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Estado de Minas

Homens inseguros

A divisão de responsabilidades e o crescimento da mulher enquanto profissional tem trazido muito conflito nas relações afetivas


postado em 08/09/2019 04:00 / atualizado em 07/09/2019 22:02








Antônio Roberto, namorei um rapaz e o nosso relacionamento estava muito bem, até que arrumei um emprego de destaque em uma grande empresa com um excelente salário. Como tenho de fazer reuniões, ficar até mais tarde no trabalho e viajar, ele simplesmente foi esfriando comigo e, há 10 dias terminou tudo, alegando que queria uma mulher mais de- dicada. Será que estou agindo de forma errada?”


.Jane, de Curvelo
 
 
Antigamente, homens e mulheres tinham papéis definidos de maneira rígida. A mulher ainda cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava fora, era sempre o provedor e não participava efetivamente da educação dos filhos. Esse modelo ainda é perseguido de maneira consciente ou não por inúmeros homens. O avanço feminino é um fato real e inevitá- vel. Trata-se do avanço da dignidade humana e da semelhança entre os seres.
 
A relação homem e mulher vive um período de transição. A liberação feminina, em seus vários aspectos – financeiro, social, profissional e psicológico –, apresenta um marco divisório entre o passado e o presente. As regras da relação conjugal estão mudando. Muitos homens participam intensamente das tarefas domésticas, da educação dos filhos e, em compensação, muitas mulheres dividem as despesas domésticas. São inúmeros os casos em que, em uma separação, o pai fica com a guarda dos filhos, o que, no passado, era impensável.
 
Embora do ponto de vista teórico seja fácil perceber a semelhança entre o homem e a mulher, na prática, a divisão de responsabilidades e o crescimento da mulher enquanto profissional tem trazido muito conflito nas relações afetivas. É grande a queixa das mulheres, que, embora trabalhando fora, ainda mantêm a responsabilidade pela gestão doméstica. Muitas mulheres resistem à participação financeira, pensando ser o homem responsável por prover a família. Esse conflito de papéis é responsável por inúmeras brigas do casal e resulta, às vezes, em separação, como é o caso da leitora acima.
 
O homem se sente muito inseguro e temeroso com as mulheres “independentes”. O novo modelo ainda é desconfortável tanto para as mulheres quanto para os homens. Por se tratar de um processo social, as tarefas masculinas e femininas ainda não estão devidamente internalizadas, gerando muitos sentimentos negativos, sobretudo o ciúme nos homens e a culpa nas mu- lheres. Todos se sentem sobrecarregados com o acúmulo de novas obrigações para a mulher e para o homem, além das chamadas áreas cinzentas na nova definição de papéis. Acrescenta-se a isso a competição tradicional entre homem e mulher, a convivência se torna difícil e fragilizada. Não raro os homens se sentem muito inseguros, por exemplo, quando as mulheres ganham mais do que eles.
 
Todo mundo procura a própria independência financeira, base da autonomia e do próprio desenvolvimento enquanto pessoa. O grande equívoco é confundir a independência econômica com a independência afetiva. Essa confusão já existia para os homens. Como era ele quem pagava as contas, sempre se sentiu no direito de uma liberdade absoluta, de “não dar satisfações” à sua companheira e de impor um modelo em que ela era obrigada a se submeter a todas as regras ditadas pelo provedor. As mulheres, hoje, ao se tornar independentes, tornam o fato quase um desafio para os seus parceiros, parecendo dizer: “Não preciso de você e sou superior a você”. Em outros momentos, continuam a ansiar por homens protetores e ficam frustradas se o namorado ou marido não desempenham esse papel. Todos somos interdependentes. Precisamos uns dos outros no campo do afeto, mesmo se independentes financeiramente. A consciência desse momento de transição, em vez de nos afastar uns dos outros, deveria fortalecer os casais, que, necessariamente, devem negociar as obrigações e os novos papéis.
 
Quando há amor, ficamos alegres com o crescimento do outro e, se estamos do mesmo lado, todos ganham com isso. Casamento não é um viver em função do outro, mas olhar, de mãos dadas, na mesma direção.


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