilo, meio que se apaixonando por um símbolo de papel. Resolveu arriscar. Na correspondência seguinte, mandou um beijo. Na outra, uma foto. E, surpresa, voltaram uma pétala de rosa, uma flor de lúpulo ressecada e a imagem dela, o rosto em metade, o restante encoberto por uma garrafa e um copo rico em cerveja. Ao fim, o leve toque de provocação: "Aprecie com moderação".

Qual nada. Aquilo era mote só pras comerciais. As artesanais, aprendera desde o primeiro gole, eram pra ser apreciadas com intensa e devotada paixão. Vó Diana se orgulharia dele.

Esta coluna é publicada quinzenalmente
eduardomurta.mg@diariosassociados.com.br


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