Jornal Estado de Minas

COMPORTAMENTO

A traição traz sofrimento, mas nos prepara para atravessar outras dores


 
“Antônio Roberto, eu tinha 11 anos de namoro e noivado e descobri que minha noiva estava me traindo havia seis meses com um colega de faculdade dela. Terminei o noivado. Não a quero mais. Só que gosto dela e estou sofrendo muito. Fico abafado e não acho um caminho para esquecê-la. Gostaria de uma ajuda sua.”

Roberto, de Belo Horizonte
 
Não é possível, a qualquer um de nós, atravessar a existência sem perdas, abandonos, traições e desilusões. O envelhecimento, a doença, a morte, a perda ocorrerá a todos nós, devido às circunstâncias humanas, que são de limites, contingências e imperfeições. Somos ensinados a gastar uma enorme energia para evitar o inevitável e pouco investimos no aprendizado de como lidar com os infortúnios.
Independentemente do reconhecimento da “injustiça” a que o leitor acima se diz submetido, das análises generosas a seu favor, o fato é que o que ocorreu, ocorreu.
 
A liberdade, o querer, a autonomia da pessoa, marca indelével da nossa constituição é, há um tempo, raiz de intenso prazer e, por vezes, fonte de dor e sofrimento. Sartre dizia: “Meu inferno é o outro”. Resta a todos nós o dever e a incumbência de lidar com o fenômeno da contrariedade. Muitas e muitas vezes, o mundo ocorrerá diferentemente do nosso desejo e a capacidade de atravessar nossa dor será uma salvação. Não perder não é possível. Ultrapassar a perda é possível. Isso vai nos exigir, primeiramente, muita paciência.
 
Consentir no sofrimento, no choro, no abafamento, na raiva, no ressentimento é o primeiro passo.
Expressar esses sentimentos para si mesmo e para os íntimos é o segundo caminho. Elaborar a realidade é o terceiro portal. O que é, é. Ser feliz é trilhar a trajetória da dor. Consente-se no seu sofrimento e aguarde o tempo da esperança. Seu coração se abrirá a novas oportunidades, à clareza da realidade e você verá com certeza que o mundo, independentemente de sua ex-noiva e de seus comportamentos, está convidando-o às mudanças e à alegria.
 
Somos muito ansiosos e muito controladores. Queremos, com pressa, que as coisas sejam do jeito que imaginamos ser. Não são as circunstâncias que nos fazem infelizes, mas como lidamos com essas circunstâncias.
Nas mesmas circunstâncias, uns são felizes e outros infelizes.
 
Dizer que é bom ser traído, ser injustiçado, ser desprezado é fugir ao real. Permanecer, porém, nesse avassalador patamar de comodidade é não resolver o problema. A vida é infinita, ao mesmo tempo em que é relativa. É um convite à travessia. Sofra tudo o que você tem direito, não rejeite nada, mas saiba que, além de todas as vicissitudes, há um amanhecer esperando por você. Essa reação de persistência, essa teimosia de que a única pessoa digna de ser amada e de amar é sua ex-noiva atrasa o caminhar para novos horizontes. Nada é fixo. A natureza do mundo é a flexibilidade. São as amorosas possibilidades. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará” (Lulu Santos).
 
Se o coração se abrir, apesar do sofrimento normal e natural, estaremos diante do desconhecido e do inesperado.
E descobriremos o verdadeiro mundo, em que as coisas e os fatos ocorrerão, não na ordem em que desejaríamos, mas na ordem das possibilidades.
 
E, com sabedoria, as aproveitaremos com a visão finalística de sermos felizes, único mandamento da vida. O que passou, passou e não volta nunca mais, mesmo porque: “Hoje é o primeiro dia do resto nossas vidas”. 
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