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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Um outro Natal

Como esquecer a mesa de Natal na casa da mãe, com filhos e netos ao redor, se hoje não há mais família nem comemorações?%u2019


postado em 22/12/2019 04:00


 
De volta para casa dentro de um ônibus lotado, calor e trânsito lento e congestionado, ela pensa no mês de dezembro: ruas, avenidas, bairros, lojas e shoppings com um mar de gente e de carros. Nos pontos de ônibus, no Centro da cidade, as pessoas esperam em vão pelo transporte. Há um formigar de gente, policiais a vasculhar tudo – e ela quer descer do ônibus antes de chegar ao destino.
 
Veio à mente dela o poema Retalhos poéticos, da psicóloga e escritora Andréa Beheregaray, do Rio Grande do Sul, que fala sobre os sentimentos provocados pelo mês de dezembro, que são parecidos com os dessa que lhes escreve. O poema diz assim: “Todas as pendências agitam-se em dezembro. Todas as angústias, culpas, contas, amores mal resolvidos, conflitos de família, desejos de mudança. Todas as promessas que não foram cumpridas acordam ruidosas e ressentidas. Tudo aquilo que se deixou para trás por incapacidade, negligência ou medo perturbam o sono, não lhe deixando escapar. Todos os seus sonhos e desejos, os mais simples e os mais radicais, vêm sacudir seus sonhos e atormentar seu sorriso...
 
Planos, metas e programações atravessam a rua, trocam de calçada, espiam debochados da esquina a fantasia infantil de querer controlar o tempo e apreender a própria vida. Em dezembro, as decisões pautadas pela sua razão rigorosa estão secas e mortas, sedentas da coragem que você não teve, das emoções insensatas que você calou. Em dezembro, quando as contas do correio chegam duplicadas, você estende os olhos sobre os meses e conta nos dedos os dias em que foi feliz.
Em dezembro então você nota que o sentido escorreu pelo ralo, que se a conta por sorte está cheia seu coração parece bater vazio. Dezembro é um mês que não pode ser quitado a prazo, que todos correm como se o fim do ano fosse o fim do mundo.
 
Dezembro agita as saudades, acorda os conflitos, acende a luz das nossas verdades escondidas. Dezembro é um mês que não nos deixa escapar, não nos deixa enganar sobre a vida e o fato de que não temos tempo, que a hora é agora e que a felicidade não pode ser vivida no ano que vem. Felicidade não faz rima com o amanhã.
 
Felicidade não pode ser adiada. Ano que vem é hoje. E você? Fez o ano valer a pena ou dezembro lhe dói?"
 
Para responder à Andréa Beheregaray que dezembro dói muito. Nem as luzes acesas nas praças e dentro das casas nem as árvores de Natal mais requintadas acendem dentro dela a vontade de comemorar. Sem contar nas perdas que já teve e vivenciou, dezembro tem alguma coisa que incomoda. Além de ser o último mês do ano, há uma urgência que mais combina com demência de ser bom, generoso, de fazer o bem ao outro que ficou esquecido nos 11 meses anteriores. Há uma “bondade” chata, esse refrão de fazer o bem, de se vestir de Papai Noel e sair distribuindo quinquilharias que ninguém pediu.
 
Ela viu, em uma galeria perto da casa dela, um pai insistindo com o filho de 3 anos que tirasse uma foto no colo do Papai Noel, que estava sentado em um trono vermelho, acompanhado de renas, árvores de Natal e neve em flocos falsos. O menino não queria. Chorava e chorava. Não conhecia aquele velho gordo, vestido de vermelho com uma barba branca postiça enorme.
 
A criança nem sabia o que era neve, debaixo de um calor de quase 40 graus. Talvez, se o Papai Noel estivesse de bermuda, camisa florida, óculos escuros e um guarda-chuva para as tempestades de dezembro, a criança reconheceria alguém do seu mundo. Talvez, se Papai Noel estivesse ao lado de um bando de cachorros e gatos abandonados, se estivesse no meio da mata infértil pelas queimadas, se estivesse olhando para o céu cheio de estrelas, se colocasse no colo uma criança que nunca terá a chance de ir num shopping, os meninos aprendessem a lição do Natal.
 
Para dizer também que ela nunca viu criança nenhuma feliz no colo de um Papai Noel do Ártico. As crianças gelam de pavor. Ainda mais com o barulho infernal dos shoppings, iluminados artificialmente graças à tecnologia contemporânea. Lugar de louco, de consumismo exacerbado, caro e desproporcional. Você já viu uma bolsa custar R$ 3 mil? Pois os shoppings da Região Sul estão lotados de presentes assim. Ela tem  calafrios por causa do ar refrigerado e do jorro de neve que cai de tempos em tempos.
 
Ela sai correndo de lá, mas os pensamentos vão juntos. Os fantasmas do Natal a acompanham pelos caminhos de dezembro. Como esquecer que, hoje, ela e o filho estão sós? Que a mãe dela partiu às vésperas do Natal, deixando-a com um gosto amargo de panetone na boca – a iguaria que a mãe dela mais amava nesta época? Como esquecer a mesa de Natal na casa da mãe, com filhos e netos ao redor, se hoje não há mais família nem comemorações? Cada um comemora por sua conta. Ela e o filho também, mas para terminar dizendo que ainda há uma senha, um passaporte para comemorar o Natal em paz: o nascimento do Menino Jesus, o aniversariante do mês.

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