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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

O silêncio dos homens

O silêncio masculino provoca efeitos colaterais, que vão desde ansiedade, depressão e insônia, até problemas sérios, como vício em pornografia, comida, apostas, álcool e drogas


postado em 04/08/2019 04:00






Não é guerra. Nem briga de sexo. Muito menos balbúrdia ou palavras vãs, idiotizadas como as que a gente vem tomando na cara ultimamente. É um jeito afetivo, construtivo e saudável de romper essa epidemia social de filhos sem pai, de romper o “silêncio dos homens” – aliás, esse é o título do documentário que será lançado ainda no fim deste mês. Patrocinado pela Natura Homem e Reserva, o documentário se baseia em pesquisa feita em parceria entre o site PapodeHomem (PdH) e Zooma Inc., com apoio institucional da ONU Mulher.

A cada 10 homens, diz a ONU, sete lidam com um tipo de distúrbio emocional em algum nível. Para Guilherme Valadares, coordenador da pesquisa, o hábito de ignorar os sentimentos e o estado da saúde mental como um todo faz com que o sexo masculino se comporte como uma bomba a ponto de explodir. A construção da masculinidade passa pelo debate aberto e sincero sobre o assunto. O Instituto PdH – braço de pesquisa do site PapodeHomem – e a Monstro Filmes lançam o documentário O Silêncio dos homens. Foram ouvidas mais de 40 mil pessoas em todo o Brasil e o diagnóstico: a discussão do que é ser homem ainda engatinha. O silêncio masculino provoca efeitos colaterais, que vão desde ansiedade, depressão e insônia, até problemas sérios, como vício em pornografia, comida, apostas, álcool e drogas.

O silêncio dos homens é mortal entre as mulheres envolvidas afetivamente com eles. Segundo dados colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015, o Brasil ganhou mais de 1 milhão de famílias compostas por mãe solo, em um período de 10 anos. O silêncio dos homens levou 4,7 milhões de mulheres a praticarem aborto, que ainda é considerado ilegal no Brasil e corre o risco de perder direitos adquiridos por lei, que permite apenas em três condições.

O documentário será muito útil para discutir essa questão urgente de uma masculinidade possível e menos tóxica. A ideia do documentário O Silêncio dos homens é servir de gatilho para que eles quebrem o silêncio e iniciem o processo de libertação do machismo. De uma vez por todas. Nem vou falar agora sobre outra estatística horripilante deste país, com a quinta maior taxa de feminicídio no mundo. Merece um texto à parte.

Com a proximidade do Dia dos Pais, é bom citar um texto de Fabrício Carpinejar sobre o silêncio dos homens e o abandono paterno, que diz assim: “Pai troca de personalidade, de residência, de amor, o que precisar, no sentido de prevenir a sobrecarga de problemas. Para namorar, ele some por meses (exatamente o contrário da mãe, que administra o fim de semana com o apoio da babá e da avó). Homem ainda não conseguiu conciliar sua vida profissional com a afetiva. Não é capaz de unir nem a vida afetiva pregressa com a atual. Cuida de um afeto por vez. Pai não forma sindicato, não cria associação. Continua defendendo que ninguém tem o direito de se meter na vida dele e converte em inimigos os amigos que insinuam sua indisposição filial. Ele apaga a casa anterior – com o que havia dentro dela – e se apega à casa recente. Entende que sua criança ou adolescente cresceu o suficiente para não depender mais dele. Nenhum filho cresce o suficiente para ser órfão de repente, não importa a idade. Homem tem que aprender a sofrer em público, sofrer por um filho o que sofre por uma dor de cotovelo, apanhar das cólicas e da coriza, desabar numa mesa de bar, beber interurbanos, fechar a rua e o sobrenome para encurtar distâncias, chorar nas apresentações escolares, fingir abandono a cada despedida, para só assim mostrar que pai, pai mesmo, nunca será dispensável.

É do tipo ou tudo ou nada, ligado à figura masculina patriarcal, que oferece e tira conforme suas vantagens. Não é bem um pai, mas um latifundiário emocional, desconfiado, sob permanente ameaça de invasão de “suas terras”.

Ela é mãe solo, então, pediu ajuda à escritora e psicanalista Ana Cecília Carvalho para entender de vez o que ocorre quando surge um exército de filhos sem pai. Ela veio socorrer essa mãe exausta. “É um desastre na vida de um filho quando o pai achou que podia se demitir da função de pai. Alguns pais são realmente uma decepção nesse quesito. Uns são excessivos, outros são nulidades. Digo isso porque é importante mostrar que ninguém pode realmente se demitir da função de pai. Sendo uma função, ela pode ser bem ou mal exercida, mas não vazia de alguém que a ocupe. A qualidade do exercício dessa função é o que importa aqui. No caso de um pai que abandona o filho – e o abandono tem várias formas, desde a mudança do pai para um paradeiro desconhecido, até a ausência típica de um pai alcoólatra ou drogado, que está presente fisicamente, mas ausente no cumprimento das responsabilidades –, não se trata de uma orfandade real, pois o pai não morreu e continua vivinho da silva. O luto pela ausência do pai é, nesses casos, muito mais difícil de se elaborar porque, por alguma razão que somente esse pai poderia explicar, ele se ausenta e descumpre a parte que caberia a ele exercer na criação do filho.”

Conhecedora do rombo que a ausência do pai provoca na vida de um filho, Ana Cecília diz: “A mãe é que terá de cumprir essa tarefa, que se junta às tantas outras que são específicas de uma mãe na criação do filho. Entre essas tarefas, a mãe terá de ajudar o filho a interpretar a ausência do pai, ajudá-lo a construir um sentido para essa ausência. Mas ela também precisa encontrar um modo de se haver com os sentimentos gerados dentro de si pelo abandono sofrido. Entre outros aspectos da realidade que ela precisa enfrentar, terá de abrir mão da fantasia de que tudo poderia ter sido diferente, se o homem com o qual ela gerou um filho não tivesse ido embora ou se ele não fosse o traste moral que se evidenciou depois que se tornou pai”.

Finalmente, mas não menos importante, “ela precisa se perdoar e abrir mão de outra fantasia: a de que deveria suprir o vazio emocional do filho. No fundo, ela se culpa pela deserção do pai e acha que tem de pagar por isso, acorrentando-se para sempre ao pé do filho emocionalmente órfão e infantilizado”.

Quanto ao filho, “ele terá de encontrar um modo de lidar com esse pai demissionário ou decepcionante. Ele terá de descobrir a qualidade do material de que é feita essa ausência. Ela é feita de inconsistência? De mau-caratismo? De incompetência? De egoísmo? De ódio? Vingança? Inveja? Irresponsabilidade? Ou todos esses agravados, porque se dirigem também à mulher que esse homem um dia engravidou e largou? Do quê, afinal, é feita essa ausência? Diante do que o filho conseguir interpretar, do sentido que ele puder construir para ajudá-lo a conviver com o pai que um dia acreditou poder ser demissionário, existem vários destinos, o melhor deles sendo quando o filho finalmente conseguir aceitar a realidade de ter tido esse pai, e não um outro tipo de pai.”

Nem sempre essa aceitação ocorre. “O uso das drogas é, infelizmente, uma defesa comum para lidar com essa realidade difícil de nomear. A eficiência dessa defesa reside justamente no fato de que o uso das drogas mimetiza a ausência do pai, ao mesmo tempo em que a apaga. O uso das drogas mostra uma espécie de identificação com o pai: o filho drogado revela, ao se drogar, uma nostalgia pelo pai, ao mesmo tempo em que realiza o desejo de se vingar dele (e também da mãe, que o filho em geral põe a culpa), tornando-se ele próprio uma ausência, um nada de pessoa. O uso das drogas como que apaga todas as exigências duras da realidade, tornando possível ao filho tolerar o intolerável contido na realidade dessa ausência.”

Há outra coisa que o filho precisa fazer, “para sair do tempo parado da infância: ele tem de se reconciliar com a mãe. Ele precisa perdoá-la dentro de si, para interromper a demanda infantil que o aprisiona na imaturidade e na nostalgia”. 

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