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A língua portuguesa e a arte de vender bem

Se o vendedor soubesse a importância que tem na vida dos consumistas, ele trataria de melhorar não só o português, mas a postura, o sorriso, tudo.


postado em 30/12/2019 04:00

A arte de vender bem é para poucos. Afirmo isso na condição de consumista nata, exigente e irrecuperável que domina as regras do comércio, como as de chamar o cliente pelo nome, conhecer bem o produto e encontrar a linha tênue entre e a cordialidade e o puxa-saquismo.
Até os compradores menos atentos notam tais qualidades. Mas nós, os consumistas, os verdadeiros impulsionadores econômicos, notamos tudo: apesar da aparente ingenuidade advinda do fato de utilizarmos as lojas para nos sentirmos especiais, sabemos que especiais mesmo são os nossos cartões de crédito. Por isso somos cobrinhas exigentes à espera de um atendimento perfeito, sem os típicos vícios de linguagem inerentes à área em questão.
 
Por exemplo, quando um vendedor pergunta “Você não quer dar uma olhadinha em outras peças?”, sinto uma comiseração instantânea. Ora... Qual resposta imediatamente vem à mente do cliente? “Não”. Por quê? Porque o incauto vendedor, no próprio questionamento, já utilizou o advérbio de negação... A chance de a resposta ser um severo não se torna enorme.
 
Fora o diminutivo “olhadinha”, que remete a um ato de simples movimentação dos olhos. Melhor seria “ver”. O seu produto tem valor, senhor vendedor. Não merece uma simples “olhadinha”, a qual, aliás, deve ser parente do “um minutinho”. Fico me perguntando qual a diferença temporal entre um minutinho e um minuto. Por mais que pareçamos presas fáceis e pueris, sabemos contar, senhor vendedor. Somos fáceis, OK, mas não somos estúpidos.
 
Outra mania irritante dos vendedores consiste na vã tentativa de consolação, o “Vou ficar te devendo”. Como assim? A loja não me deve nada, tampouco o vendedor. E o fato de eu não ter encontrado o produto desejado já é suficientemente desapontador para uma consumista, como se diz, “raiz” que nem eu.
 
Por fim, temos o “É só isso?”. Semelhante ao “Você não quer dar uma olhadinha”, o “É só isso?” também carrega a resposta na própria pergunta: “É só isso?”. E o cliente simplesmente responde “É”. Nesse momento, o vendedor sepulta a possibilidade de vender mais e de conceder, a nós, a ilusão de que fomos convencidos a consumir mais.
 
Bem, consumista que é consumista não perde a oportunidade de, ainda que conscientemente, colocar a culpa dos excessos nos outros. Sugira algum outro produto, senhor vendedor. Nem que seja um chaveiro, mas sugira.
 
Ai, ai... Se o vendedor soubesse a importância que tem na vida dos consumistas, ele trataria de melhorar não só o português, mas a postura, o sorriso, tudo. José Paulo Paes, premiado escritor brasileiro, em seu irônico poema Ode ao shopping center, chamou-nos de “almas penadas do mundo do consumo” e comparou os sentimentos provocados pelo consumismo às alegrias celestiais e às dores infernais. É você que nos leva ao céu, senhor vendedor. Você! E se nós, consumistas, vamos ao inferno quando o boleto do cartão de crédito chega ou quando percebemos que nada preenche o nosso vazio existencial, isso é problema nosso. A você cabe apenas o etéreo, como sacerdotisas que representam aquilo que nos é sagrado, o consumo. Vender bem não é uma arte, mas a sua arte.

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