Bebel Soares
Conveniente cultura da pedofilia. Cultura do estupro. A pedofilização social. A estética feminina que busca a juventude eterna. A naturalização dos relacionamentos entre homens e meninas.
“Músicas de cunho sexual, erotizam crianças. A criança erotizada fica mais vulnerável ao abuso. Quando agimos de forma a tornar a criança mais vulnerável do que já é, alimentamos a cultura do estupro. Isso é forte e é real! Estes conteúdos, não são pra elas!
Quando incentivamos a criança a consumir e reproduzir estas músicas e danças, estamos prejudicando a formação dela. Isso não é fofinho, não é só uma dança, só uma música, é EROTIZAÇÃO INFANTIL. O adulto quer cantar, quer dançar. É uma decisão dele. Mas, poupe as crianças desse conteúdo!” Leiliane Rocha Psicóloga
Um exemplo de música que as crianças têm cantado e dançado é um hit:
“E vem sentando gostosinho pro pai. E vem jogando de ladinho, neném.”
Isso não é normal, é exposição de crianças a conteúdo erótico. Mesmo que elas não entendam o conteúdo, acabam querendo saber do que se trata. No caso dessa música, ainda tem outro fator, pai e neném num contexto sexualizado, num país que viu, recentemente, uma bebê de 27 dias, estuprada pelo pai, morrendo em consequência dessa violência. A quantidade de abuso contra crianças e adolescentes no Brasil é absurda, não podemos relativizar essas letras, dizer que é só uma música. Quando relativizamos estamos favorecendo a cultura do estupro.
História 4
Foi bem traumatizante porque partiu de um tio que considerava como pai. Tinha apenas 10 anos. Dormia na casa dele praticamente todo final de semana, para brincar com minhas primas. No início, eu fiquei maravilhada, achando que ele me tratava como uma filha. Atencioso, carinhoso, me dava os mesmos presentes que minhas primas ganhavam, me levava para passear, lanchar e viajar. Como sempre fui de dormir tarde, minhas primas iam deitar e eu ficava vendo TV. Nos primeiros dias, ele ficava vendo TV comigo; com o tempo, passou a fazer carinhos no meu pescoço e perguntava se eu estava sentindo arrepios. Apesar de achar estranho, não via maldade, pois ele era um pai para mim. No dia em que ele fechou a porta, percebi que tinha coisa errada. Então ele me pediu abraços, que eu fizesse carinho no pescoço dele, dizendo que estava arrepiado, que ficássemos de mãos dadas, falando que eu era muito bonita, que eu tinha o corpo lindo e muito bem formado, para uma menina. Eu atendia aos pedidos dele com muito medo. Ao mesmo tempo, pensava que estava ficando louca em pensar mal dele, que aquilo podia ser normal, pois ele era meu tio e gostava muito de mim. Então, pra não o magoar, inventei que estava com sono e fui me deitar. Ele foi comigo até o quarto e ficou me olhando, parado na porta. Um dia, meu pai me disse que eu não iria mais dormir na casa das minhas primas. Senti alívio por estar livre de tudo isso e, principalmente, por não me sentir mais culpada pelo que estava pensando do meu tio (que ele não era aquela pessoa maravilhosa que imaginava). Até hoje tenho medo de ficar sozinha com esse tio, pois ele continua com os assédios. Hoje, sei que não fui a única vítima, apesar de ser um assunto tabu na família.
História 5
Na minha casa tinha um motorista que trabalhou lá por anos. Era ele quem me levava para a escola e buscava, e todos os dias fazia carícias impróprias em mim. E no final falava que se eu contasse, ele iria negar e ninguém acreditaria em mim. Isso foi dos meus 7 até os 14 anos. Nunca contei para ninguém, porque tinha medo de ser julgada e de não acreditarem em mim.
História 6
Meu tio torto (casado com a irmã da minha mãe), começou a namorar minha tia quando eu tinha 3 anos. Namoravam na casa dos meus pais para ter um pouco mais de liberdade, e ele brincava muito comigo. Ele sempre me pegava no colo e me colocava sentada. Lembro-me de quando ele começou a passar muito as mãos em minhas pernas; eu tremia, ele dava "tapinhas" na minha bunda, eu era muito nova, mas sabia que algo estava errado. Ele me ensinava a nadar no sítio dos meus avós. Lembro-me de ele me alisar por baixo da água, me colocava no colo dele dentro da água e eu sentia aquele volume, era horrível, eu não entendia direito o que acontecia.
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de exploração sexual de crianças e adolescentes, estando atrás apenas da Tailândia. Por ano, de acordo com um panorama organizado pelo Instituto Liberta, são 500 mil vítimas. Para proteger nossas crianças, precisamos ter diálogo, falar sobre as partes íntimas, nomeá-las corretamente, explicar que não podem ser tocadas por ninguém, e manter uma relação de confiança para que, caso algo aconteça, elas tenham coragem de nos contar. Educação sexual é orientar as crianças sobre as partes do corpo, o que são partes íntimas. Nomear vulva, vagina, pênis, ânus... É ensinar sobre consentimento. Educação sexual não sexualiza, protege.