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Estado de Minas CORAÇÃO DE MÃE

Curriculum mortis

"Já virei tudo de pernas para o ar, soprei o mofo do fundo da alma, espanei sentimentos, varri a mediocridade para debaixo do tapete"


postado em 07/07/2019 14:00 / atualizado em 07/07/2019 14:20

(foto: Ilustração/EM/Quinho)
(foto: Ilustração/EM/Quinho)
Outro dia, pediram-me que eu enviasse meu currículo. Lembrei-me imediatamente do escritor Rubem Alves, que já no entardecer da vida escreveu: “Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança”. O que a memória amou fica eterno, disse a poeta Adélia Prado. Mas há um outro tipo de memória que não foi eternizado pelo amor. Essas memórias não moram na alma. Moram nos arquivos da razão. São informações verdadeiras e inertes. Inertes são as memórias que a razão sabe, mas o corpo não ama.

É o caso daquilo que normalmente se chama de curriculum vitae. Um curriculum vitae é uma lista de informações inertes. Importantes do ponto de vista institucional, frequentemente exigidas, como comprovação de competência. Mas sua lembrança não me comove. Assim, acho que não merecem ser chamadas de curriculum vitae. A vida não é uma lista de informações. Prefiro chamar essa lista de curriculum mortis – nada mórbido, apenas cômico. Meu curriculum vitae verdadeiro você encontrará nas minhas conversas, crônicas, pensamentos, cartas, concertos de poesia. Mas para atender à curiosidade de alguns e às exigências de outros, vai um minicurrículo. O completo é muito comprido.

Pensei que o meu começaria assim. Já fiz coisas do arco-da-velha, até ficar horas olhando o arco-íris depois da chuva, para ver se encontrava o duende com um pote de ouro. Já torrei ao Sol de muitas praias, até descascar toda e bronzear de novo e ficar tão morena que parecia outra pessoa. Nem pensar em filtro solar naquela época. Era moda o bronzeador Rayito de Sol, vindo lá da Argentina – ou passar óleo de coco, de urucum e não sei mais quantas besteiras para ficar com a pele torrada.

Já deitei e rolei nas festas de Salvador, andei atrás do trio elétrico, troquei a noite pelo dia centenas de vezes, escrevendo poemas e conversando. Já me apaixonei várias vezes, mas fiquei também tempos sozinha, sem nem querer saber de companhia. Até hoje tomo banho de cachoeira, como se fosse um passe espiritual. Já joguei moedas na Fontana di Trevi, em Roma, para voltar um dia. Já me perdi do grupo em Madri, até ser guiada pela Lua que mora dentro de mim.

Já andei pelas madrugadas sem fim de Belo Horizonte, frequentei bares até as portas se fecharem, andei em turma. Caí mil vezes ao subir em muros, por causa de uma miopia acentuada que meus pais só foram descobrir quando eu estava na escola.

Desci e subi montanhas para acampar em lugares selvagens, mas também desbravei campings organizados. Viajei por terras distantes, sem sair do lugar, principalmente por meio dos livros de Dostóievski, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Mário Vargas Lhosa, Clarice Lispector.

Não sei falar inglês nem alemão nem japonês nem mandarim, apesar do mundo globalizado. Gosto de ouvir francês, espanhol e italiano, pela sonoridade das palavras, que me levam em direção aos antepassados. Não tenho bens materiais, pois nunca dei importância a eles, mas tenho amigos que são meus avalistas. Acho que hoje tenho mais créditos do que débitos com eles. Acreditam em mim, mesmo nas piores horas em que uma mulher inteligente percebe que não se planejou para o tempo que está vivendo agora. Tenho amigos perfeitos que posso ligar para confessar coisas minhas. Tenho amigos históricos que me admiram mesmo a distância. E outros que perdoam as minhas inumeráveis faltas, ausências, defeitos, meus esquecimentos. São tolerantes comigo.

Tenho amigos que estou sempre em falta, que prometo e não cumpro. Tenho textos que já foram lidos no picadeiro do circo Orlando Orfei e que, hoje, estão inscritos no epitáfio da mulher de Federico, em Roma. Às vezes, morro de pena de mim, depois de escrever textos que detonam a minha dor. Já chutei mesas com copos e pratos em cima da mesa, lembra-se Rogério? Só não chutei o balde com medo de machucar o pé. Já fechei mil ciclos e abri outros que não se fecham nunca. Sou dependente de afeto e de pessoas do bem, que trocam conversas proveitosas. Sou viciada em leitura, mas hoje digo: só leio o que me interessa. Chega um tempo em que a gente escolhe até os textos para ler. Mas sempre encontro pessoas que me indicam livros com a profundidade necessária para os meus abismos.

Confesso que hoje, já no entardecer da vida, como Rubens Alves, não tenho mais do que cinco amigos. Conto nos dedos de uma só mão. Acho que a gente vai ficando chata, mais seletiva, mais exigente, vai descartando tudo o que não é prioridade, o que incomoda, o que desvia do caminho. Puxa, não tenho mais paciência para conversa ruim e futilidade, corro de certos holofotes. E morri de rir outro dia quando pedi um trabalho a alguém, que disse: “Você não tem perfil para esse trabalho. Você é poeta”. Tive vontade de responder. Poetas também têm que comer, morar e viver.

Chego num tempo em que amigos especiais foram morar em outros mundos, sem nem se despedir. Amigos com cheiro de Deus que exorcizavam os meus pecados. Tenho emoção à flor da pele e um coração latifúndio que sangra, se refaz, sangra e cicatriza. Só para citar Roberto Drummond, que tem cheiro de Deus e me manda mensagens angelicais. Posso citar habitantes de outros mundos que gostavam de mim e dos meus textos e sempre estavam por perto, como Amantino, Célio de Castro, Antonio Carlos Gomes da Costa, que me chamava sempre para conversar, ir ao japonês, comer uma barca inteira de sushis e tomar vinho. Ai que saudade dele, que prometeu estar junto comigo quando chegasse o terceiro tempo da vida. Mas partiu antes.

Tenho também leitores que me abraçam, todos os dias, com e-mails encantadores. E o Dr. Flávio Cançado, que até hoje está do meu lado? E o Dr. Marcus Bolívar, que me fascinou por ser cardiologista e tocar flauta transversal? Mas que acaba de ganhar uma bolsa de estudos para fazer pós-doutorado em Harvard? Ele está de viagem marcada com a família e ficará longe por um ano. O que eu vou fazer sem ele?

E a Maya, que é do mundo, mas acha tempo para falar comigo todos os dias? E a Cristina, que fica longe de mim, mas quando a gente se encontra é como se o tempo não tivesse passado? E a Ana Cecília, que nunca se esquece de mim? E a minha amiga Magdala Ferreira Guedes, que neste momento está na região da Provence, na França, casando a filha Marina? Não posso me esquecer do Irmão Raimundo Rabelo Mesquita, que até hoje viaja comigo em pensamento, pois está com mais de 80 anos. E do Carlos Ferrer, o Baiano, que escreve poemas incríveis nas camisetas e outros igualmente belos via zap.

Já tentei contar estrelas, conversar com Deus, fazer pacto com os anjos. Até tentei dormir em rede. Já virei tudo de pernas para o ar, soprei o mofo do fundo da alma, espanei sentimentos, varri a mediocridade para debaixo do tapete.

Será vão me contratar com esse currículo? Uma pessoa que inclusive já é considerada velha para o mercado de trabalho? Nem o projeto sobre a revolução dos velhos que fiz agradou. Mas se alguém esbarrar em um dos meus sonhos extraviados, por favor, devolva. Ou guarde para mim, porque o tempo anda correndo depressa demais.


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