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Encantem-me, por favor!

Encante-me outra vez com o entusiasmo que amanhece junto, que não tem necessidade de subterfúgios nem de fluoxetinas


postado em 27/10/2019 04:00 / atualizado em 24/10/2019 20:20


 
 
Encante-me outra vez com um desses sorrisos largos, mas carregados de simbolismo. Um desses sorrisos que desarmam o interlocutor, que varrem o medo, a insegurança, a tristeza. Um desses sorrisos tão abertos que espantam até as dores, as perdas. Um sorriso que cura as cicatrizes profundas.

Encante-me outra vez com o entusiasmo que amanhece junto, que não tem necessidade de subterfúgios nem de fluoxetinas, nem de energéticos, nem de antidepressivos, nem de álcool, cigarros e drogas.
 
Encante-me, Greta Thunberg, com o seu jeito adolescente de dar voz a adultos, sempre emudecidos diante dessa tragédia planetária. De mostrar as garras do tempo, que não há outro planeta Terra para os refugiados da destruição. Encante-me, Greta, com sua voz de trovão que a humanidade é obrigada a ouvir, mesmo sem querer. Encante-me, Greta, garota de um país nórdico, glacial, que ocupa os palanques do mundo, enquanto os adultos sonolentos continuam a acreditar em um plano B para o planeta. Encante-me com esse jeito de ver o mundo com olhos iluminados, mas que também podem mudar de cor com a fúria de uma jovem. Com olhos tom de amanhecer e que enxergam bem longe, por trás das montanhas, dos mares, dos rios, das planícies, rochas e cachoeiras, do pequeno córrego, do remanso, das grutas, geleiras e da mediocridade dos adultos.
 
Encantem-me, Flávio Cançado e Vitória, com a amizade que vale mais do que todo dinheiro do mundo. Encante-me com a nobreza de um médico, que está sempre pronto para atender e conversar. Encantem-me, Flávio e Vitória, com a harmonia de um casal que comunga, apesar da passagem do tempo.
 
Voltem todos a me encantar com as visitas surpresas. Não dá mais para ficar programando, esperando o dia certo para visitar um ao outro. Vá sem avisar, leve uma garrafa de vinho ou vá de mãos vazias, mas vá, antes que não dê tempo de ir a lugar nenhum.
 
Encante-me com as cavalgadas em noite de lua cheia, com a viagem de trem pela estrada das minhas lembranças. Encante-me com o apito do trem que serpenteia pelas montanhas azuis de Minas.
 
Encante-me com essa sensação de florescer, que há muito estava escondida sob a poeira e o mofo. Encante-me com esse amor universal, que não tem ciúme de nada nem de ninguém, que não é propriedade minha nem sua. Encante-me com o voo livre e sem amarras, com essas asas que não temem as intempéries nem os oceanos nem o insondável. Encante-me com essa magia que anda sumida do mundo, com essa vontade de acordar todo dia.
 
Encante-me com a gentileza de Magui, que conversa com as árvores, que vive no alto de uma montanha, longe dos refletores, num exílio permanente, repleto de mimos, sutilezas, poesia, tecendo a vida como as aranhas, fazendo o milagre do pão e se indignando com a banalidade da vida.

Encante-me, Ana Cecília Carvalho, com os três volumes da trilogia da inquietude – Os mesmos e os outros: o livro dos ex, O foco das coisas e outras histórias e A memória do perigo –, livros que me encantam quantas vezes forem lidos e grifados de cima a baixo para nunca esquecer esse abismo que põe em perigo o ser humano com suas neuroses, fantasmas, mágoas, vaidades, frustrações e inseguranças.
 
Os livros me levam para um mundo encantado – e peço a Carla Madeira que me proporcione a beleza literária de Tudo é rio e A natureza da mordida.
 
Encante-me Márcia Spyer, lá na Serra do Cipó, que todo ano convida para a cerimônia do Jardim do Kal, que chega com a primavera para lembrar o filho de 38 anos que partiu em 22 maio de 2010, duas semanas depois do Dia das Mães. Um jeito que essa mãe encontrou de manter viva a memória do filho, que teve um infarto fulminante na moto que dirigia para levar uma tevê ao conserto. O ritual se repete desde 2011. De lá pra cá, ela jamais deixou a chama do fogão a lenha se apagar. Pois Márcia sabe que, quando uma mãe perde um filho, não tem um dia na vida que não se lembre dele. Seja por uma música, um cheiro, por um jeito de falar, pelo sorriso que ela vê em outro. São muitas as manifestações que remetem ao filho.
 
Teve um momento fundamental que pôs Márcia em outro plano depois da partida de Kal. De sentir que a energia dele continua presente o tempo todo. E que essa energia aquece, fortalece e a põe de pé para dar o próximo passo. O ritual tem essa intenção: de manter a memória viva, de reunir família, amigos e vizinhos para ver como está o jardim que ele deixou, cada dia mais lindo e bem cuidado.  Encante-me, Márcia Spyer, com esse jeito suave de falar da dor de uma mãe.
 
Peço emprestado também a Ana Jácomo um trecho do texto que Magui me enviou para encantar todos. “Que nada me tire o olhar que vê miudeza. Repara na folha caindo. Nota desenho de nuvem. Sorri pra céu azulzinho. Flagra borboleta abraçando flor. Que nada me tire os olhos demorados em olhos amados. Isso que me faz perceber mudança de Lua. Procurar estrelas na noite. Ter vontade de molhar a vida no mar. Sentir prazer com os pés descalçados na areia. Experimentar gratidão por tanto. Por tudo. Que nada me tire a lembrança de que joaninha existe. O ouvido bom pra encontrar passari- nho. A mão que sente textura de árvore. A reverência pelo canto do vento. A espera pelo pôr do sol. O cheiro de terra molhada que anuncia chuva. Que nada me tire a alegria pela canção bonita. O encanto pela delicadeza. A tristeza pelo que machuca. O interesse por gente. O coração tocado pela amizade do animal. Os olhos marejados pela história de amor. Que nada me tire a sensibilidade. A admiração. A surpresa. A capacidade de sentimento. Os olhos macios. Eu não suportaria esta passagem pelo mundo com apatia.” Encantem-me, por favor!

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