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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Amálgama dos sobreviventes

Choremos/Pela nossa incompetência, indolência/ Estamos todos doentes/%u2019


postado em 02/02/2020 04:00 / atualizado em 29/01/2020 20:31




Eu e Maria Cristina Bahia Vidigal somos velhas amigas, dessas históricas, eternas. Nos formamos em 1974, na antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), na Rua Carongola, nos tempos da ditadura. No mesmo ano, entramos juntas para o jornal Estado de Minas. Fizemos matérias incríveis, sob a égide da censura, mas com as bênçãos do mestre Roberto Drummond, que nos adotou por gostar demais dos nossos textos. Cristina não ficou muito tempo.

 Virou empresária, uma das criadoras da bem-sucedida empresa de comunicação Ideia. Casou-se, teve três filhos, duas mulheres e um homem. Vendeu sua parte na empresa em 2012 e hoje se dedica aos dois netos da filha Flávia. 

Cristina divide o tempo dela entre a morada em BH, a casa em Tiradentes, os filhos, netos e amigos. Nunca nos separamos, mesmo a distância. Cristina me enviou o texto abaixo – de sua autoria – sobre Brumadinho, que compartilho com os leitores.

Choremos/Sobre a lama derramada/Lágrimas inundarão os vales/Cobrirão as montanhas/Os rios/Trarão à tona os corpos destroçados

Choremos/Com as mães e os pais dilacerados/Com os enamorados que olham os retratos/Amores assassinados

Minas/De feridas expostas a ferro e a fogo/Sangue coagulado, suor explorado/Morte no fim da linha/No almoço requentado

Choremos/Sobre a lama derramada/Lágrimas afogarão os criminosos/Os lenientes, os descuidados/Os desgraçados/O minério vale tudo/Vale a destruição implacável, vale morte

Choremos/Sobre a lama derramada/Abutres/Cortejem os nossos mortos/Os peixes e as árvores submersas/A lenta agonia dos rios/Onde se lavam minério e promessas
Lágrimas hão de rasgar a lama derramada/O mar vermelho/E banharemos os corpos, os peixes, os bois e as vacas/Com a febre dos que têm a alma atordoada

Choremos/Sobre a lama derramada/Minas/Entranhas corrompidas pela ânsia/De comprometer a vida/Estás para sempre condenada?/A ajoelhar-te no altar dos poderosos?

A oferecer sacrifícios enferrujados/Vermelhos de sangue e impurezas?/Quantos metros cúbicos de lágrimas/Exigirás dos sobreviventes?

(Um filme em negativo/Que jamais será revelado/Marcelle atendia um colega resfriado?/Agostinho comia batata, frango e feijão?/Denilson teve tempo de pensar no filho?/Cyntia fez o sinal da cruz?/Lúcio corrigia a planilha?/Jenner operava a carga do vagão?/Warley ouviu o barulho?/Simone gritou o nome da mãe?/)
Choremos/Sobre a lama derramada/Ódio-sal-sílica-dor/O amálgama dos sobreviventes/Se desmanchará no tempo/Se diluirá entre laudos, discursos/Novas promessas, somente

(Invejo os crédulos/Aqueles que clamam pelo Juízo Final/Que desnudará lobos e cordeiros/E contemplará com a lama do inferno/Os carrascos e os impuros)
Choremos/Pela nossa incompetência, indolência/Estamos todos doentes/Somos amantes diurnos 
da violência/Deitamos na cama 
com a impunidade/Até quando seremos/Sobreviventes 
do Apocalipse?

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