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Estado de Minas PADECENDO

O aborto e a perda gestacional

É um momento muito delicado e que merece, tanto quanto qualquer outra mulher, um atendimento humanizado%u2019


postado em 01/03/2020 04:00

bebel soares 


(foto: Depositphotos)
(foto: Depositphotos)



Estamos vivendo dias de extremismo e de indignação seletiva. As pessoas reclamam de alguns males da nossa sociedade e ignoram outros, por puro interesse pessoal. Cinquenta e sete por cento dos brasileiros acreditam que a mulher deve ser punida e ir para a cadeia por fazer um aborto. Mas ninguém menciona o pai nessas situações e, que eu saiba, ainda precisamos que um espermatozoide chegue ao nosso óvulo para que uma gravidez aconteça.

Quando a mulher escolhe fazer um aborto ela está matando uma pessoa, esse é o grande argumento. O contraditório disso é que, quando a mulher fica grávida e, por algum motivo, o bebê morre durante a gestação, aquele feto é tratado como “material a ser descartado” e a mãe que perdeu o bebê não tem direito de viver o luto.

Muitas mães/gestantes vão ao hospital para fazer o parto de um bebê sem vida ou uma curetagem e ficam na mesma área onde outras mulheres estão dando à luz. Dois momentos tão diferentes, o contraste entre a vida de um e a morte do outro. O encontro da alegria com a tristeza. 

Não é justo que as mães que estão perdendo seus bebês passem por isso ao lado das que estão tendo os seus fi- lhos. Que fiquem internadas ouvindo o choro dos recém-nascidos. É um momento muito delicado e que merece, tanto quanto qualquer outra mulher, um atendimento humanizado.  O que ocorre na maioria dos hospitais do país hoje é desumano.

Transcrevo aqui partes de depoimentos de mães que passaram por isso:

“Tive uma gestação interrompida entrando no sexto mês e tive que ouvir do médico: ‘Mamãe, não se alegre com o coração batendo da sua bebê... Não poderemos salvar sua vida...’” – Cecília

“Difícil pra quem perdeu o bebê e difícil pra quem teve o bebê e se sente constrangida com a dor do outro num momento tão iluminado e especial.” – Maria Flávia

“Minha bebê nasceu de 9 meses, mas como o parto demorou muito ela morreu e eu fiquei em um quarto onde todas estavam com seus bebês e perguntando onde estava o meu.” – Jamaille

“Fiz uma curetagem. Quando entrei na sala onde seria realizado o procedimento, a primeira coisa que eu vi foi o bercinho e essa imagem nunca saiu da minha cabeça. O filho que eu estava perdendo não seria colocado naquele bercinho.” – Luana

“Perdi meu bebê com 30 semanas. Após o parto, uma enfermeira me encaminhou para o pré-parto. Lá eu ouvia e via as mães em trabalho de parto, mas era melhor que o pós-parto, ver as mães de colo cheio e eu de colo e barriga vazios. Algumas enfermeiras que cuidaram de mim falaram: 'Não fica triste não, ano que vem você está aqui de novo.'” – Ana Elisa

“Passei por isso 2 vezes. A primeira foi a pior. A médica, após retirar o meu bebê sem vida, achou 'estranho' que eu e meu marido quiséssemos ver e nos despedir dele.” – Clara

“O pior é escutar das pessoas que aborto na primeira gestação é algo corriqueiro. Se esquecem que a mãe já ama desesperadamente aquele serzinho desde o positivo e que para ela é a pior dor que existe. É necessário viver o luto para superar.” – Semíramis

“Meu anjinho nasceu prematuro, 26 semanas, faleceu no oitavo dia, eu estava no carro a caminho de casa, voltamos correndo, chegando lá ele estava embrulhadinho num papel, parecendo papel de pão, a enfermeira da UTI tomou um susto quando pedi para tirá-lo do papel, quis dar banho e vestir a roupinha nele! Lembro disso todos os dias como se fosse ontem... e já se passaram nove anos!” – Elga

“Foi uma tortura, a equipe médica estava ouvindo música, conversando e rindo muito. Entrei em desespero, chorei muito. O pior foi o médico que disse que eu era nova e podia ter outra logo e que ia me dar atestado médico de 15 dias porque eu não tinha o bebê para cuidar! Não me deixaram despedir dela.” – Elizandra

“Passei o dia ouvindo choro de bebês, que por muitos meses ficaram em meu pensamento. E, enfim, depois do procedimento, nunca vou me esquecer de cada metro quadrado daquele lugar (com indicações de em qual lixeira jogar 'fetos de até 25cm'). Fui levada a uma sala junto às mamães que acabaram de parir!” – Danielle

“Eu passei por isso e foi aterro- rizante. E ainda escutei das enfermeiras: ‘Você está chorando assim por conta disso? Não era nada ainda!’” – Flávia

“O médico me deu a notícia do aborto no corredor do hospital, na frente de todo mundo. E ainda me disse que eu havia perdido um pedaço de pão. Me senti muito humilhada.” – Delaine 

A mãe que perdeu consome-se na sua dor, a mãe que está com o bebê incomoda-se por não saber como aco- lher. Muitas vezes, além de perder o bebê, elas são impedidas de ter um acompanhante ao seu lado e têm que ficar ouvindo os sons dos bebês de outras mulheres com suas mães. Uma feliz, não querendo transparecer para não aumentar a tristeza da outra. E a que perdeu, querendo sumir do lugar onde vê as outras com seus bebês nos braços e felizes. Independentemente da idade gestacional, a mãe que perdeu o bebê precisa ser acolhida.

Se você passou por uma perda gestacional ou perda neonatal, ou tem alguém próximo que passou por isso e você não sabe como acolher, convido a conhecer o Grupo Colcha –  grupocolcha.com.br. Um grupo de mulheres profissionais de diversas áreas que sentiu a necessidade de acolher famílias que passaram por isso. Um grupo de apoio que busca abrandar as dores deste momento.

Foi através de experiências e relatos que elas se uniram para que no mais profundo momento de dor, as famílias, principalmente mães e pais, de bebês anjos possam ser informadas e amparadas por uma estrutura de amor conjunta e que o momento da despedida de seu bebê seja preservado e respeitado.

O grupo busca amparar e dar suporte às famílias no momento da notícia, bem como orientar os cuidadores durante a internação hospitalar, condutas mais adequadas que poderão abrandar esse sofrimento, ou pelo menos tornar esse momento menos traumático do que já é por sua essência.

Se você não passou por isso, sensibilize-se. Entenda que quem passa por uma perda gestacional sente, sofre. Se não sabe o que dizer, não diga nada, dê um abraço.

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