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O amor em tempos de pandemia

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Um amigo me perguntou se poderia namorar de forma segura em tempos de pandemia.

Claro que sim!! O Amor é esterilizante, entorpecente e viricida.




Nada resiste ao calor de uma paixão. A peste, a tuberculose e a Aids até que tentaram parar a febre de Eros. Não seria o Corona a derrotá-lo.

As epidemias costumam ser combustível para grandes paixões.
Já não basta o olhar,
A máscara aguça o desejo.
O tesão é vida.
Profilático amor.
Necessário como o ar que nos entorpece e mata...
Corro o risco,
Risco meu,
Amor meu...

Entendemos, mais que nunca, o amor árabe. Apenas o olhar e a imaginação a penetrar em burcas misteriosas...



O medo faz parte do rito. É o rito!

Mistérios de um vírus que resgata o amor, banalizado por relações líquidas e passageiras.

Meu avô, Sr. Lozico, recebeu a séria incumbência de seu irmão para pedir uma moça em namoro. Colocou o seu melhor terno e foi à casa da pretendida. Ao esperar o pai da moça, ela passou de um cômodo para outro...bastou um olhar. Ela virou minha avó e ele perdeu a amizade do irmão.

O olhar tem este poder, mudar destinos, destruir e construir relações.
 
Portanto, o amor em tempos pandêmicos não apenas é possível, mas absolutamente necessário para manter a esperança e o prazer de estarmos vivos! Basta um olhar...

A sensação de que estamos mofando dentro de casa, por vezes, nos tira a lucidez.

A vontade de sair, namorar, correr sem rumo, falar com amigos, beijar a testa da mãe, fica a cada dia mais incontrolável.




É assim que vejo a reação das pessoas quando abre a fresta de um bar. Euforia total!

Um chopp vira o néctar dos deuses (e é!). Distância social que nada! Proximidade máxima! Quando o álcool sobe então, aí que a proximidade aumenta.

Por outro lado, o risco não é percebido quando não nos interessa.
Sim, nos aproximamos da insanidade pelo prazer pandêmico suprimido. Irreverência juvenil carregada de contradições e riscos.

Tal como adolescentes que sem perceber o abismo, dançamos em corda bamba de olhos fechados, fazemos loucuras em nome do amor.

Enquanto pais, ficamos torcendo para que cheguem do outro lado, sãos e salvos. Com frequência sucumbem e quase sempre congelam nesta fase da vida e assim permanecem, rebeldes equilibristas.



Em se tratando de amor doentio, nada como o de um parente de Ibiá, o Didico.

Didico era o sobrinho predileto do meu avô. Sujeito magro e miúdo, mas com uma audácia de dar inveja a lutadores de MMA. Por isto mesmo, vez por outra, se via metido em brigas de rua que o levava, quase invariavelmente, à cadeia.

Apaixonava-se perdidamente por uma moça e passava a persegui-la pela cidade. Jamais encontrava coragem para chegar perto delas e muito menos declarar seu amor. No princípio elas até que gostavam. Mas, depois de um tempo arranjavam um namorado, uma vez que o pretendente não se apresentava.

Este era o momento da briga inevitável. Sentindo-se traído, Didico se agigantava diante de outro macho e invariavelmente apanhava.
Certa vez o vi fazer uma loucura inesquecível.

Para impressionar uma moça, ele pediu emprestado a lambreta de um representante de laboratório que visitava meu pai, médico da cidade. Apesar do contra do meu avô, ele insistiu e acabou conseguindo o empréstimo. Andei numa dessa lá no Uberaba, justificou-se com meu avô.



A missa de final de tarde acabaria e ele se exibiria para a amada, dando voltas em torno da praça. Talvez até tomasse coragem e a convidasse para uma volta.

Tomou algumas instruções com o dono da lambreta e ...po, po, po...lá foi ele.

Após a primeira volta na praça, parecia cada vez mais confiante. A missa acabou, a moça passou. Por azar, ele estava do lado oposto da igreja.

Não houve o encontro mágico dos olhares.

Continuou andando e depois de umas dez voltas, quando todos no bar da praça já haviam se esquecido dele, eis que surge o grito: –me laça gente, me laça!

Por esta e por muitas outras, meu avô me pediu para trazê-lo para Belo Horizonte para uma avaliação psiquiátrica. O diagnóstico do meu colega Penteado foi na mosca: – Eretomania ou síndrome de Clerambeault. Trata-se de uma doença psiquiátrica que o individuo acredita amar e ser amado por outra pessoa.



– Isso com frequência acaba em tragédia, comentou meu fraterno e competente colega que receitou-lhe alguns medicamentos.
Segundo meu avô, Didico ficou meio sem graça. Mas, pelo menos, não apanhou mais.

Pois bem, eretomania é o que me parece ter alguns amantes de drogas à procura de uma doença. Assim como o Didico se apaixonava platonicamente por uma moça, alguns eretomanos atuais se apaixonam por certas drogas para tratar COVID.

Cada hora é uma. Flertam, contam lorotas de amor e só conseguem falar da amante. Porém, as amantes são infiéis. Arranjam outro propósito e seguem em frente. Desesperados, tentam a tudo custo convencer que a amante é fiel e prendada.



Dão voltas e mais voltas em torno do mesmo tema e não sabem parar. O mito tem que ser preservado, assim como as suas ideias eretomanas.

O pior é que já não se fazem laçadores como antigamente. Para nosso azar, estamos na garupa de um motoqueiro inexperiente, que não conhece caminhos alternativos e nem sabe onde nem quando parar...

A catástrofe é eminente. Não há psiquiatra nem laçadores para tanta loucura e insensatez.

Na última semana, o prefeito de Itajaí, em Santa Catarina, surpreendeu o mundo ao propor mais um tratamento espetacular. Trata-se da fabulosa aplicação intrarretal de ozônio. Se a moda pega, lá se vai a prega mestra...Ozonium in anus outrem refrescus est...

* Tem alguma dúvida ou sugestão, fale comigo pelo e-mail cstarling@task.com.br