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Estado de Minas

Era química não. Era alquimia


postado em 22/03/2019 05:07 / atualizado em 27/03/2019 14:50

Completou o copo e, brincando com a espuma rica, a espalhou pelo rosto. Compôs uma barba tosca e enquadrou-se para uma selfie

Quarenta e sete minutos de aula, e ela se perguntando se fizera mesmo a escolha certa. Em meia hora, já tinha ouvido palavras, termos e expressões que jamais escutara vida afora. Aflição! Aflição!! Notou que boa parte do que era apresentado tinha relação com o universo da química, outra à biologia, outra a sei lá o quê... E não é que, anos atrás, se decidira pelo estudo da filosofia e então se via aliviada por não ter mais de compreender aqueles fenômenos que se resumiam numa complexa equação – ou em várias.

Ficou olhando ao redor da sala, a turma compenetrada, e deu de lançar uma pergunta (sabem aquelas perguntinhas infelizes?) ao mestre cervejeiro.

– Professor, jura que pra fazer cerveja artesanal a gente tem de aprender tudo isso mesmo?

Agigantou-se aquele silêncio, e veio a sensação de que todos os olhares se voltavam a ela, envolvidos numa nesga de compaixão quase misericordiosa e numa ponta de espanto. Ela se encolheu na cadeira, e aqueles segundos pareciam durar uma eternidade... O bastante para que alfa-ácidos, beta-ácidos, polifenóis, isomerização, pitching rate, off-flavor, atenuação, trub... tudo aquilo girasse em piruetas pelos cantos do cérebro.

O mestre respirou pausadamente. O mundo cervejeiro lhe emprestara paciência o bastante.

– Existem coisas que a gente faz na vida quase de um jeito autômato. Pode até dar certo, ficar bom. Mas a gente tem a chance de fazer tudo melhor quando compreende os porquês, não acha? E o bom da festa é isto: ter a chance de abrir ao outro também a janela da capacidade autoral. Que tal?

Ela se reaninhou, a sombra do constrangimento emergindo como um fantasma, e foi se prometendo, como num mantra, jamais elaborar questionamentos tão tolos. Daí, o mestre virou-se de novo. Ao dar com a cena, temeu pelo pior...

– Ah, e não se envergonhe da pergunta. Essa inquietação fast-food não é só sua. É universal.

E emendou com uma máxima que ela já havia ouvido por aí.

– É como se a gente tentasse chegar ao 10 sem passar pelo 6.

Ufa! Aquilo a aliviava. E não é que também ensinava!! Então, ela pensou no mestre, tempos depois, enquanto girava o malte com a pá cervejeira numa cadência toda especial, a que o cozimento fosse homogêneo, ou ao lavar os grãos sem pressa, a que transferisse o aproveitamento perfeito para poder finalmente iniciar a fervura. E lembrou-se dele uma vez mais ao dar um toque pessoal àquela composição nova de lúpulos. Aroma singular. Compreendendo, enfim, que não era química. Era quase alquimia.

Dali para a geladeira, a fermentação cuidadosa e paciente que ajudaria a dar em boa cerveja. E naquela sexta-feira, terceira garrafa, lua plena, os sabores abraçando das papilas à alma, o sentimento que lhe chegava era decididamente de leveza e agradecimento. Ameninou-se, correu à cozinha e tomou a espátula às mãos. Completou o copo e, brincando com a espuma rica, a espalhou pelo rosto. Compôs uma barba tosca e enquadrou-se para uma selfie de pura gratidão ao mestre. Pouco importava se alta madrugada. Pouco importava se gesto pueril. Mais valia o que tinha de espontâneo. Pelo zap, enviou-lhe a imagem. Era parte daquela espuma essencial que agora a acompanhava para todo o sempre. Como um sopro de generosa inspiração.

>> A coluna Espuma essencial, que estreia hoje, será publicada quinzenalmente


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