Bebel Soares
Anitta está no topo e na boca do povo. Críticas não faltam, especialmente em relação à hipersexualização de uma artista que é referência para adolescentes e crianças. A primeira vez em que ouvi falar dela foi em 2013, com a música "Show das poderosas". Vi crianças cantando, meu filho chegou em casa cantando, aprendeu com uma colega da escola; ele só tinha 4 anos.
Naquele ano, eu havia organizado um workshop de prevenção e combate ao abuso sexual infanti;, como poderia aceitar crianças cantando e dançando aquela música? Acontece que o mundo dá voltas e tive a oportunidade de mudar de ideia.
Em 2018, Sara, sobrinha de uma amiga, estava fazendo tratamento contra leucemia. Sara, uma criança da idade do meu filho, estava carequinha e fez um vídeo no hospital dançando uma música da Anitta; ela era superfã da cantora. Naquela época, tínhamos feito uma campanha linda – #umamedulaparasara – e a medula que ela recebeu da mãe havia pegado. Começou então uma campanha para a Anitta falar com a Sara. A cantora soube da campanha e gravou um vídeo para a Sara. Mas não foi só isso, alguns dias depois ela foi visitar a Sara em casa. Mas ali não era a Anitta personagem, era a Larissa, a pessoa que conseguiu um tempinho na agenda e foi lá, conversou, fez fotos, fez a alegria da menina. E eu fiquei fã daquela pessoa que se esconde atrás da personagem.
Depois disso já cantei "Show das poderosas" no karaokê, já dancei “Envolver” e coloquei “Boys don't cry” numa playlist. Porém, ainda tenho muitas restrições em relação à hipersexualização, que não é criação dela, mas da qual ela usa e abusa para chegar ao topo. Anitta não inventou a hipersexualização, ela surfou nessa onda porque viu que assim ela conseguiria chegar onde queria. Como toda mulher, ela buscou aceitação. Mudou o nome, mudou o nariz, mudou a boca, mudou o cabelo, mudou o corpo para se encaixar em um padrão de beleza que é imposto a todas nós.
Para chegar ao topo ela precisava se encaixar em padrões, e foi isso que ela fez. Encaixou-se num padrão de beleza, num padrão de música, num padrão hipersexualizado e, a cada clipe, ela vai um pouco além. Acontece que existe uma grande diferença entre liberdade sexual e banalização do sexo. Existe uma diferença entre ser uma mulher livre empoderada e ser escrava de uma imagem. Essa linha é tênue.
Em 2023, Anitta foi indicada ao Grammy, depois de 50 anos sem nenhum representante brasileiro na premiação – o Brasil levou o prêmio de melhor álbum de pop latino do Grupo Boca Livre. Anitta estava linda naquele vestido preto, mas não levou o prêmio de artista revelação. A ganhadora foi a maravilhosa e impecável Samara Joy, com sua voz perfeita, sua pele negra, sua beleza natural.
Com ou sem esse prêmio, a verdade é que Anitta chegou ao topo e, para tal, ela se encaixou em padrões.
Os exemplos não chegam só de fora, não vêm apenas das divas pop. Todas nós somos reféns de padrões. As divas pop são instrumentos de uma indústria muito poderosa, indústria dominada por homens. Se o corpo é meu, as regras ainda são deles. Mas os homens que consomem mulheres como se fossem objetos não incomodam. Quem incomoda é Anitta, que também foi uma menina que queria se encaixar em um padrão, que queria ser aceita. Uma menina da periferia, do funk, que, para conseguir o sucesso que almejava, deixou suas origens e se transformou no que o mundo queria ver.
Parece que a maioria das mulheres precisam trilhar o caminho da hipersexualização para ter reconhecimento. Não me agrada esse caminho, especialmente quando a pessoa é uma referência para crianças e adolescentes num país já conhecido pelo turismo sexual, pela exploração dos corpos femininos. Um país onde crianças são estupradas todos os dias e mulheres são objetificadas o tempo todo. Espero que Anitta perceba, mais cedo ou mais tarde, que ela pode fazer diferente e que, fazendo diferente, pode ficar ainda maior.