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Superar fraquezas

Bancar o herói na vida é querer ser mais do que se é, é carregar o mundo nas costas, é não saber jogar a toalha de vez em quando, é ser incapaz de dizer "não dou conta"


postado em 15/12/2019 04:00 / atualizado em 14/12/2019 20:00


 
 
“Sempre fui uma pessoa forte. Nunca demonstrei qualquer fraqueza e não deixo que percebam meus sentimentos ruins. O problema é que, ultimamente, tenho me sentido deprimido e angustiado. Não estou me conhecendo. O que está ocorrendo?" 

Bruno, de Ouro Preto – MG
 
Uma amiga me contou que, há alguns dias, presenciou um fato interessante. Ela e um amigo corriam juntos e ele, com muito esforço, mantinha um ritmo firme e acelerado. Depois de algum tempo, exausto, ele parou e falou para a minha amiga: 'Como é difícil fazer parecer fácil'. A característica fundamental da nossa natureza é que somos seres limitados, portadores de forças e fraquezas, facilidades e dificuldades, capacidades e incapacidades. Ensinaram-nos que devemos ser fortes em qualquer circunstância, nunca deixar a peteca cair, sempre dar conta, independentemente das situações.
Isso gerou um esforço sobre-humano de parecer que somos infalíveis, que somos onipotentes. O que é real, porém, sempre vem à tona. E um dia a casa cai. Os conceitos de força e fraqueza não podem ser entendidos de maneira absoluta. Todas as pessoas são frágeis por natureza. Tudo que é mortal é frágil. Fortes são aqueles que aceitam e administram essa fragilidade. Fracos são os que, não aceitando seus limites, abusam de seu potencial e pagam caro por isso.
A esse comportamento tenho dado o nome de postura do herói. Bancar o herói na vida é querer ser mais do que se é, é carregar o mundo nas costas, é não saber jogar a toalha de vez em quando, é ser incapaz de dizer 'não dou conta'. É querer ser forte o tempo todo, é esconder os sentimentos negativos, é nunca dizer não, é se matar para parecer fácil o difícil. Todo herói, mais cedo ou mais tarde, se torna vítima. É o que ocorreu com o leitor acima. Brincando de ser Deus, fingiu não ser afetado pela realidade e agora estranha a cobrança que sua humanidade lhe faz em forma de angústia e depressão.
 
Trata-se inclusive de uma lei física: a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. A todo excesso corresponde um recesso. A toda tensão excessiva corresponde uma depressão. O fenômeno do estresse está situado nessa estrutura. E para agravar, o herói, julgando-se maior e superior aos outros, tem muita dificuldade de pedir ajuda. Ele normalmente tem muita facilidade para ajudar as outras pessoas, resolver os problemas dos outros, ensinar, orientar e proteger e tem uma enorme dificuldade de ser ajudado, em aprender, em ser orientado ou ser protegido. Para ele, pedir ajuda é reconhecer uma fraqueza que nele jamais é admitida.
 
Não existem pessoas fortes e pessoas fracas. Forte é quem lida bem com as quedas, erros, limites. Fraco é quem nega suas relatividades e quer ser absoluto. Forte é quem enverga, mas não quebra, à semelhança daquela plantinha tenra que, durante a tempestade, se curva totalmente no solo e que após a chuva volta ao seu estado anterior. Fraco é quem quebra, mas não enverga, como aquelas árvores frondosas da floresta amazônica, que se cair nunca mais voltam a levantar.
 
A cultura americana, fabricante de super-heróis, foi impiedosa com todos nós, principalmente os homens, incentivando-nos a gastar todas as nossas energias para provar que estamos além de todos os limites: 'Homem não chora!', 'Prove que você é macho!', 'Mulherzinha'... Estamos na vida para aprender a lidar com os fatos positivos e negativos que nos circundam durante toda a nossa trajetória ou para provar para nós e para os outros que jamais cairemos?
 
Os americanos costumam classificar as pessoas em “ganhadores” e “perdedores”. Enquanto assim o fazem, se esquecem de uma outra classificação mais em consonância com a realidade humana: pessoas felizes e pessoas infelizes. A vida é como um rio. Lutar contra a corrente não é sábio. Agarrar-se às margens também não é bom. Deixar-se levar, cooperando ativamente com a corrente e aceitando as dificuldades, é o máximo de exercício de flexibilidade e de se chegar ao oceano.
Viver humanamente exige humildade no verdadeiro sentido etimológico da palavra. Humildade vem da palavra latina “humus”, que significa terra, chão. Botar os pés no chão é aceitar que não somos deuses e, por isso mesmo, caímos, perdemos, hesitamos e sofremos. Em compensação, podemos sempre começar de novo. 

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